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Saúde: Mensagem de D. Américo Aguiar para o 32.º Dia Mundial do Doente

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Foi o próprio Jesus que colocou os doentes no centro das atenções de todos. Facilmente conseguimos imaginar as multidões que O rodeavam, que Lhe pediam o milagre da cura, o alívio dos males. E sabemos que Jesus compadecido do sofrimento de tantos, curava, tocava, ordenava que se levantassem, que caminhassem, que voltassem a ver e a ouvir. 

Ao longo destes mais de dois mil anos, a Igreja continuou a olhar para os doentes, a construir hospitais e casas de acolhimento, a procurá-los nas ruas e nos bairros mais pobres de todo o mundo. Um serviço de amor, de compaixão e de ternura por todos. 

Este ano, o Papa Francisco ilumina mais um recanto da doença e do sofrimento. O recanto da solidão e do abandono. Diz-nos o Papa na sua mensagem para este dia:

“(…) Fomos criados para estar juntos, não sozinhos. E precisamente porque este projeto de comunhão está inscrito tão profundamente no coração humano, a experiência do abandono e da solidão atemoriza-nos e olhamo-la como dolorosa e até desumana. E isto agrava-se ainda mais no tempo da fragilidade, da incerteza e da insegurança, causadas muitas vezes pelo aparecimento dalguma doença grave (…)” 

Cheguei há pouco tempo, mas já sei o quanto se sofre e o quanto se ajuda, nesta minha tão amada Diocese, aquela que o Papa me entregou. Gostaria muito de vos poder dizer que não temos irmãos abandonados, que não existe solidão em Setúbal. Não é verdade. Mas posso partilhar com todos, que podemos alterar esta fatalidade que atravessa países, continentes e oceanos. À nossa medida, podemos fazer a diferença. Para tal, precisamos de estar atentos. Atentos à família, aos vizinhos do lado, aos alunos que temos nas escolas, aos idosos que frequentam os centros de dia. Aos pobres que vagueiam nas ruas, aos idosos sentados nos bancos. Às crianças que chegam às aulas com fome, aos pais que estão desempregados. Todos eles, perante uma situação de doença, serão os mais fragilizados, os primeiros a cair, os primeiros a precisar do nosso olhar, de uma mão que se estende, de um gesto de ternura.

E volto à Mensagem do Papa Francisco para este dia, palavras certeiras que nos podem até incomodar:

“(…) A vós que vos encontrais na doença, passageira ou crónica, quero dizer-vos: Não tenhais vergonha do vosso desejo de proximidade e ternura. Não o escondais e nunca penseis que sois um peso para os outros. A condição dos doentes convida-nos a todos a abrandar os ritmos exasperados em que estamos imersos e a reentrar em nós mesmos (…)”.

Amor, compaixão, ternura. É o que o Papa Francisco nos pede todos os dias, e de uma forma especial neste Dia Mundial do Doente. E acrescenta que assim, seremos obrigados a abrandar a vida que levamos e poderemos ser capazes de nos conhecermos melhor, de sermos mais autênticos e certamente mais felizes.

A Diocese de Setúbal precisa de todos. De quem está cheio de saúde e de força, de quem está doente e frágil. De quem cuida e de quem é cuidado. Que Nossa Senhora de Lurdes, tão atenta aos doentes, nos ajude a sermos capazes de verdadeiros gestos de ternura, uns para com os outros.

 Setúbal, 11 de fevereiro de 2024, Domingo VI do Tempo Comum. Dia Mundial do Doente.

+ Cardeal Américo, Bispo de Setúbal

 

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO
PARA O XXXII DIA MUNDIAL DO DOENTE

(11 de fevereiro de 2024)

«Não é conveniente que o homem esteja só».
Cuidar do doente, cuidando das relações

«Não é conveniente que o homem esteja só» (Gn 2, 18). Desde o início, Deus, que é amor, criou o ser humano para a comunhão, inscrevendo no seu íntimo a dimensão das relações. Assim a nossa vida, plasmada à imagem da Trindade, é chamada a realizar-se plenamente no dinamismo das relações, da amizade e do amor mútuo. Fomos criados para estar juntos, não sozinhos. E precisamente porque este projeto de comunhão está inscrito tão profundamente no coração humano, a experiência do abandono e da solidão atemoriza-nos e olhamo-la como dolorosa e até desumana. E isto agrava-se ainda mais no tempo da fragilidade, da incerteza e da insegurança, causadas muitas vezes pelo aparecimento dalguma doença grave.

