Homenagem a D. Manuel Martins, no Porto, evocou a “angústia pelos problemas dos mais fracos”

A Fundação SPES promoveu, no Porto, no passado dia 20 de janeiro, uma sessão de homenagem a D. Manuel Martins, assinalando assim o 91.º aniversário do nascimento do primeiro Bispo de Setúbal.

O Presidente da Fundação SPES, Prof. José Ferreira Gomes, começou por apresentar a razão desta iniciativa: prestar uma homenagem muito sentida e justa ao primeiro Presidente desta Fundação: D. Manuel da Silva Martins, no dia em que celebraria o 91º aniversário. Evocou a “angústia pelos problemas dos mais fracos” sentida pelo primeiro bispo de Setúbal, considerando que este deixou como herança uma “leitura muito aguda” dos acontecimentos do quotidiano.

D. Carlos Azevedo, delegado do Conselho Pontifício da Cultura, e que foi sucessor de D. Manuel Martins na presidência da Fundação Spes, referiu a sua colaboração pessoal prestada a D. Manuel, no início da instalação da Fundação na Torre da Marca. Considerou o falecido bispo de Setúbal como “um praticante existencial daquilo que eram os princípios e os valores” de D. António Ferreira Gomes na luta pelos mais fracos e na defesa da justiça.

O Dr. José da Silva Peneda referiu a sua relação pessoal com D. Manuel Martins na década de 80, quando foi responsável pela Operação Integrada de Desenvolvimento para a Península de Setúbal e, mais tarde, como ministro do Emprego e Segurança Social. Narrou situações concretas em que a intervenção de D. Manuel conduziu a algumas medidas do Governo para aliviar as difíceis situações sociais vividas na região.

A gratidão da Igreja de Setúbal pelo seu primeiro Bispo

Em representação do Bispo de Setúbal, D. José Ornelas, o Vigário Geral, Padre José Lobato, manifestou a gratidão da Igreja diocesana de Setúbal pelo seu primeiro Bispo e lembrou como foi crescendo, desde o início do ministério de D. Manuel, a admiração de todos pelo Bispo de Setúbal. Anunciou ter sido já decidido criar na Diocese de Setúbal uma “Fundação D. Manuel Martins” com o objetivo de manter viva a memória do seu primeiro bispo e de ser um pólo de irradiação de cultura cristã, especialmente de estudo e divulgação da doutrina social da Igreja.

Luís Morgado, operário metalúrgico e antigo dirigente sindical em Setúbal narrou, na primeira pessoa, vários momentos difíceis na década de 80, em que D. Manuel tomou iniciativas de apoio aos trabalhadores que não recebiam salários, nomeadamente deslocando-se às fábricas e dialogando com os sindicatos.

António Bessa Taipa, administrador apostólico do Porto encerrou as intervenções destacando a presença “viva e ativa” de D. Manuel Martins na Igreja e na sociedade, considerando-o como alguém que se “impôs pela sua vida, pela sua maneira de ser e de estar”. Prestou homenagem ao “sacerdote e bispo” que teve uma existência “entregue aos homens, cuja vida fazia sua”. “Era um homem profundamente livre”.

Pe. José Lobato, Vigário Geral da Diocese de Setúbal

Intervenção completa do Vigário Geral da Diocese de Setúbal na homenagem a D. Manuel Martins promovida pela Fundação SPES

Porto, 20 de janeiro de 2018

Venho, em nome de D. José Ornelas, Bispo de Setúbal, fazer eco da profunda gratidão da Igreja diocesana de Setúbal pela graça de ter tido como primeiro Pastor o Senhor D. Manuel da Silva Martins. Gratidão, antes de mais ao Bom Pastor que nos confiou à solicitude deste Bispo, mas também gratidão à pessoa de D. Manuel que se entregou na plenitude do seu coração, da sua inteligência e das suas energias ao serviço desta jovem Igreja e à sociedade em que ela está inserida.

A criação da Diocese de Setúbal persistia como remota hipótese desde a criação do Distrito em 1926. Não foi, porém, essa a razão fundamental da criação da Diocese. A sua origem está no Concílio Vaticano II que dispôs que, “na medida em que o bem das almas o exigir, quanto antes se realize com prudência a conveniente revisão, dividindo ou desmembrando ou unindo dioceses, alterando limites…” (Christus Dominus, 22).

Assim, em 1975 nasciam na diocese de Lisboa duas novas dioceses, uma delas a de Setúbal, no território, não de todo o Distrito, mas apenas da Península de Setúbal.

