comprehensive-camels

A Palavra do Papa: o caminho do perdão, a ternura das mães, a virtude fiel e os guardiões do planeta

20240314-a-palavra-do-papa - Cópia

Na semana em que celebrou 11 anos de pontificado, o Papa Francisco iniciou um ciclo de catequeses sobre as virtudes. O ser humano é feito para o bem, afirma, porém, o exercício das virtudes é fruto de uma longa germinação, que exige esforço e até sofrimento.

Papa Francisco: recomeçar a vida nova pelo perdão de Deus

O Papa Francisco deslocou-se até à periferia de Roma para presidir à Celebração da Penitência, com o rito da reconciliação, que dá início à iniciativa “24 Horas de Oração para o Senhor”, promovida pelo Dicastério para a Evangelização dirigida às dioceses do mundo inteiro.

A cerimónia aconteceu no final da tarde de oito de março na Paróquia de São Pio V, no bairro Aurelio. Antes de ouvir as confissões de alguns paroquianos, Francisco falou da importância de nos reconhecermos pecadores e de “nos lançarmos nos braços do amor de Jesus crucificado para sermos libertados” a partir do perdão.

Na homilia, o Pontífice refletiu sobre o que escreveu o apóstolo Paulo aos primeiros cristãos romanos, que também foi o lema escolhido para este ano das “24 Horas para o Senhor”: “Caminhar numa vida nova” (Rm 6,4). Segundo o Papa, essa vida nova “nasce do Batismo, que nos imerge na morte e na ressurreição de Jesus e nos torna para sempre filhos de Deus”, e é feita caminhando.

Mas, observou o Papa, “depois de tantos passos no caminho”, “imersos num ritmo repetitivo” diariamente, “envolvidos em mil coisas, atordoados com tantas mensagens”, procurando “em toda a parte satisfação e novidade, estímulos e sensações positivas”, “talvez perdemos de vista a vida santa que corre dentro de nós”.

O importante é continuar no caminho, alertou o Sumo Pontífice, para redescobrir a beleza do Batismo e o sentido para seguir em frente. E esse caminho é o do perdão de Deus, que “nos torna novos novamente”, garantiu, porque “devolve-nos uma vida e uma visão nova”.

Angelus: não devemos julgar os outros, mas ajudá-los

“O olhar do Senhor sobre nós não é um farol que nos ofusca e nos coloca em dificuldade, mas o brilho suave de uma lâmpada amiga, que nos ajuda a ver o bem em nós e a perceber o mal, para que possamos nos converter e ser curados com o apoio de sua graça”. Foi o que disse o Papa no Angelus, ao meio-dia deste domingo, 10 de março, IV Domingo da Quaresma em preparação para a Páscoa do Senhor.

Na alocução que precedeu a oração mariana diante de milhares de fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro, Francisco deteve-se sobre a página do Evangelho do dia (Jo 3,14-21), que nos apresenta a figura de Nicodemos, um fariseu, “um dos chefes dos Judeus”. Ele viu os sinais que Jesus realizou, reconheceu n’Ele um mestre enviado por Deus e foi encontrá-lo à noite, para não ser visto.

O Senhor recebeu-o, dialogou com ele e revelou-lhe que não tinha vindo para condenar, mas para salvar o mundo, ressaltou Francisco, convidando a refletir sobre isso: Jesus não veio para condenar, mas para salvar o mundo.

Diante d’Ele não há segredos: Ele lê os corações. Essa capacidade pode ser inquietadora porque, se mal utilizada, prejudica as pessoas, expondo-as a julgamentos impiedosos. Pois ninguém é perfeito, todos somos pecadores, todos erramos, e se o Senhor usasse o conhecimento das nossas fraquezas para nos condenar, ninguém poderia ser salvo.”

Mas não é assim, continuou o Papa. Pois Ele não a usa para apontar o dedo para nós, mas para abraçar as nossas vidas, para nos libertar do pecado e nos salvar. Jesus não está interessado em colocar-nos em julgamento e submeter-nos a sentenças; Ele não quer que nenhum de nós se perca. Jesus não veio para condenar, mas para salvar o mundo. 

Antes de concluir, o Santo Padre solicitou-nos a pedir ao Senhor que nos dê um olhar de misericórdia, para não julgar os outros, mas ajudá-los, que olhemos para os outros como Ele olha para todos nós.

Mulheres: há muito a ser feito para que seja reconhecida a igual dignidade das mulheres

Após a oração mariana do Angelus, o Pontífice lembrou o Dia Internacional da Mulher, celebrado dia 8, para ressaltar a sua proximidade a todas as mulheres, especialmente àquelas cuja dignidade não é respeitada.

Ainda há muito trabalho a ser feito por cada um de nós para que a igual dignidade das mulheres seja concretamente reconhecida. São as instituições, sociais e políticas, que têm o dever fundamental de proteger e promover a dignidade de todo o ser humano, oferecendo às mulheres, portadoras da vida, as condições necessárias para que possam acolher o dom da vida e assegurar aos seus filhos uma existência digna”.

Na sua conta no X, antigo Twitter, Francisco escreveu sobre as mulheres: “As mulheres tornam o mundo mais bonito, protegem-no e mantêm-no vivo. Trazem consigo a graça da renovação, o abraço da inclusão e a coragem de doar-se. A paz, então, nasce das mulheres, surge e reacende-se a partir da ternura das mães.”