Penso, por exemplo, em todos aqueles que permaneceram terrivelmente sós durante a pandemia de Covid-19: pacientes que não podiam receber visitas, mas também enfermeiros, médicos e pessoal auxiliar, todos sobrecarregados de trabalho e confinados em repartições isoladas. E não esqueçamos quantos tiveram de enfrentar sozinhos a hora da morte, assistidos pelos profissionais de saúde, mas longe das suas famílias.

Ao mesmo tempo associo-me, pesaroso, à condição de sofrimento e solidão de quantos, por causa da guerra e suas trágicas consequências, se encontram sem apoio nem assistência: a guerra é a mais terrível das doenças sociais e as pessoas mais frágeis pagam-lhe o preço mais alto.

Contudo, é preciso assinalar que, mesmo nos países que gozam da paz e de maiores recursos, o tempo da velhice e da doença é vivido frequentemente na solidão e, por vezes, até no abandono. Esta triste realidade é consequência sobretudo da cultura do individualismo, que exalta a produção a todo o custo e cultiva o mito da eficiência, tornando-se indiferente e até implacável quando as pessoas já não têm as forças necessárias para lhe seguir o passo. Torna-se então cultura do descarte, na qual «as pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e tutelar, especialmente se são pobres ou deficientes, se “ainda não servem” (como os nascituros) ou “já não servem” (como os idosos)» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 18). Esta lógica permeia também, infelizmente, certas opções políticas, que não conseguem colocar no centro a dignidade da pessoa humana com as suas carências e nem sempre proporcionam as estratégias e recursos necessários para garantir a todo o ser humano o direito fundamental à saúde e o acesso aos cuidados médicos. Ao mesmo tempo, o abandono das pessoas frágeis e a sua solidão acabam favorecidos ainda pela redução dos cuidados médicos apenas aos serviços de saúde, sem serem sapientemente acompanhados por uma «aliança terapêutica» entre médico, paciente e familiar.

Faz-nos bem voltar a ouvir esta frase bíblica: «não é conveniente que o homem esteja só». É pronunciada por Deus ao início da criação, revelando-nos assim o significado profundo do seu projeto para a humanidade, mas ao mesmo tempo também a ferida mortal do pecado, que se introduz gerando suspeitas, fraturas, divisões e consequente isolamento. Este atinge a pessoa em todas as suas relações: com Deus, consigo mesma, com o outro, com a criação. Tal isolamento faz-nos perder o significado da existência, tira-nos a alegria do amor e faz-nos provar uma sensação opressiva de solidão nas sucessivas passagens cruciais da vida.

Irmãos e irmãs, o primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações, de todas as suas relações: com Deus, com os outros – familiares, amigos, profissionais de saúde –, com a criação, consigo mesmo. É possível? Sim, é possível; e todos somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça. Olhemos para o ícone do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), contemplemos a sua capacidade de parar e aproximar-se, a ternura com que trata as feridas do irmão que sofre.

Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos.

A vós que vos encontrais na doença, passageira ou crónica, quero dizer-vos: Não tenhais vergonha do vosso desejo de proximidade e ternura. Não o escondais e nunca penseis que sois um peso para os outros. A condição dos doentes convida-nos a todos a abrandar os ritmos exasperados em que estamos imersos e a reentrar em nós mesmos.

Nesta mudança de época que vivemos, especialmente nós, cristãos, somos chamados a adotar o olhar compassivo de Jesus. Cuidemos de quem sofre e está sozinho, porventura marginalizado e descartado. Com o amor mútuo que Cristo Senhor nos oferece na oração, especialmente na Eucaristia, tratemos das feridas da solidão e do isolamento. E deste modo cooperamos para contrastar a cultura do individualismo, da indiferença, do descarte e fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão.

Os doentes, os frágeis, os pobres estão no coração da Igreja e devem estar também no centro das nossas solicitudes humanas e cuidados pastorais. Não o esqueçamos! E confiemo-nos a Maria Santíssima, Saúde dos Enfermos, pedindo-Lhe que interceda por nós e nos ajude a ser artífices de proximidade e de relações fraternas.

Roma – São João de Latrão, 10 de janeiro de 2024.

FRANCISCO

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06 de Fevereiro de 2024