Sagrado Coração de Jesus: “Aprender a modelar o coração pelo Coração do Pai do Céu”

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No passado dia 08 de junho, na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, o Clero da Diocese de Setúbal reuniu-se, no Santuário de Cristo Rei, para celebrar e dar graças pelo dom do sacerdócio. Nesta manhã foram também assinalados os jubileus de ordenação presbiteral de seis sacerdotes.

Numa sessão conduzida pelo Diácono Fernando Magalhães, diretor do Externato Diocesano Frei Luís de Sousa, a manhã foi dedicada à partilha e testemunhos de vida dos sacerdotes jubilares presentes, e de famílias que com eles se cruzaram ao longo do seu ministério, nos mais variados serviços que lhes foram confiados. 

Após esta sessão comemorativa, o Bispo de Setúbal, D. José Ornelas, presidiu à Eucaristia na Capela de Nossa Senhora da Paz, com a concelebração dos sacerdotes da Diocese. A animação musical foi confiada aos seminaristas.

Na sua homilia, o Prelado destacou que é a partir da experiência do Coração de Deus que os sacerdotes aprendem a misericórdia de Deus: “Se não aprendermos a modelar o nosso coração pelo Coração do Pai do céu, como poderemos ir em seu nome para servir o seu povo? Se não formos misericordiosos, não seremos portadores da misericórdia do Pai do céu, uns para com os outros e para o povo ao qual somos enviados”, afirmou.

“A seu exemplo – disse ainda – somos chamados a discernir, identificar e denunciar com clareza aquilo que destrói, divide e corrompe as pessoas e a sociedade. Mas somos chamados sobretudo a descer para junto dessas situações e a ‘reparar’, com os gestos de misericórdia de Deus – que podem ser também de denúncia – e com a luz do seu Espírito a realidade sempre frágil de que nós próprios somos parte”.

Na celebração da Eucaristia, as Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, ao serviço no Santuário de Cristo Rei, renovaram os seus votos.

Na ocasião, o Bispo de Setúbal abençoou a nova imagem do Sagrado Coração de Jesus que passa a estar na Capela de Nossa Senhora da Paz, e a painel frontal com as promessas do coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, na entrada desta mesma capela.

(Leia, abaixo, a homilia completa do Bispo de Setúbal e veja todas as fotografias)


Homilia de D. José Ornelas na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus 2018

1.      O amor carinhoso e paterno de Deus (Os 11,1-9)

A liturgia oferece-nos, na primeira leitura, um dos mais lindos trechos do profeta Oseias e de toda a Palavra de Deus, que, de certo modo, antecipa a parábola do Filho pródigo: Deus, o Pai de Israel. A descrição dos sentimentos de enlevo e carinho do pai, que atrai o filho com “laços humanos, com laços de carinho” mostra a atitude de proximidade de Deus para com o seu povo, que Ele liberta do Egito, acaricia, ensina a caminhar e a tornar-se independente e adulto.

Por outro lado, mostra, igualmente, a falta de correspondência deste filho amado, a sua rebeldia e arrogância, que contrastam com os gestos afetuosos do Pai. O drama deste desencontro, manifesta-se na reação ferida de Deus, nos seus propósitos de castigo e de exclusão, que representam o que é frequente no sentir e reagir humanos nestas situações de ingratidão e de amor ferido. A falta de amor, para usar linguagem humana, fere o Coração de Deus.

Esta revolta do amor ferido faz entender a seriedade do amor de Deus, mas igualmente aquilo que Deus não é. Ele não é Pai para si mesmo, mas para os filhos e, por isso não se vinga; não é Deus para si mesmo, mas para as suas criaturas e, por isso, não destrói; não é justo para si mesmo, mas para justificar; não é Santo para si mesmo, mas para santificar.

É por isso que diz: “O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti, e não me deixo levar pela ira.”