Nascida do Concílio, recebia, pela graça de Deus, um Bispo profundamente marcado pela renovação conciliar que bebeu do Bispo da sua diocese de origem, D. António Ferreira Gomes, renovação conciliar que implantou de modo apaixonado nesta paróquia da Cedofeita, e que levou como bem mais precioso na sua parca bagagem para as terras de Setúbal.

A Igreja de Setúbal e, com ela as populações e instituições da Península de Setúbal, foi progressivamente descobrindo em D. Manuel os traços mais marcantes da reforma conciliar, a começar pela pessoa dos pastores: a simplicidade, a ternura, a proximidade, a atenção especial aos mais frágeis.

“Nesse dia [contou D. Manuel numa entrevista, referindo-se à noite da sua ordenação episcopal] fez-se um convívio entre bispos e familiares no salão da Anunciada e a noite passei-a na rua a conhecer a cidade. Sempre fiz isso, nunca tive receio e nunca sofri uma beliscadura fosse de quem fosse. Sinceramente que, desde a primeira hora, senti-me estimado e bem acolhido. Talvez por andar sempre pelas ruas, entrar nos cafés, fazer visitas a todo o lado, desde as paróquias, às cadeias e às fábricas.”

Foi neste jeito de ser bispo que nos habituámos a ver D. Manuel, a falar com a mesma afabilidade e atenção com gente simples e com famosos, artistas e políticos, que o procuravam. De manhã cedo percorria as ruas da cidade, ou de bicicleta ou a pé.

Do mesmo modo que nós íamos conhecendo – e admirando – D. Manuel, o nosso Bispo ia conhecendo Setúbal, as suas gentes, os seus problemas, os seus sonhos, as suas alegrias e tristezas. Foi uma aprendizagem mútua. E dessa aprendizagem crescemos todos, D. Manuel e a Igreja diocesana de Setúbal. E fomos criando cumplicidades. D. Manuel não se cansava de proclamar que os seus padres, os seus jovens, as suas famílias, as suas comunidades eram os melhores do mundo. E nós íamos ficando cada vez mais orgulhosos do nosso Bispo.

O Evangelho que D. Manuel Martins, logo após a sua ordenação episcopal em 26 de outubro de 1975, prometeu anunciar em terras de Setúbal foi sendo proclamado, para além das palavras – muitas, profundas, enérgicas e provocadoras – pelo seu modo de estar e de agir: dialogando com todos, colaborando com quantos queriam trabalhar pelo bem comum, reconciliando, dentro e fora da comunidade católica, os que se andavam divididos.

“O clima de respeito e colaboração que carateriza hoje o relacionamento entre a Igreja e a sociedade na península de Setúbal, muito deve à atitude lúcida, aberta e reconciliadora do seu primeiro Bispo” – como escreveu D. José Ornelas no seu comunicado de 24 de setembro de 2017.

No entanto, percorrendo a memória dos primeiros tempos do ministério de D. Manuel em Setúbal, lembramos como, tanto a comunidade eclesial, como a sociedade civil, demoraram algum tempo a compreender e a aceitar a pessoa de D. Manuel, as suas ideias, o seu estilo de vida, as suas preocupações sociais, a sua insistente e severa crítica às causas e aos causadores das injustiças, de todas as injustiças.
Uns não lhe perdoavam ser demasiado ousado e, em seu entender, inconveniente; outros criticavam-no por ser demasiado tolerante e condescendente.

Uns não escondiam o desejo de o verem fechado no seu paço – paço que nunca teve – apenas preocupado com cânones e ritos; outros não hesitavam em tentar instrumentalizá-lo para bandeira de projetos pessoais ou de grupo.

Progressivamente, D. Manuel foi esclarecendo e conquistando as mentes e os corações de muitos para aquilo que era o seu programa de vida. Como o Mestre, ele não fazia exigências que ele próprio não cumprisse no seu dia-a-dia. Como o Mestre, ele falava com verdadeira autoridade. E, por isso, foi sendo cada vez mais atentamente escutado.

Não apenas foi vencendo os que se lhe opunham; convenceu-os, ao menos na sua maioria.

E foi construindo, lentamente, penosamente, a Igreja de Setúbal.

Sempre acreditou na mudança e na conversão dos que, dentro e fora da Igreja, se opunham à evidência da soberania da verdade e da justiça; sempre acreditou e trabalhou na mudança e na conversão dos que mostravam mais dificuldade em acolher as exigências sociais do Evangelho.

