Mensagem de D. José Ornelas para a Quaresma: “A caminho da Páscoa”

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Com a celebração das Cinzas, na Quarta-feira, 14 de fevereiro, tem início o tempo especial da Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa do Senhor. Em toda a Igreja, estes 40 dias de peregrinação espiritual e comunitária representam um convite a aprofundar e levar a sério a vida e a fé que lhe dá sentido, tanto a nível pessoal como relacional.

A atitude de Quaresma é como a de alguém que se prepara para participar num grande acontecimento desportivo ou numa festa muito significativa de família ou de grupo. A consideração daquilo que está em jogo dá energia para se preparar, vencer obstáculos, envidar esforços e colaborar com os outros para que se alcancem os objetivos em vista. Não se trata de cortar a alegria e o gosto de viver. Pelo contrário, trata-se de dar fundamento à felicidade e à vida, sabendo que isso comporta também renunciar a coisas supérfluas ou contraditórias com os objetivos e esforçar-se como o atleta que se prepara para a competição.

A Igreja propõe, particularmente, três meios concretos para fazer este caminho Quaresmal: a oração centrada na Palavra de Deus, o jejum como exercício de libertação e a esmola como expressão do amor solidário.

Escutar/Ler a Palavra de Deus e dirigir a Ele a nossa palavra na oração é o essencial da vida crente, pois é desse modo que nos abrimos ao amor, à força e à sabedoria de Deus para conduzir a nossa vida. Esta é a primeira atitude de cada pessoa que crê. Neste ano em que tomamos a realidade familiar como centro da nossa vida diocesana, é importante que a Quaresma seja bem utilizada para fazer crescer em nossas casas o espírito de oração. Ao juntar-nos à mesa ou antes de dar as boas noites, é bom que levantemos o coração para o Pai do Céu, que escutemos uma passagem do Evangelho, que O louvemos e peçamos que ilumine e dê sabor e força à nossa vida, à nossa Igreja, ao mundo.

A atitude de jejum é um elemento importante, tanto na alimentação como em outros aspetos da vida. Habitua-nos a saber controlar os nossos desejos e a orientá-los corretamente, de tal modo que não danifiquem a nossa saúde e a nossa vida, atendendo igualmente às necessidades dos outros. Não é apenas um emagrecimento estético; dá-nos uma maior liberdade em relação a nós próprios e uma nova estética humana e moral, na solidariedade para com os que necessitam ainda mais do que nós. Renunciar àquilo que me dá gozo, em favor de alguém, não é apenas uma questão alimentar; é uma atitude de vida, segundo o modelo de Cristo.

A esmola está ligada à atitude de jejum, como expressão do amor solidário para com quem se encontra em dificuldade. Partilhar é seguir o exemplo de Cristo que “sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2Co 8,9). Também aqui, não se trata simplesmente de dar uma moedinha, mas de ter “com-paixão” de quem sofre, de fazer próprias as dificuldades dos outros, de partilhar aquilo que recebemos de Deus. Não é só o dinheiro que conta. Importante é igualmente a “esmola” do tempo que se passa ao lado de alguém, do perdão que se oferece, de um sorriso que ilumina a vida, de um gesto que rompe gelos de desconfiança e de ódio.

Estas são sugestões para agitar a nossa vida e fazer-nos despertar para os outros, para a família, para a comunidade, a paróquia, a Diocese e a Igreja na sua universalidade. Certamente, em cada paróquia, haverá gestos concretos onde nos podemos inserir para caminhar juntos nesta Quaresma, em direção à Páscoa. Procuremos estar atentos e participar, pois a festa da Páscoa deve contar com o contributo de todos.

A nível da nossa Igreja Diocesana, propõem-se dois sinais como expressão desta caminhada:

Como escuta da Palavra de Deus, vamos ler e meditar o Evangelho de São Marcos. Eu próprio orientarei estas sessões destinadas a um estudo reflexivo do primeiro Evangelho, como caminho para a Quaresma da vida. As indicações são as seguintes:

  • Leitura do Evangelho de São Marcos
  • Seminário de São Paulo – Almada
  • À quinta-feira, das 21h00 às 22h45
  • Durante o tempo da Quaresma e da Páscoa
  • Início a 22 de fevereiro

Como sinal de jejum e esmola solidária, juntaremos aquilo que pusermos de parte durante a Quaresma, individualmente ou em família, e entregaremos nas nossas paróquias, consoante for determinado. O produto dessa partilha será destinado a duas obras de caridade. Uma parte destina-se a ir ao encontro de uma comunidade carenciada que está a surgir no Segundo Torrão – Trafaria. Outra parte destinar-se-á às comunidades cristãs em situação de perseguição e enorme necessidade na Síria e no Iraque. Assim, a nossa renúncia destinar-se-á a:

  1. Estrutura de apoio à nova comunidade do Segundo Torrão – Trafaria;
  2. Comunidades Cristãs na Síria e no Iraque.

Que o Senhor abençoe e ilumine este nosso percurso quaresmal, revitalizando a nossa vida na comunhão com Ele e guiando as nossas atitudes, na família, na Igreja e na sociedade onde nos inserimos, como testemunhas do seu Evangelho.

Setúbal, 6 de fevereiro de 2018

+ José Ornelas Carvalho
Bispo de Setúbal

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09 de Fevereiro de 2018