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D. José Ornelas/Cáritas: “Ninguém pode dizer que [a pobreza] não é problema seu”

Com o lema “65 anos – Cáritas: um amor que transforma”, a Semana Nacional Cáritas terminou na Diocese de Setúbal com a celebração da Eucaristia, presidida pelo Bispo de Setúbal.

“Neste domingo dedicado à Cáritas reunimo-nos, como cada domingo, para escutar a Palavra de Deus, que dá sentido à nossa vida e àquilo que celebramos, neste caso, uma organização que, em cada Diocese e em todo o mundo nos recorda e nos ajuda a praticar o bem em favor de quem precisa, como uma das dimensões basilares da nossa opção de fé” referiu D. José Ornelas no início da sua homilia.

Esta centrou-se particularmente em dois textos fundamentais da Palavra de Deus: a proclamação dos mandamentos de Deus e a parábola do rico e do pobre Lázaro.

No texto do livro do Êxodo, Deus dá, no Monte Sinai, instruções para o futuro do seu povo, cujo centro se encontra nos Dez Mandamentos, ou as Dez Palavras, como são conhecidos na tradição hebraica. Deus tinha dado a liberdade a um povo escravizado – refere D. José Ornelas, citando a escritura – “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto”.

Neste caminho para ser um povo livre e de sucesso, dá-lhe o livro de instruções da liberdade e da vida, para que sejam felizes. E que dizem estas instruções das Dez Palavras?”

Segundo o Bispo de Setúbal, “antes de mais, dizem para levantar os olhos para Deus e para não endeusar nada que não tenha consistência: nem a riqueza, nem o prazer, nem o poder ou a vaidade”, pois não “subsistem no tempo”. Apenas a Palavra de Deus “tem verdadeira solidez” e liberta para felicidade.

Sobre a segunda palavra “Não invoques o Nome de Deus em vão”, o prelado referiu que “não é só uma questão de jurar falso”, mas “sobretudo da manipulação de Deus, para manobras pessoais de poder, de política, de ideologia, de orgulho pessoal”.

Sobre “guardar o Sábado”, refere que este é o dia “em que o ser humano se encontra com Deus”, para descobrir a sua dignidade de filho e não de escravo.

“Uma outra indicação preciosa é a que diz respeito aos pais: Honra Pai e Mãe. Isto é, deves ser leal e misericordioso com aqueles que te geraram, acarinharam, quando eras criança incapaz de velar por ti. E quando cresceres e te tornares homem ou mulher capaz, tens de velar por aqueles que foram perdendo força e se foram tornando frágeis.”

“Depois vêm os mandamentos do “não”: não matarás, porque não criaste a vida e não podes tirá-la a ninguém, em nenhum modo, não só não suprimindo a vida de ninguém, mas também fazendo com que todos tenham os meios para viver dignamente. Não cometerás adultério, porque perverterias o mais valioso que a humanidade tem, que é o amor. Não arruínes, pois, esse amor em tua casa e nem na casa de ninguém. Não roubarás, porque todos têm direito aos bens necessários para a vida e para o futuro e criarias tensões, insegurança e guerra, na sociedade e no mundo. Não levantarás falso testemunho, mas defenderás sempre a justiça que é o pilar da sociedade; e erguer-te-ás sempre em defesa daqueles que são injustiçados e perseguidos. Não cobiçarás, ninguém nem nada que não te pertença, porque ficarias frustrado por não conseguir ou tornar-te-ias ladrão e injusto para com os que te rodeiam.”

O prelado explica que “os mandamentos não são um não de Deus à vida e à liberdade, mas balizas que sinalizam o caminho e defendem a vida e o futuro, para a felicidade”, reduzindo-se apenas a um mandamento, com duas faces ligadas, como uma moeda: amar a Deus e ao próximo.

“O amor, em grego, diz-se “agápê”, que em latim se diz “Caritas”; “Caridade”, nas nossas línguas. Os mandamentos são, também para a Cáritas, a base do programa de vida e de ação.”

 

Sobre a parábola do evangelho do dia, D. José Ornelas afirma que sabemos pouco sobre o rico e o modo como acumulou riqueza mas sabemos que ignorou o pobre e doente à sua porta.

