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Reflexão: Peregrinos a pé…para Fátima (e não só)

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É um fenómeno que tem vindo a crescer: vermos grupos e pessoas individuais a andarem a pé rumo ao santuário de Fátima, mas também para Santiago de Compostela ou outro espaço religioso mais ou menos significativo nalguma região.
O que leva centenas ou milhares de pessoas mais ou menos organizadas a empreenderem um processo de caminhada a pé? Quais as caraterísticas de ‘peregrinação’? Como entender ou enquadrar pessoas que fazem essa caminhada e/ou peregrinação a pé? Esta onda de ‘caminhadas a pé’, onde se pode incluir a peregrinação que nos diz (ou revela) do nosso tempo? A mensagem de Nossa Senhora, em Fátima, incluía esta vertente de caminhada a pé ou como peregrinos a pé? Como entender e enquadrar esta onda de ‘peregrinos a pé’ na abordagem ao santuário de Fátima?

1. Neste, como noutros aspetos da vida, cada pessoa é um caso e tem/pode ter as suas razões para empreender a sua caminhada a pé ou como peregrino a pé. Pelo que podemos ouvir das pessoas há motivações muito díspares, com significados múltiplos e mesmo com interpretações diversas… razões religiosas, do foro do agradecimento ou nalguns casos como ‘pagamento’ de promessas, mas também pela experiência do caminhar juntos ou como atividade de índole espiritual ou meramente humana… De tudo isto não poderemos senão respeitar as motivações e, se for caso disso, esclarecer as consequências…

2. O Catecismo da Igreja Católica fala-nos sobre o sentido e o conceito de ‘peregrinação’, sobre a conexão com a religiosidade popular, quanto ao significado e mesmo quanto aos tempos de peregrinação:
* Sentido da peregrinação: «A Igreja […] só na glória celeste alcançará a sua realização acabada», aquando do regresso glorioso de Cristo. Até esse dia, «a Igreja avança na sua peregrinação por entre as perseguições do mundo e das consolações de Deus». Vivendo na terra, ela tem consciência de viver no exílio, longe do Senhor e suspira pelo advento do Reino em plenitude, pela hora em que «espera e deseja juntar-se ao seu Rei na glória». A consumação da Igreja – e através dela, do mundo – na glória, não se fará sem grandes provações. Só então é que «todos os justos, desde Adão, “desde o justo Abel até ao último eleito”, se encontrarão reunidos na Igreja universal junto do Pai» (n.º 769).
* Conexão com a religiosidade popular: «Fora da liturgia dos sacramentos e dos sacramentais, a catequese deve ter em consideração as formas de piedade dos fiéis e a religiosidade popular. O sentimento religioso do povo cristão desde sempre encontrou a sua expressão em variadas formas de piedade, que rodeiam a vida sacramental da Igreja, tais como a veneração das relíquias, as visitas aos santuários, as peregrinações, as procissões, a via-sacra, as danças religiosas, o rosário, as medalhas, etc.» (n.º 1674).
* Significado de peregrinação: «as peregrinações evocam a nossa marcha na terra para o céu. São tradicionalmente tempos fortes duma oração renovada. Os santuários são, para os peregrinos à procura das suas fontes vivas, lugares excecionais para viver «em Igreja» as formas da oração cristã» (n.º 2691).

3. Vistas estas indicações de caráter católico podemos e devemos tentar avaliar este fenómeno das ‘peregrinações a pé’ com destino ao Santuário de Fátima. Parafraseando essa frase-chavão quanto à relação entre Fátima e com a hierarquia da Igreja em Portugal: não foi a Igreja que impôs Fátima, mas Fátima é que se impôs à Igreja.
Desde sempre houve pessoas que, dados os parcos recursos, fizeram do caminhar e o do andar a pé, uma forma de ir a Fátima. No entanto, tendo em conta as três vertentes da ‘mensagem de Fátima’ – oração, doentes e peregrinações – esta última foi-se aprimorando, desde a organização até à vivência e mesmo recorrendo a indicações de âmbito mais amplo, social e cultural. Os ‘caminhos de Fátima’, enquanto entidade ligada ao Centro nacional de cultura, tem identificado e desenvolvido vários itinerários – do Norte, da Nazaré, do Tejo, rota carmelita, do centenário, do mar, das beiras ou do sul…com indicações específicas e recomendações aos peregrinos… No entanto, tem havido e continuará a haver novas e esporádicas propostas de caminhos de peregrinos. Todos terão o espírito da mensagem de Nossa Senhora?

Padre António Sílvio Couto, Pároco da Moita

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13 de Maio de 2022