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Reflexão/Dia do Trabalhador: Trabalho e Saúde

Portrait of factory worker in protective equipment holding thumb

Reflexão de Fátima Dias, Médica, da Comissão Diocesana da Pastoral da Saúde da Diocese de Setúbal

Celebramos no dia 1 de maio o Dia do Trabalhador que a Igreja não deixa de assinalar como o dia de S. José Operário, lembrando assim a dignidade do trabalho e dos trabalhadores.

O trabalho é toda a atividade humana realizada,  manual ou intelectual, independente das suas características e circunstâncias, sendo uma das características que distingue o homem do resto das criaturas, pois somente ele o realiza, preenchendo com ele a sua existência sobre a Terra.

Com o seu trabalho ele procura o pão quotidiano, contribuindo para o progresso contínuo das ciências e da técnica, vivendo e operando na comunidade com os próprios irmãos, determinando a qualificação interior do mesmo trabalho, bem como  constituindo a sua  própria natureza, sustentando-se com o pão granjeado pelo trabalho das suas mãos, com o pão da ciência e do progresso, da civilização e da cultura, rodeado de tensões, conflitos e crises, que em relação com a realidade do trabalho, perturbam a vida de cada uma das sociedades e até da própria humanidade.

A doutrina social da igreja tendo a sua fonte na Sagrada Escritura, a começar pelo livro do Génesis e em particular no Evangelho e nos escritos apostólicos, dedica desde os inícios do ensino da Igreja atenção aos problemas sociais.

É convicção da Igreja de que o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência do homem sobre a terra, com a centralidade na Palavra de Deus, revelada de Deus vivo, como uma convicção de fé.

O homem ao tornar-se pelo seu trabalho cada vez mais senhor da terra, e ao consolidar mediante o trabalho o seu domínio sobre o mundo visível, em todas as fases deste processo, permanece na linha da disposição original do Criador, a qual está indissoluvelmente ligada ao facto de o homem ter sido criado à imagem de Deus. Ao mesmo tempo, tal processo, que é universal abrange todos os homens, todas as gerações, todas as fases do progresso económico e cultural é, simultaneamente, um processo que atua em todos e em cada um dos homens, em todos os sujeitos humanos conscientes.

Para além da dimensão objetiva com aquele domínio da terra e do seu processo, temos o tempo da compreensão da sua dimensão subjetiva, em que o trabalho humano tem o seu valor ético diretamente ligado à pessoa que o realiza, um sujeito consciente e livre, isto é, um sujeito que decide de si mesmo.

Esta verdade, é um dos pilares da doutrina cristã sobre o trabalho humano, teve e continua a ter um significado primordial para a formulação dos importantes problemas sociais ao longo de várias épocas, aliás já expressos no Antigo Testamento. Cristo com a sua mensagem evangélica operou uma transformação fundamental do conceito de trabalho, pois sendo Deus, tornou-se semelhante a nós em tudo, passando grande parte dos seus anos da vida sobre a terra junto de um banco de carpinteiro, dedicando-se ao trabalho manual, constituindo-o assim como uma vocação universal.

Existe, contudo, a obrigação moral de unir a laboriosidade como virtude, com a ordem social do trabalho, permitindo ao homem tornar-se mais homem pelo trabalho e não degradar-se por causa do mesmo.

Esta dimensão pessoal do trabalho, deve assim estar unida à esfera de valores, edificando a vida familiar, munindo-a dos meios de subsistência necessárias para uma vida em equilíbrio, quer educacional, quer social, constituindo a primeira escola interna de trabalho para cada um. 

Os frutos resultantes desse mesmo trabalho devem ser úteis tanto para o próprio como para outrem, auferindo uma remuneração justa, desejando simultaneamente que seja tomado em consideração nesse mesmo processo de produção, não considerando somente a economia, mas também os valores pessoais.

Mas, por outro lado, não podemos deixar de olhar para a família humana espalhada por toda a terra, pois ainda ficamos impressionados com a quantidade de pessoas que estão desempregados ou com subemprego, originando multidões em grave carência económica, apesar da proporção de recursos que existem e permanecem inutilizados.

Sabemos que o trabalho e as condições em que é prestado, são decisivos para o bem-estar e saúde física e espiritual das pessoas, o trabalho digno promove a saúde dos trabalhadores e das suas famílias.

O papel particular da Igreja

A reflexão sobre o valor do trabalho, deve também dedicar-se à espiritualidade no sentido cristão da expressão. É ao homem que é dirigida a palavra de Deus vivo, como mensagem evangélica da salvação, cujos ensinamentos são como luzes orientadoras, sendo necessário um esforço interior do espirito humanos guiado pela fé, pela esperança e pela caridade, para dar ao trabalho do homem concreto, aquele sentido que ele tem aos olhos de Deus e mediante o qual entra na obra da salvação.

Na Palavra da Revelação Divina acha-se profundamente inscrita esta verdade fundamental, em que sendo o homem criado à imagem de Deus, participa mediante o seu trabalho na obra do Criador, continuando a desenvolvê-la, progredindo na descoberta dos recursos contidos em tudo o que foi criado.

No livro dos Génesis a obra da criação é apresentada sob a forma de trabalho realizado por Deus durante seis dias, sendo o repouso no sétimo dia. Deve assim o homem imitar Deus quer quando trabalha, quer quando repousa.

Esta consciência do trabalho humano como atividade que nos aproxima de Deus e da restante humanidade, é uma atividade de todos os dias, pois aqueles que ao ganhar o sustento para si e para as suas famílias, exercem as atividades de maneira a bem servirem a sociedade dignificam o trabalho e tornam-no um prolongamento da obra do Criador, um serviço prestado aos seus irmãos e uma contribuição pessoal para a realização do plano providencial de Deus.

Esta espiritualidade cristã do trabalho, deve tornar-se assim património comum de todos.

No trabalho humano, o cristão encontra uma pequena parcela da cruz de Cristo e aceita-a com o mesmo espírito de redenção com que Cristo aceitou a cruz por nós.

Graças à luz emanada da ressurreição do mesmo Cristo, descobrimos no trabalho o vislumbre da vida nova e a dignidade de cada homem, a comunhão fraterna e a sua liberdade.

Fátima Dias, Médica

Comissão Diocesana da Pastoral da Saúde da Diocese de Setúbal

Imagem: Freepik

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02 de Maio de 2023