Não entra na cabeça nem no coração de Jesus e Ele diz que o Pai do Céu não tolera este fosso entre pessoas. A existência da miséria é um atentado aos mandamentos de Deus e à honorabilidade de qualquer sociedade, ao ser e  dignidade da pessoa humana. E ninguém pode dizer que isto não é problema seu.”

A segunda parte da parábola (a inversão de situações, em que o pobre está bem e o rico em tormentos) não é vingança de Deus. “É a exposição da maldade, da pecaminosidade, do egoísmo e do escândalo da miséria e da injustiça na sociedade.”

O prelado recusa a ideia de vingança de Deus. Pelo contrário reforça a ideia de que o rico confiou nos deuses errados: “Deus socorre o pobre, como socorre todos, também ao rico, porque todos somos pobres. Só que alguns não se dão conta disso.”

O rico estava tão cheio de si e preocupado consigo, que não se deu conta de Deus, do seu amor e do seu poder, nem do pobre que precisava da sua ajuda. Morreu afogado em si mesmo, nas suas certezas, nas suas seguranças, nos seus banquetes e faustos. E, aquilo que recebeu de Deus, que devia ter servido para a vida de outros, perdeu-se com ele.”

“Neste dia da Cáritas, esta imagem de Jesus vale mais do que muitos outros discursos. À nossa porta – e, às vezes, adentro de portas – existem muitos Lázaros, de pão, de saúde, de carinho, de atenção, de esperança. A CARITAS pretende ser, em cada diocese, em cada paróquia, em cada um de nós, esta consciência prática de olhar para quem precisa, com “caridade”, com amor”, conclui.

“O amor que transforma”

O III Domingo da Quaresma é assinalado em Portugal com o Dia Nacional da Cáritas. A efeméride foi lembrada na Eucaristia celebrada na Sé Catedral, contando com a presença de alguns colaboradores e elementos da direção da Cáritas Diocesana de Setúbal. Os restantes fiéis, uma vez mais, assistiram à celebração pelos canais digitais da Diocese.

“Este momento é simbólico porque destaca a importância da Cáritas Diocesana e do trabalho ao serviço da caridade que se faz na Diocese através de todos: não só da Cáritas Diocesana, mas também do Departamento Sociocaritativo, as instituições da igreja diocesana e os grupos paroquiais de ação social” realçou na sua alocução introdutória, o presidente da instituição, Engenheiro Domingos de Sousa.

 

Para o responsável da Cáritas Diocesana, este último ano tem sido “atípico”, mas também “desafiante” por nos “levar a viver de forma diferente e com mais atenção aos que mais têm sofrido com as consequências da pandemia e dos confinamentos”.

Lembrando que a pandemia impediu a realização do peditório público nacional dois anos consecutivos, Domingos de Sousa, enalteceu as participações nas novas formas de apoio, lembrando que a Renúncia Quaresmal da Diocese reverterá em parte para a Cáritas Diocesana. “Deixo um apelo à generosidade de todos. Só desse modo podemos continuar a lutar para que ninguém fique para trás”, acrescenta.

Na sua intervenção, o responsável elogiou todos os colaboradores e voluntários da Cáritas que “se excederam, ultrapassando dificuldades e medos”, “para responder aos desafios que diariamente tiveram que enfrentar”, bem como a todas as entidades, empresas e pessoas que “colaboraram das mais diversas formas num movimento ímpar de solidariedade”.

“Penso que materialmente podemos estar mais pobres, mas como pessoas melhorámos, porque ao reconhecer a nossa fragilidade, ficámos mais humanos e mais atentos às necessidades dos que mais precisam. Só o amor transforma o mundo. Votos de Santa Quaresma”, concluiu.

De acordo com a Cáritas Portuguesa, o Peditório Nacional Público, realizado através dos meios digitais, angariou “mais de 100 mil euros” num montante que “reforça” a capacidade de atuação de cada uma das 20 Cáritas Diocesanas junto da “população mais vulnerável”.

“Em 2020, a rede Cáritas atribuiu apoios financeiros diretos à população de cerca 1.5 milhões de euros, aos quais ainda se somam apoios em produtos alimentares e bens essenciais, bem como outras respostas sociais de emergência”, indica a instituição em comunicado.

JM

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10 de Março de 2021