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A Palavra do Papa: os protagonistas do anúncio, o perigo mais feio, o templo-casa e o remédio da humildade

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“Aproveitemos esta Quaresma para combater a nossa soberba”. Esse é o convite que o Papa Francisco dirigiu aos fiéis presentes na Praça São Pedro para a Audiência Geral desta quarta-feira, 6 de março.

Papa: os pobres são protagonistas com Jesus do anúncio do Reino de Deus

As pessoas vulneráveis, encontradas e acolhidas com a graça e o estilo de Cristo, podem ser uma presença do Evangelho na comunidade de fiéis e na sociedade. Foi o que disse o Papa ao receber em audiência na manhã de 1 de março, na Sala Clementina, no Vaticano, os participantes do Convénio “Vulnerabilidade e comunidade entre acolhimento e inclusão”.

Dado que o Santo Padre ainda se encontrava engripado, pediu a um dos seus colaboradores que lesse o seu discurso aos presentes. Francisco disse apreciar a iniciativa “Cátedra do acolhimento”, na sua segunda edição, que colocou no centro o tema da vulnerabilidade. Acolhimento e vulnerabilidade, considerada nas suas várias formas. Em seguida, ofereceu algumas reflexões.

Em primeiro lugar: para acolher irmãos e irmãs vulneráveis, devo me sentir vulnerável e acolhido como tal por Cristo. Ele sempre nos precede: Ele fez-se vulnerável, até ao ponto da Paixão; acolheu a nossa fragilidade para que, graças a Ele, possamos fazer o mesmo. São Paulo escreve: “Acolhei-vos uns aos outros como Cristo vos acolheu” (cf. Rm 15,7). Se permanecermos n’Ele, como ramos na videira, daremos bons frutos, também vasto campo de acolhimento.

No segundo ponto da sua reflexão, o Santo Padre ressaltou que Jesus passou a maior parte do seu ministério público, especialmente na Galileia, em contacto com os pobres e os doentes de todos os tipos. Isso diz-nos que, para nós, a vulnerabilidade não pode ser uma questão “politicamente correta” ou uma mera organização de práticas, por melhores que sejam.

Antes de concluir o seu discurso, o Pontífice ofereceu um último ponto da sua reflexão: “No Evangelho, os pobres, os vulneráveis, não são objetos, são sujeitos, são protagonistas junto com Jesus na proclamação do Reino de Deus”.

O Papa: o perigo mais feio é a ideologia de género, que anula as diferenças

O Papa Francisco recebeu em audiência, na passada sexta-feira, no Vaticano, os participantes do encontro internacional “Homem-Mulher, imagem de Deus. Por uma antropologia das vocações”, promovido pelo Centro de Investigação e Antropologia das Vocações (CRAV) e coordenado pelo prefeito emérito do Dicastério para os Bispos, cardeal Marc Ouellet. O encontro reuniu vários estudiosos, filósofos, teólogos e pedagogos para refletir sobre a antropologia cristã, o pluralismo, o diálogo entre culturas e o futuro do cristianismo.

Antes do seu discurso, lido pelo seu colaborador o monsenhor Filippo Ciampanelli, porque o Papa ainda está engripado e cansa-se quando lê, Francisco proferiu algumas breves palavras.

Gostaria de sublinhar uma coisa: é muito importante que haja este encontro, este encontro entre homens e mulheres, porque hoje o perigo mais feio é a ideologia de género, que anula as diferenças. Pedi para fazer estudos sobre essa má ideologia do nosso tempo, que apaga as diferenças e torna tudo igual; cancelar a diferença é cancelar a humanidade. Homem e mulher, porém, vivem uma “tensão” fecunda.”

Talità kum: a perda de um filho é uma experiência que não aceita descrições teóricas

O Papa Francisco recebeu na manhã de sábado, o grupo “Talità kum”, de pais que perderam um filho. “A primeira coisa que desejo fazer é olhá-los no rosto, acolher de braços abertos as suas histórias marcadas pela dor e oferecer uma carícia ao seu coração, partido e traspassado como o de Jesus na cruz”.

No texto lido pelo monsenhor Ciampanelli, Francisco destaca que “a perda de um filho é uma experiência que não aceita descrições teóricas e rejeita a banalidade de palavras religiosas ou sentimentais, de encorajamentos estéreis ou de frases de circunstância, que, embora queiram consolar, acabam por machucar ainda mais aqueles que, como vocês, enfrentam uma dura batalha interior todos os dias”.

O Santo Padre diz que não devemos cair na atitude dos amigos de Job, que oferecem um espetáculo doloroso e sem sentido, tentando justificar o sofrimento, recorrendo até mesmo a teorias religiosas. Em vez disso, somos chamados a imitar a emoção e a compaixão de Jesus diante da dor, que o leva a viver na sua própria carne os sofrimentos do mundo.