É deste Deus que somos filhos. É nesse coração revoltado com as nossas faltas e rebeldias, mas sempre aberto para provocar e acolher o nosso regresso, que nos encontramos, com os nossos entusiasmos e as nossas quedas. É aí que Ele nos chama, para modelar o nosso coração.

É a partir dessa experiência do Coração de Deus que aprendemos a ir em seu nome. Se não aprendermos a modelar o nosso coração pelo Coração do Pai do céu, como poderemos ir em seu nome para servir o seu povo? Se não formos misericordiosos, não seremos portadores da misericórdia do Pai do céu, uns para com os outros e para o povo ao qual somos enviados.

2.      O dom da vida: o Espírito de Deus

O texto do Evangelho mostra-nos a prova máxima do amor inquebrantável de Deus revelado em Jesus. Ele revela plenamente a profecia de Oseias: fez da sua vida um dom completo aos seus e compadeceu-se sobretudo dos débeis, feridos, descartados e sem esperança.

Ele abraçou esse mundo de injustiça, de miséria, de vinganças, de pecado, não com o rigor da lei, mas com o coração misericordioso do Pai. O dom total da vida, não se realizou no contexto de uma humanidade perfeita nem de discípulos perfeitos, mas de uma sociedade muito injusta e pecadora, de discípulos com falta de compreensão e de lealdade.

Quando a espiritualidade do Coração de Jesus, ao longo dos séculos, sublinha a atitude de “reparação” tem em conta precisamente essa situação imperfeita dos filhos de que fala o profeta Oseias, pelos quais Jesus oferece totalmente a sua vida. Oferece para “reparar”, refazer, recrear o coração humano, a sociedade humana, ferida de pecado e de morte.

A lança que penetra no Coração de Jesus – que acaba de “concluir” a sua vida nesta terra – revela esse coração absolutamente misericordioso do Pai e faz jorrar sobre a Igreja e a humanidade o mesmo Espírito que o animava.

Esse é o Espírito do Pai, no qual fomos batizados. É nesse Espírito que fomos transformados e replasmados à imagem do Coração de Cristo. É nesse Espírito que fomos reunidos em Igreja, para que ela seja, mãe acolhedora, que não se fecha, mas anuncia aos de dentro e de fora o incomensurável mistério do amor de Deus, como nos dizia Paulo.

É nesse Espírito do crucificado e ressuscitado que nascemos para o ministério e somos enviados para ser instrumentos da misericórdia de Deus. Se não formos acolhedores, se não formos irmãos, se não formos expressão de misericórdia, não anunciamos a cruz de Jesus.

A seu exemplo, somos chamados a discernir, identificar e denunciar com clareza aquilo que destrói, divide e corrompe as pessoas e a sociedade. Mas somos chamados sobretudo a descer para junto dessas situações e a “reparar”, com os gestos de misericórdia de Deus – que podem ser também de denúncia – e com a luz do seu Espírito a realidade sempre frágil de que nós próprios somos parte.

A celebração do Coração de Jesus é um grande desafio para toda a Igreja e sobretudo para nós, a quem foi dado o Espírito do Senhor. Que Ele plasme o nosso coração para servirmos o seu povo, com os mesmos sentimentos e as mesmas atitudes que transpareceram do seu Coração e dos seus gestos de misericórdia.

É nesta atitude de adesão à ação da Santíssima Trindade que podemos fazer, nossa, a oração de Paulo que lemos há pouco:

Dobramos os joelhos diante do Pai,
de quem procede toda a paternidade, no céu e na terra,
para que nos conceda, pela riqueza da sua glória,
que sejamos fortalecidos no homem interior pelo seu Espírito
e Cristo habite, pela fé nos nossos corações
para sermos enraizados e fundamentados no amor.

E, como diz a oração da Igreja parafraseando o Evangelho, peçamos sempre ao Senhor Jesus que seja Ele a modelar o nosso coração por Ele próprio, para podermos servir o seu povo segundo o seu próprio modo de servir:

Jesus, manso e humilde de Coração,
Fazei o meu coração semelhante ao vosso!

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08 de Junho de 2018