Peregrinação Diocesana a Fátima: Homilia de D. José Ornelas

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Homilia de D. José Ornelas na Peregrinação Diocesana a Fátima 2017

Mãe carinhosa nas nossas famílias

Viemos como peregrinos até à casa da nossa Mãe e Mãe da Igreja. Fátima é uma das muitas casas que Maria oferece aos seus filhos, em todo o mundo, porque ela participando da ação redentora do seu filho, continua a cuidar deles, com carinho materno. É sob este olhar de Maria que eu gostaria de mencionar três dimensões fundamentais que guiam a nossa peregrinação da Diocese de Setúbal.

Viemos como famílias, porque estamos a dedicar uma atenção especial às nossas famílias nestes dois anos, pois vemos na Mãe de Jesus a figura e o exemplo a seguir por cada pai e cada mãe, porque vemos em Jesus o protótipo de um Filho carinho e atento para com os pais. Em cada família se realiza o maravilhoso dom do acolhimento da vida, do carinho com que se os faz crescer os filhos, do esforço e dedicação para que nada falte a estas nossas vidas, do cuidado para defender do que pode pôr em perigo o desenvolvimento e a dignidade de cada um dos seus membros. Pensemos que esse foi o percurso de Maria e José perseguidos por Herodes, passando necessidades por alturas do parto, emigrando para o Egito, para proteger a vida do Filho que Deus tinha confiado aos seus cuidados; pensemo-los, sentindo dificuldade de entender o caminho que Ele ia seguindo à medida que ia crescendo, preocupando-se e acorrendo quando a polémica estalava à sua volta, mas sempre a seu lado quando sofria, até quando o pregaram numa cruz. Maria estava lá, quando a maior parte dos discípulos desertaram.

Dessas lutas, desses cuidados são feitas as nossa famílias e Maria olha para cada uma delas com ternura de mãe protetora e é particularmente sensível às dificuldades que encontram, e particularmente às novas dificuldades que se nos deparam no mundo em que vivemos. Habituada a escutar a palavra de Deus e a meditá-la no seu coração, Maria revela-se carinhosa e próxima, mas igualmente firme nas dificuldades, forte na dor e sobretudo fiel no amor a Deus e ao seu Filho. E continua hoje… aos seus filhos.

Esse é o primeiro desafio que Maria, Mãe e Jesus deixa hoje às nossas comunidades e famílias: que saibamos acolher a Deus nas nossas casas, como ela O acolheu na visita do anjo, pois aí Ele será sempre fonte de luz, de força, de perdão, de amor fiel, de desafio, para que a graça de Deus que foi depositada sobre Ela possa chegar ao mundo. Que em cada uma das nossas casas saibamos acolher-nos com amor, respeito e ternura; mas igualmente façamos o esforço necessário e honesto para perdoar, superar desavenças, acudir a quem mais precisa. Que sejamos capazes de acolher os familiares mais idosos e de proporcionar-lhes apoio e dignidade nas suas debilidades. Que os nossos jovens sintam o carinho dos pais e tenham neles o apoio de que necessitam para se desenvolverem como pessoas livres e responsáveis, mas que saibam também crescer na responsabilidade gradual da vida das suas próprias famílias, que não depende apenas dos mais velhos, mas de todos. E não esperem os jovens que a família seja perfeita para nela se implicarem e comprometerem. A vida da família, o nível de satisfação de felicidade de uma família, depende tanto do pai e da mãe, como dos mais novos e os de mais idade.

Modelo de Igreja acolhedora

Nós viemos a Fátima como Diocese, como família diocesana. A festa dos apóstolos Simão e Judas, que hoje celebramos, lembra-nos essa dimensão de Igreja em que se inserem as nossas famílias. Estes nomes que ouvimos, de Pedro, Tiago, João… até Simão e Judas Tadeu, são os nossos antepassados, são os nossos tios-avós. Como Igreja nós temos uma história. Nós contamo-la no Credo, nós contamo-la na nossa vida. Esta é uma família que Deus constituiu, como nos dizia a primeira leitura de hoje:

“Vós sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, que tem Cristo como pedra angular”

Na sua família de Nazaré e na nova família dos discípulos de Jesus à qual aderiu, Maria é Mãe, mestra e modelo para esta família que é a Igreja. Uma Igreja que, como ela, não se fecha no comodismo ou no medo, mas que se une aos discípulos formando comunidade. Maria, encontramo-la antes da vinda do Espírito Santo, rezando com os discípulos, na sala onde se tinha celebrado a primeira Eucaristia de Jesus. É uma igreja que aprende com Maria a rezar, pedindo e abrindo o coração ao Espírito de Deus. Uma Igreja que não tem medo de assumir os dramas do mundo, até estar perto das cruzes onde os seus membros sofrem de doença, de injustiça, de pobreza, de discriminação de desemprego e desilusão.