De facto, não há nada pior do que silenciar a dor, silenciar o sofrimento, remover os traumas sem lidar com eles, como o nosso mundo muitas vezes nos leva a fazer, na pressa e no torpor.”

A pergunta que se eleva a Deus como um grito, ao invés, é salutar. É oração. Se ela força-nos a mergulhar numa memória dolorosa e a lamentar a perda, torna-se ao mesmo tempo o primeiro passo da invocação e abre-nos para receber o consolo e a paz interiores que o Senhor não deixa de dar.

O Papa conclui dizendo que é lindo pensar que as suas filhas e filhos, como a filha de Jairo, foram levados pela mão do Senhor; e que um dia vocês os verão novamente, os abraçarão novamente, desfrutarão da presença deles numa nova luz, que ninguém poderá tirar de vós.

Francisco aos magistrados: mantenham sempre a coragem cristã

A coragem, unida à fortaleza, garante “a constância na busca do bem e torna a pessoa capaz de enfrentar as provações”. O Papa Francisco, no seu discurso por ocasião da inauguração do 95º ano judiciário do Tribunal do Vaticano, reflete sobre essa virtude que não representa “uma qualidade particular da alma, característica de algumas pessoas heroicas”. Devido a uma bronquite, a leitura do texto preparado foi confiada ao monsenhor Filippo Ciampanelli, da Secretaria de Estado.

A coragem, explica o Papa, desorienta os corruptos e “coloca-os, por assim dizer, a um canto, porque os seus corações estão fechados e endurecidos”. Com coragem, afirma Francisco, somos chamados “a enfrentar também as dificuldades da vida quotidiana, na família e na sociedade, a nos comprometer com o futuro dos nossos filhos, a proteger a casa comum, a assumir as nossas responsabilidades profissionais”.

Dirigindo-se aos magistrados do Tribunal do Vaticano, o Pontífice enfatizou que, juntamente com a prudência e a justiça, “a tarefa de julgar exige as virtudes da fortaleza e da coragem, sem as quais a sabedoria corre o risco de permanecer estéril”. “É necessária a coragem”, lembra o Papa, “para ir até o fim na apuração rigorosa da verdade”.

Crianças: “sois preciosos aos olhos de Deus”

Foi publicada este sábado, 2 de março, a mensagem do Papa Francisco para a 1ª Jornada Mundial das Crianças, que será celebrada nos dias 25 e 26 de maio próximo, em Roma. Francisco dirige-se antes de mais, a cada um pessoalmente: “a ti, querida menina, a ti, querido menino, porque sois preciosos aos olhos de Deus, como nos ensina a Bíblia (cf. Is 43, 4) e tantas vezes o demonstrou Jesus”.

“Meus amiguinhos, para nos renovarmos a nós mesmos e ao mundo, não basta encontrar-nos entre nós: é necessário estar unidos a Jesus. D’Ele recebemos tanta coragem! Está sempre perto de nós; o seu Espírito precede-nos e acompanha-nos pelos caminhos do mundo. Jesus diz-nos: «Eu renovo todas as coisas» (Ap 21, 5); são as palavras que escolhi como tema para a vossa primeira Jornada Mundial. Estas palavras convidam a tornar-nos ágeis como crianças no acolhimento das novidades suscitadas em nós e ao nosso redor pelo Espírito.

Com Jesus, podemos sonhar uma nova humanidade e trabalhar por uma sociedade mais fraterna e atenta à nossa casa comum, começando por coisas simples como saudar os outros, pedir licença, pedir desculpa, dizer obrigado. O mundo transforma-se antes de mais através de pequenas coisas, sem ter vergonha de realizar apenas pequenos passos.

Mais ainda! Sozinhos, queridas meninas e queridos meninos, não podemos sequer ser felizes, porque a alegria cresce na medida em que a partilhamos: nasce com a gratidão pelos dons que recebemos e, por nossa vez, comunicamos aos outros.”

Quando guardamos só para nós o que recebemos, ou até fazemos uma birra para conseguir esta ou aquela dádiva, na realidade esquecemo-nos de que o maior dom somos nós mesmos, uns para os outros: somos nós a «prenda de Deus». Os outros dons servem apenas para estar juntos; se não os utilizamos para isso, seremos eternos insatisfeitos e nunca nos bastarão”.

Angelus: “fazer ao nosso redor mais casa e menos mercado, espalhar a fraternidade”

Francisco reza a oração mariana do Angelus com os fiéis reunidos na Praça São Pedro e recorda a advertência de Jesus: “não façam da casa do meu Pai um mercado”.

