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Corroios: Uma Paróquia Urbana

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Uma paróquia antiga, que remonta a tempos imemoriais, é hoje uma paróquia urbana e dinâmica, no seio de um grande e diversificado núcleo populacional. Desta vez, fomos até Corroios, na vigararia do Seixal, onde o pároco, Padre Casimiro Henriques, nos falou dos desafios e das atividades desta comunidade.

Corroios é uma paróquia grande, com muitas pessoas e, por isso, um dos grandes desafios apresentados pelo pároco é a unidade da comunidade paroquial. «A minha grande preocupação para com a comunidade cristã tem sido a unidade, a comunhão, a identificação da comunidade com aquele que nos dá vida que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Numa paróquia que é muito grande, que tem cerca de quarenta grupos, que tem uma vida imensa, acabamos por correr o risco que é, de facto, a desintegração», afirma o Padre Casimiro.
Sendo proveniente de uma paróquia mais pequena, na Atalaia, o sacerdote confessa que nunca tinha sentido a «dispersão» que sente em Corroios. «Há dias muito complicados – sublinha – É muito difícil, por exemplo, fazer com que a missa de Natal ou de Páscoa seja animada pelos cinco coros da paróquia. Mas o Padre aqui na Paróquia de Corroios tem que ser a linha que cose isto tudo». A par deste esforço de envolvência comunitária, o sacerdote tem apostado também na formação de fé dos adultos. «Não queremos só uma catequese de preparação de sacramentos, mas uma catequese de adultos continuada e um cuidado maior com os pais e padrinhos que vêm pedir os batismos, a quem são feitas propostas diretas de catequese. Há gente que tem agarrado e há muita gente que não tem agarrado», diz o pároco.

Ir para a rua, evangelizar

Umadas grandes apostas em Corroios são as ações de evangelização de rua, com a ajuda da Comunidade Canção Nova. Para além das procissões e da via-sacra pública, momentos em que há um anúncio visível, o Padre Casimiro Henriques aponta dois exemplos em que a comunidade se abre ao exterior e vai ao encontro do outro.
O primeiro está diretamente relacionado com os pais e padrinhos que vêm pedir o batismo para os seus filhos. Aproveitando esta ocasião, é pedido às pessoas que preencham uma ficha com os seus dados que são depois congregados num ficheiro e entregues ao grupo de evangelização de rua. Este grupo, passado algum tempo do batismo, percorre a casa dos pais e padrinhos para falar com eles e apresentar desafios diretos.
Outra das ações de evangelização é levada a cabo no Domingo de Ramos: «Cerca de dois mil ramos são benzidos na missa das nove da manhã – explica o presbítero – e depois, vamos para a rua entregar esse ramo às pessoas, com um cartão onde estão as missas todas da Páscoa na Paróquia. A gente traz daqui pessoas? Não! Mas também não é isso que nos preocupa e não é isso que nos move. O que nos move é a Igreja ir para fora e, ao dar este ramo, que é uma coisa que ainda faz sentido na vida das pessoas, reavivar a fé, tocar nas tradições das pessoas, fazer com que as pessoas sintam dentro delas algo a avivar e daqui pode surgir alguma coisa, como já surgiu».
Sendo uma paróquia com uma área muito dispersa, com muitas pessoas e vários núcleos estabelecidos, com realidades distintas, a assistência aos mais pobres e o desenvolvimento da área social tem sido também uma preocupação. «Uma vez, alguém me disse ’em Corroios há fome’ e aquilo mexeu comigo. Estamos sempre preocupados com a fome no mundo e a mim, com a minha experiência missionária, abalou-me um pouco as estruturas», diz o Padre Casimiro.
Foi assim que começou o desejo de ir ao encontro da pobreza envergonhada que o pároco diz existir em Corroios. «Não temos muita gente visivelmente pobre, a não ser o bairro africano. Mas aqui nos prédios, onde aparentemente parece viver uma classe média e média baixa, há muita gente pobre», afirma.
Hoje a Paróquia tem um universo de 850 pessoas que apoia diretamente e isto, considera o pároco, provocou uma abertura da comunidade a uma realidade para a qual não estava desperta, não só na partilha de bens mas também de voluntários. «Havia aqui uma aura à volta de Corroios, e eu ainda luto um pouco contra isso, que é ‘Corroios é uma paróquia rica’ e isto passou para os paroquianos, então apoiávamos umas vinte famílias», conta o Padre Casimiro Henriques.
Importante também para o desenvolvimento desta área social e foi a criação do Centro Paroquial. «Contratámos uma Assistente Social para que ser feito o levantamento real das necessidades. Corroios passou a ser conhecido como uma Paróquia que dá assistência e agora tudo vem ter aqui. Mesmo de outras paróquias. Agora, um dos nossos trabalhos tem sido o encaminhamento das pessoas», esclarece.
Para além destas grandes áreas pastorais e sociais em que o Padre Casimiro Henriques tem apostado há ainda uma preocupação com a formação a vários níveis, não só na catequese paroquial com cerca de 450 crianças, mas também na liturgia, com os leitores, os acólitos e os ministros da comunhão.
Há também na Paróquia de Corroios, um trabalho feito com aqueles que estão mais sozinhos. Por um lado, com os cerca de sessenta doentes identificados. Todos os Domingos, cerca de vinte e seis pessoas recebem a comunhão em casa e cerca trinta são visitadas pelos visitadores de doentes, sem receber a comunhão.
Por outro lado, nasceu na paróquia um grupo chamado ‘Renascer na Esperança’, que congrega viúvas e mulheres separadas, que vivem sozinhas. «São pessoas que percebem as dores da outra pessoa e que vivem a mesma realidade. São separações diferentes mas é sempre a privação daquela pessoa com quem viveram a sua vida», explica o prior.