Junto com os apóstolos – com Simão e Judas Tadeu que hoje celebramos – a nossa Mãe ensina-nos a paciência e a misericórdia de Jesus para com as debilidades dos membros da comunidade. Ele sabe que nós, como os primeiros apóstolos, não somos perfeitos; que temos dificuldade de superar antigos hábitos: visões de poder e grandeza, situações dolorosas de divisão na família, irregularidades de vida familiar e equívocos de opções tomadas que contrastam com o caminho das bem-aventuranças e do dom da vida que Jesus nos propõe. Foi assim também com os primeiros discípulos. Tiveram dificuldade em entender o caminho que Jesus lhes propunha, mas depois acabaram todos por dar a vida por Ele. E Maria, coloca-se solidariamente em oração ao lado desses discípulos que não são perfeitos. Ela é a expressão de uma comunidade e de uma Igreja que não aceita só os bons, os que estão todos regulares, os que não têm senão; mas também não se resigna perante o que não é correto e causa sofrimento e divisão, buscando, no dom do Espírito Santo, os caminhos da reconciliação e da coerência ao Evangelho.

Queremos acolher este exemplo e este desafio de Maria para a nossa Igreja de Setúbal. Queremos ser uma Igreja que abre as portas da misericórdia de Deus (e também as portas das nossas Igrejas) a todos os que precisam, que batem, que buscam, que se enganam. Queremos fazer caminho com aqueles que vão sendo tocados pelo Espírito através também do nosso exemplo e da nossa palavra. Queremos ser menos exclusivistas e mais acolhedores; menos juízes e mais misericordiosos; menos fechados nas nossas certezas pessoais ou de grupo e mais abertos à pluralidade dos dons de Deus que constroem a Igreja na sua diversidade.

E permitam-me que faça duas referências, precisamente deste diálogo de abertura que Maria nos propõe. Estamos a celebrar esta nossa peregrinação a pouco mais de um mês da morte do nosso primeiro bispo D. Manuel da Silva Martins. Para a nossa Igreja de Setúbal, ele é, e permanecerá para sempre como o primeiro elo que nos liga à lista dos apóstolos que lemos no Evangelho de hoje. Nós faremos sempre menção dele, como se faz com as devidas proporções, em relação aos apóstolos para a Igreja Universal. Ele foi aquele que Deus designou como primeiro bispo. É muito importante perceber que Jesus, hoje, no Evangelho, se põe a rezar antes de escolher os discípulos. O nosso Bispo não foi simplesmente uma decisão humana. Foi um carinho de Deus para a nossa Diocese. Nós fazemos parte, através dele, desta comunhão que liga toda a Igreja, em todo o mundo, e que se liga àqueles que já atingiram a totalidade da vida junto de Deus: da nossa Mãe, dos apóstolos e dos seus sucessores até D. Manuel. Hoje, o nosso primeiro bispo, a partir da Igreja triunfante onde se encontra, também participa desta nossa assembleia, porque a nossa Igreja não tem simplesmente uma função sociológica neste mundo, mas é um caminho que acaba na plenitude da Igreja, da família de Deus, daqueles que nos precederam, a quem hoje nós nos sentimos aqui unidos. D. Manuel foi um homem de abertura e de dialogo, à luz do Evangelho e da coerência da fé. Foi um dom de Deus ao serviço da sua família, a família de Deus em Setúbal, e um coração aberto para todos aqueles que não tendo ainda sido tocados pela palavra de Deus, o encontraram através de um bispo chamado Manuel.

Deixem-me que a esta luz, faça também uma referência ao diálogo da nossa Igreja para fora de si própria. Ontem, e é apenas um exemplo, começou a funcionar a nova página de Internet da Diocese. Parece que não tem nada a ver com o que dizemos… mas tem tudo a ver. Tem a ver com o desejo de comunicar entre nós, o desejo de sermos informados e de nos sentirmos parte desta família de Deus em Setúbal, mas tem também o propósito de ser um canal aberto de anúncio, de acolhimento, de proposta do Reino de Deus para todos os que nos rodeiam. É um passo dessa Igreja que queremos fraterna, participativa, aberta e misericordiosa para propor com credibilidade o Evangelho.