O Evangelho de hoje – disse o Santo Padre na alocução que precedeu o Angelus – mostra-nos uma cena dura: Jesus que expulsa os vendilhões do templo. Ele afasta os vendedores, derruba os bancos dos cambistas e admoesta a todos dizendo: “Não façam da casa do meu Pai um mercado”. O Papa detém-se exatamente no contraste entre casa e mercado: são, de facto, duas maneiras diferentes de se apresentar diante do Senhor.

“No templo, entendido como um mercado, para estar de bem com Deus, bastava comprar um cordeiro, pagá-lo e consumi-lo nas brasas do altar”. Comprar, pagar, consumir, e depois cada um para sua casa, frisou o Papa.

No templo, porém, entendido como casa, acontece o contrário: a pessoa vai ao encontro do Senhor, une-se a Ele e aos irmãos, para partilhar alegrias e tristezas. Ainda mais: “no mercado, joga-se com o preço, em casa não se calcula; no mercado, busca-se o próprio interesse, em casa, dá-se gratuitamente”. E Francisco sublinha:

Jesus é duro hoje porque não aceita que o templo-mercado substitua o templo-casa, que o relacionamento com Deus seja distante e comercial em vez de próximo e confiante, que os bancos de vendas tomem o lugar da mesa da família, os preços o lugar dos abraços e as moedas o lugar das carícias. Pois, dessa forma, cria-se uma barreira entre Deus e o homem e entre irmão e irmão, ao passo que Cristo veio para trazer comunhão, misericórdia e proximidade”.

Audiência Geral: quem cede à soberba está longe de Deus

“Aproveitemos esta Quaresma para combater a nossa soberba”. Esse é o convite que o Papa dirige aos fiéis presentes na Praça São Pedro para a Audiência Geral desta quarta-feira.

Francisco, que ainda se recupera de um resfriado. O seu discurso foi lido pelo monsenhor Pierluigi Giroli. A décima reflexão do Santo Padre no ciclo de catequeses sobre os vícios e as virtudes foi dedicada ao pecado da soberba.

No texto, o Papa define o soberbo como “alguém que se acha muito mais do que realmente é; alguém que se agita para ser reconhecido como maior que os outros, quer sempre ver os seus méritos reconhecidos e despreza os outros considerando-os inferiores.”

Na raiz da soberba, prossegue o Papa, “reside a absurda pretensão de ser como Deus”. Este vício arruína as relações humanas, envenena o sentimento de fraternidade e revela uma série de sintomas:

O soberbo é altivo, propenso a julgamentos, desdenhoso, em vão emite sentenças irrevogáveis ​​contra os outros, que lhe parecem irremediavelmente ineptos e incapazes. Na sua arrogância, esquece-se que Jesus nos deu poucos preceitos morais nos Evangelhos, mas em um deles mostrou-se intransigente: não julgueis.”

No fim, o Papa enfatiza que o verdadeiro remédio para todo ato de soberba é a humildade. “No Magnificat, Maria canta ao Deus que com o seu poder dispersa os soberbos nos pensamentos doentios dos seus corações”: “É inútil roubar algo de Deus, como os soberbos esperam fazer, porque em última análise Ele quer dar-nos tudo.”

“Portanto, queridos irmãos e irmãs, aproveitemos esta Quaresma para lutar contra a nossa soberba”, concluiu o Papa.

Proteção de Menores: que a Igreja persista na prevenção e condenação dos abusos

O Papa recebeu em audiência, no Vaticano, os membros da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, que se reuniram em assembleia plenária.

“Muitos de vocês dedicaram as suas vidas a cuidar das vítimas de abuso: é uma vocação corajosa, que vem do coração da Igreja e a ajuda a se purificar e crescer”, destaca o Pontífice no início do texto preparado para a ocasião, recordando o compromisso da Pontifícia Comissão que realiza um trabalho muito importante, também à luz da Constituição Apostólica Praedicate Evangelium:

Nos últimos dez anos, a tarefa de oferecer aconselhamento e consultoria e de propor as iniciativas mais apropriadas para a proteção de menores e pessoas vulneráveis expandiu-se consideravelmente, tornando-se mais definida, pois pedi a vocês que se concentrassem em ajudar a tornar a Igreja um lugar cada vez mais seguro para crianças e adultos vulneráveis.”

“Diante do escândalo do abuso e do sofrimento das vítimas, podemos ficar desanimados, pois o desafio de reconstruir o tecido de vidas destruídas e curar a dor é grande e complexo. Mas nosso compromisso não pode falhar; na verdade, eu incentivo-os a seguir em frente, para que a Igreja seja sempre e em todos os aspetos um lugar onde todos possam se sentir em casa e onde cada pessoa seja considerada sagrada.”

JM (com recursos jornalísticos do portal noticioso Vatican News)

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08 de Março de 2024