Os momentos da vida comunitária

Numa paróquia grande, os momentos em que toda a Paróquia se congrega numa celebração acabam por ser ocasiões de expressão comunitária muito forte, vividas intensamente.
«Eu dou muita atenção aos momentos fortes da liturgia, o Natal e a Páscoa. As vigílias são momentos muito fortes que a comunidade aprendeu a viver. E sinto que o ano gira à volta disso porque ponho também muito de mim à volta dessas celebrações, com todos os preceitos. Há todo um cuidado com a liturgia», sublinha o Padre Casimiro.
Para além disto, as festas da Padroeira, como ponto integrante da comunidade onde muitos os que não são praticantes se aproximam, é outro momento importante. «Nesta altura fazemos com que a Igreja fique aberta até mais tarde porque aproveitamos coisas pagãs como uma festa ou um bailarico, tal como São Paulo, para fazer com que a pessoa seja atraída à Igreja», diz o pároco.

Santa Marta a querer ganhar vida própria

Parte integrante da Paróquia de Corroios é a comunidade de Santa Marta do Pinhal que tem crescido bastante nos últimos tempos. Diz o Padre Casimiro que a comunidade foi provocada e respondeu positivamente. Cresceu o número das crianças da catequese, os catequistas e as pessoas e isto exige também o crescimento da Missa. Até agora existia apenas Eucaristia ao Sábado e brevemente passará a existir uma Eucaristia ao Domingo.
«Santa Marta quer respirar por si mesma, quer nascer – salienta o sacerdote – Ainda esta assim com o coração umbilical mas sente-se a crescer. É uma comunidade muito novinha. Tem dez anos e dez anos para uma comunidade não é muito pouco. Mas nomeio disto tudo em dez anos fez-se comunidade. Tem catequese, tem conselho económico este ano pela primeira vez e tem um pseudo conselho pastoral».
A nível social, o pároco espera que num futuro próximo se possa assistir o bairro de Santa Marta e, depois de desbloqueado o Plano Diretor Municipal (PDM),construir a creche. Está também a ser projetado o Centro Pastoral de Santa Marta, com um salão maior que acolha as pessoas e as celebrações. «Vamos começar já por aí porque é mais fácil, mais barato e é possível que haja apoios para isso. Depois haverá a Igreja mas eu não ponho a Igreja nos meus objetivos enquanto pároco de Corroios, apesar de o projeto estar a ser feito. É uma obra megalómana», revela o Padre Casimiro.
Na Igreja de Corroios, a preocupação do Padre Casimiro prende-se com os espaços físicos. «É preciso dignificar o espaço litúrgico e este tem sido um trabalho de muitos anos. Corroios preocupou-se muito com as suas duas filhas, Miratejo e Vale de Milhaços, construiu Igrejas, deu-lhes casa, e agora que elas vivem sozinhas, precisa de cuidar também da sua casa. Um dos meus projetos é também olhar para o templo físico e dignificá-lo um pouco mais e enriquece-lo estética e artisticamente», diz o sacerdote.
Um dos outros sonhos do Padre Casimiro Henriques é aumentar o apoio social e conseguir melhorar os espaços para que a assistência aos mais pobres seja melhor e mais dignificada. «Depois de termos comprado uma pequena vivenda para a Caritas Paroquial, tenho o sonho de avançar com um refeitório social e uma loja social», diz o prior.
Mas este é investimento que esbarra na crise económica porque, afirma o Pe. Casimiro, não «pode haver prejuízo naquilo que nós fazemos e a paróquia não se pode empenhar. A Paróquia no seu conjunto tem que ter estabilidade financeira para continuar a seguir. Somos uma Paróquia que tem muitas despesas».

«Levar Jesus»

Pároco em Corroios desde setembro de 2008, o Padre Casimiro Henriques, que é também vigário do Seixal e membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra, considera que a sua missão é «levar jesus aqueles que não O conhecem».
«O meu lema sacerdotal é: ‘Como oliveira verdejante na Casa de Deus’. Ser oliveira verdejante em toda a sua riqueza simbólica e litúrgica, sempre pronta a olear a máquina, a olear os cristãos, a alimentar, a ser luz», afirma.
«Hoje sinto aquelas palavras que D. António Couto dizia na sua chegada à diocese de Lamego, ‘Trago-vos notícias de Deus. Quero conhecer o teu rosto’. Este conhecer o rosto do irmão que sofre, do irmão que está sozinho em casa, do irmão que é doente, que não conhece o Senhor, do irmão que está a sofrer porque perdeu a sua fé, porque o seu marido morreu, do irmão que está a sofrer porque o seu filho é toxicodependente. Tenho tudo isso aqui», comenta.
E continua o sacerdote: «A minha missão enquanto pároco de Corroios será esta tríplice realidade: consciencializar a comunidade, amar esta comunidade, levá-la mais longe, integrar, fazer com que a comunidade seja estas trinta mil pessoas que aqui residem e não só os mil que comungam todos os Domingos nas cinco missas da paróquia».

Anabela Sousa

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23 de Fevereiro de 2012