Acompanhando a Igreja em missão

O terceiro e último ponto é o de olhar para Maria como Mãe que acompanha a Igreja na sua missão. É lindo ver como Maria, quando está para começar a missão da Igreja, se junta aos discípulos. Até agora, ela seguia o seu Filho Jesus. Agora, desde a cruz, vai seguir os discípulos do seu Filho: a Igreja. Este é o terceiro desafio que a Senhora de Fátima hoje nos propõe: a missão. No alto do Calvário, Jesus crucificado deu a sua mãe como mãe ao discípulo João, e deu João como filho a Maria. Esta mútua entrega estabelece Maria, Mãe de Jesus como Mãe dos discípulos, como nossa Mãe. E o discípulo, diz o Evangelho, “levou-a para sua casa”. Isto é, Maria foi integrada na Igreja. Como tinha sido Mãe de Jesus, passa a ser nossa Mãe.

A partir daqui, Maria segue os caminhos da Igreja nascente, uma Igreja em crescimento, uma Igreja em missão. Segundo a tradição, Ela morreu em Éfeso, onde o apóstolo João passou maior parte da sua vida apostólica. É a Mãe que conduz e acompanha os filhos na missão de dar a conhecer o seu Filho. Ela foi sempre uma mulher peregrina: peregrina nos espaços: logo que recebeu o anúncio do anjo, põe-se a caminho, para ir visitar Isabel e levar-lhe o dom de Deus, o Messias. Ela leva o menino, mas, na realidade o que faz é seguir o percurso dele desde que começou a tomar forma humana no seu ventre, na anunciação. Peregrina na fé para seguir o seu Filho e acompanhar a nova revelação de Deus, mesmo quando isso se afigurava difícil de entender; peregrina das tradições e das culturas, pois teve de abandonar muitos dos usos hebraicos para se abrir à novidade do Evangelho, deixando cair o que era acessório, para se adaptar às diversas tradições dos povos que eram tocados pelo Espírito de Jesus. Esta é a Igreja que, ao longo da história, foi falando novas línguas, foi-se exprimindo em novos gestos e trajes, anunciando sempre a vida e a proximidade de Deus que se reveste da diversidade das cores e culturas da humanidade. Essa é a Mãe que nos conduz pelo mundo da missão.

Este é o grande desafio que a peregrinação deste dia nos traz. Nós, em Setúbal, temos que ser, somos chamados a ser, uma Igreja em missão. Cada família tem de ser missionária, cada paróquia tem de ser missionária, cada comunidade religiosa, cada movimento… a nossa Diocese no seu conjunto tem de ser uma Diocese em missão. A isso nos chama o Senhor, a isso nos leva o exemplo da sua Mãe, que Ele deu como Mãe e exemplo aos seus discípulos. Ela chama-nos a anunciar o Evangelho com a oração nas nossas famílias e nas nossas paróquias e movimentos, com o testemunho da nossa vida, com a dedicação do nosso tempo, e quem sabe, para muitos dos aqui presentes, com a consagração total da nossa vida, no sacerdócio, na vida religiosa, no voluntariado missionário, dentro da nossa diocese ou no mundo onde o Senhor nos chame. Queremos ser, temos que ser, uma Igreja missionária.

Ninguém pode dizer que a missão não é para si. Quem não se dispõe para a missão, no dia a dia, quem não participa na vida da sua comunidade, na busca de fazer conhecido o Evangelho, esse e essa, podem ter começado o caminho, mas ainda não entenderam o Evangelho de Jesus. Isto não é simplesmente um dom para consumo, é um dom para partilhar, para transmitir, para transformar este mundo. Não conhecemos discursos de Maria na missão, mas o que sabemos é que ela estava presente nessa Igreja que recebia o Espírito e o levava pelo mundo. Ser membro vivo desta família, rezar, professar a fé, atender a quem precisa e dar testemunho do amor de Deus é o fundamental da missão. E isso é acessível a todos.

Mas é necessário que as nossas paróquias se preparem melhor para a missão, para acolher catecúmenos, para chamá-los, para organizar o seu caminho para o batismo e para isso precisamos pessoas disponíveis para acolher, para guiar, para inserir. A nossa Diocese tem de ser mais missionária e é chamada a reunir e coordenar essa missão.

Esta é a graça que hoje, de um modo especial, quero pedir a Deus, por intercessão de sua Mãe para a nossa Igreja de Setúbal: que seja mais família, que seja mais Igreja e que seja mais Igreja missionária.

28 de Outubro de 2017