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Reflexão: “Para uma paróquia inclusiva, evangelizada e evangelizadora”

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Reflexão do Padre António Sílvio Couto, Pároco da Moita 

Este artigo é a continuação da reflexão sobre a nova Instrução da Congregação para o Clero “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missa evangelizadora da Igreja”, publicada em junho deste ano.

Os diversos componentes que na paróquia se articulam são chamados à comunhão e à unidade. Na medida em que cada um implementa a própria complementariedade, pondo-a ao serviço da comunidade, então, de um lado se pode ver plenamente realizado o ministério do pároco e dos presbíteros que colaboram como pastores, de outro lado emerge a peculiaridade dos vários carismas dos diáconos, dos consagrados e dos leigos, para que cada um faça o seu melhor para a construção do único corpo».

Isto é escrito na Instrução da Congregação do Clero: “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja” (n.º 28), servindo-nos de referência ao comentário deste tema da paróquia que desejamos aprofundar.

Tornada pública no final do passado mês de junho, esta Instrução procura ajudar-nos a consciencializar alguns aspetos sobre a paróquia e as suas implicações na vida atual e futura da Igreja católica. Respigamos algumas ideias do capítulo quinto da Instrução (n. os 27 a 33), fazendo os ‘nossos’ questionamentos, observações e propostas.

– “O sujeito da ação missionária e evangelizadora da Igreja é sempre todo o Povo de Deus… a paróquia não se identifica com um edifício ou um conjunto de estruturas, mas sim com uma precisa comunidade de fiéis, na qual o pároco é o seu pastor próprio” (n.º 27). Nota-se neste documento da Igreja uma certa tensão entre o que se diz de forma estratificada no Código de Direito Canónico e aquilo que as mudanças da vida quase contradizem tal visão mais hermética. Como que colidem a “paróquia territorial” e aquela outra alicerçada mais no âmbito da mobilidade e da era digital – vide diferenciação no n.º 8 da Instrução.

– “A paróquia é uma comunidade convocada pelo Espírito Santo” (n.º 29), tendo como atributos: anunciar a Palavra de Deus, fazer renascer novos filhos na fonte batismal; reunida por seu pastor, celebra o memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor e testemunha a fé na caridade, vivendo em permanente estado de missão. Estes aspetos progressivos e interdependentes fazem da paróquia – citando o Papa Francisco, na “Alegria do Evangelho” (n.º 28) – um espaço aberto à diversidade das situações e capaz de se reformar e de adaptar constantemente.

– Partindo da comparação com o “estilo espiritual e eclesial dos santuários”, a Instrução incentiva a que as paróquias vivam segundo essa proposta (n.º 30), tendo em conta o acolhimento, a vida de oração e o silêncio que restaura o espírito e a celebração do sacramento da reconciliação e a atenção para com os pobres. Esta visão um tanto utópica dos santuários e a sua exemplaridade para as paróquias poderá ser útil, mas não em todos os lugares. Nalguns casos os santuários quase funcionam como refúgios de não-praticantes em maré de devoção…ou aflição.

– ‘“Santuário” aberto a todos, a paróquia, [é] chamada também a alcançar cada um, sem exceção, recorda que os pobres e os excluídos devem ter sempre um lugar privilegiado no coração da Igreja” (n.º 32). Efetivamente as paróquias recebem, assistem e quase suportam muitos pobres, tanto do setor económico como no vetor humano. Mas será que aos pobres ajudados se faz um verdadeiro anúncio de Jesus? Não andaremos a alimentar na dimensão material e a descurar na perspetiva espiritual?

– “Com o olhar dirigido aos últimos, a comunidade paroquial evangeliza e se deixa evangelizar pelos pobres, reencontrando neste modo o compromisso social do anúncio em todos os seus diferentes âmbitos, sem se esquecer da “suprema regra” da caridade em base a qual seremos julgados” (n.º 33). A dimensão real da caridade precisa de ser exercitada nas paróquias, mas sem esquecermos que da caridade deve emergir o acolhimento da Palavra e a celebração da liturgia. É assim que vivemos? As paróquias não são (nem podem ser) agências de problemas sociais com etiqueta de religioso…

Padre António Sílvio Couto, Pároco de Moita

Foto: Paróquia de Nossa Senhora da Anunciada, Setúbal

 

Este artigo é a continuação da reflexão sobre a nova Instrução da Congregação para o Clero “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missa evangelizadora da Igreja.”

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27 de Agosto de 2020