Criou uma assembleia diocesana onde tudo era discutido, quase sempre acaloradamente. Apesar de muitas críticas, também aqui o propósito de D. Manuel foi alcançado. Como ele próprio escreveu: “Aqui [na assembleia diocesana] tentávamos saber quais eram os problemas do mundo em que estávamos, os desafios e os sofrimentos deste mundo. E a partir da Assembleia fomos conseguindo comungar a vida deste povo. Tenho a impressão de que a Igreja de Setúbal tornou-se muito simpática, no meio por estar entrosada com o povo”.

Foi sempre com este espírito de confiança que acolheu todos, de braços abertos, mesmo aqueles que não escondiam reticências ou desconfiança nos caminhos que o seu Bispo trilhava.

Acolhia porque confiava. Confiava em todos. Mesmo naqueles que não gostaríamos de ver à nossa porta. Quando menos esperávamos, lá estava D. Manuel a visitá-los, na cela da cadeia, no hospital, sabe lá Deus onde. E quantas vezes não ouviu reprimendas… Nunca desistiu… Porque confiava e queria transmitir confiança.

D. Manuel não escondia a sua admiração pelo Papa Paulo VI, não apenas por ter sido ele o Papa que o chamou ao episcopado, mas por ter sido – assim o dizia – um “papa mártir”, pelo muito que sofreu na aplicação das reformas emanadas do Concílio Vaticano II.
Talvez esta afirmação lhe fosse sugerida pela sua experiência pessoal, como bom pastor que percorre, mesmo com a desaprovação dos bem-pensantes, os caminhos mais arriscados que levam ao encontro da ovelha tresmalhada, unicamente inspirado n’Aquele que o chamou a ser Pastor à sua imagem.

Como escreveu D. José Ornelas no mesmo dia do falecimento de D. Manuel, “os 23 anos do seu serviço como Bispo foram uma graça providencial nos tempos conturbados e fecundos da afirmação da democracia portuguesa e das sucessivas crises sociais e económicas que atingiram o país e particularmente esta região. A sua palavra livre e libertadora, inspirada no Evangelho, ergueu-se com toda a clareza contra a injustiça que atingia particularmente os mais pobres. O seu sonho de dignidade humana para todos, inspirou e deu força aos seus esforços para mobilizar pessoas e fomentar instituições capazes de irem ao encontro dos mais necessitados”. (Comunicado, 24 de setembro de 2017).

A história da Diocese de Setúbal começou a ser escrita pelo seu primeiro Bispo, D. Manuel Martins, que a marcou profundamente e lhe apontou os caminhos do futuro. Como reconheceu D. José Ornelas, mais do que uma vez, D. Manuel foi – e continua a ser –- a figura inspiradora da porção da Igreja que é a Diocese de Setúbal. Os seus sucessores, cada qual a seu modo e com os dons próprios, não inverteram o caminho. Como foi bonito, comovedor, e também inspirador ver, na passada Páscoa (na Missa Crismal), na Sé de Setúbal, ali no coração da Diocese, nos seus três Bispos sinais vivos do amor de Deus pelo povo de Deus que habita em terras de Setúbal, amor que, vindo de Deus, passou e continua a passar por pastores – diferentes entre si – que partilham o mesmo jeito de simplicidade e proximidade.

E também é verdade que a história de D. Manuel Martins, embora não começando em Setúbal, não poderá ser escrita sem Setúbal, não como um capítulo da sua biografia, mas como o núcleo de toda a sua vida.

D. Manuel Martins e a Diocese de Setúbal, cada qual com a sua história anterior, encontraram-se e construíram-se mutuamente. Como se tivessem estado desde sempre à espera um do outro.

E estavam, segundo os planos de Deus.

Por tudo isto, na pessoa do seu Bispo e dos Conselhos Diocesanos, a Diocese de Setúbal decidiu criar, em breve, a “Fundação D. Manuel Martins”, com dois objetivos principais: manter viva a memória agradecida da Diocese ao seu primeiro Bispo e ser centro de evangelização com particular incidência na cultura, no ecumenismo, no diálogo inter-religioso e no estudo e difusão da doutrina social da Igreja – dimensões que marcaram – e muito – o ministério de D. Manuel.

Será uma Fundação da Diocese de Setúbal, aberta à colaboração de pessoas e instituições de dentro e de fora da Diocese que encontram em D. Manuel Martins referência e inspiração para os seus projetos de vida e sua missão.

Padre José João Aires Lobato
Vigário Geral da Diocese de Setúbal

 

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24 de Janeiro de 2018