Cuidado: erradicar situações que encobrem quem comete abusos

O Papa Francisco enviou uma mensagem aos participantes do III Congresso Latino-americano intitulado “Vulnerabilidade e Abuso: Rumo a uma visão mais ampla de prevenção” que decorreu esta semana na Cidade do Panamá.

O congresso é promovido pela Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, pelo Centro de Investigação e Formação Interdisciplinar para a Proteção dos Menores (CEPROME), pelo Conselho Episcopal Latino-americano e Caribenho (CELAM) e pela Arquidiocese do Panamá.

Nesta mensagem, Francisco convida a olhar para a questão do abuso “com os olhos de Deus” e em diálogo com Ele, a fim de entender melhor a questão da vulnerabilidade. O Pontífice afirma:

Deus chama-nos a uma mudança absoluta de mentalidade na nossa conceção das relações, privilegiando o menor, o pobre, o servo, o inculto, em relação ao maior, o rico, o patrão, o instruído, com base na capacidade de acolher a graça que Deus nos dá e de fazer-nos dom para os outros”.

Em termos de prevenção, o nosso trabalho deve, sem dúvida, ter como objetivo erradicar situações que encobrem quem se esconde atrás da sua posição para se impor aos outros de forma perversa, mas também entender porque são incapazes de se relacionar com os outros de forma saudável.

Francisco convida a comprometer-se a viver e a formar o fiel na integridade, confiando na força do Senhor, e observa: “Humanizar as relações em qualquer sociedade, inclusive na Igreja, significa trabalhar arduamente para formar pessoas maduras e coerentes que, firmes na sua fé e nos seus princípios éticos, sejam capazes de enfrentar o mal, testemunhando a verdade com letras maiúsculas. Uma sociedade que não se baseia nessas premissas de integridade moral será uma sociedade doente, com relações humanas e institucionais pervertidas pelo egoísmo, pela desconfiança, pelo medo e pelo engano”.

Audiência Geral: o ser humano é feito para o bem, à imagem de Deus

Francisco, após oito catequeses dedicadas aos vícios, iniciou esta quarta-feira uma série de reflexões sobre as virtudes. Ao introduzir o tema, o Papa afirma que este “bem, que vem de um lento amadurecimento da pessoa até se tornar sua característica interior”, é sustentado pela graça de Deus, e para que cresça e seja cultivado, são necessárias sabedoria e boa vontade.

Sorrisos, saudações, acenos e muitas felicitações pelos 11 anos de Pontificado do Papa Francisco. Este foi o clima inicial da Audiência Geral desta quarta-feira, a mesma data que marca a eleição do cardeal Jorge Mario Bergoglio no Conclave de 2013. A bordo do papamóvel, o Santo Padre retribui o afeto dos fiéis expressando um dos seus traços mais fortes: a ternura.

Ao iniciar a Catequese, o Papa explicou aos fiéis que, devido a uma gripe, ainda não pode ler a catequese e convidou os presentes a escutarem com atenção o conteúdo proposto:

“Dou-vos as boas-vindas, ainda estou um pouco resfriado, por isso pedi ao monsenhor para ler a catequese. Estejamos atentos, acredito que nos fará muito bem!”

O texto, proferido pelo padre Pierluigi Giroli, introduz o novo percurso de reflexões afirmando que, após a visão geral dos vícios, é chegado o momento de voltar o olhar para o quadro simétrico que se opõe à experiência do mal: as virtudes.

Segundo Francisco, o termo de origem latina, virtus, destaca sobretudo que a pessoa virtuosa é forte, corajosa, capaz de disciplina e ascetismo; portanto, o exercício das virtudes é fruto de uma longa germinação, que exige esforço e até sofrimento. Já a palavra grega, aretè, indica algo que se destaca, algo que emerge, que desperta admiração.

A pessoa virtuosa é, portanto, aquela que não se distorce pela deformação, mas é fiel à sua vocação e realiza-se plenamente.”

“Que mundo feliz seria aquele em que a justiça, o respeito, a benevolência mútua, a abertura de espírito e a esperança fossem a normalidade partilhada e não uma anomalia rara! É por isso que o capítulo sobre o agir virtuoso, nestes nossos tempos dramáticos em que frequentemente lidamos com o pior do humano, deve ser redescoberto e praticado por todos.”

O Santo Padre então recorda que o Catecismo da Igreja Católica oferece-nos uma definição precisa e concisa: “A virtude é uma disposição habitual e firme para praticar o bem” (n. 1803).

Padre Giroli continua a leitura da reflexão com uma pergunta: Se a virtude é um dom tão belo, como é possível adquiri-la? A resposta a esta pergunta não é simples, é complexa:

O Espírito Santo atua em nós, batizados, trabalhando na nossa alma para conduzi-la a uma vida virtuosa. Quantos cristãos alcançaram a santidade através das lágrimas, percebendo que não conseguiam superar algumas das suas fraquezas! Mas eles experimentaram que Deus completou aquela boa obra que para eles era apenas um esboço. A graça sempre precede o nosso compromisso moral.”

“Queridos irmãos e irmãs, é assim que iniciamos o nosso caminho através das virtudes, neste universo sereno que se apresenta desafiador, mas decisivo para a nossa felicidade”, conclui a reflexão do Pontífice.

No fim, o Papa renovou mais uma vez o convite a rezar pelas populações atormentadas pelos conflitos e a prosseguirem “com compromisso” o itinerário quaresmal”.

Povos indígenas: Deus nos fez administradores, não senhores do planeta

Na manhã de quinta-feira, o Papa recebeu em audiência os participantes do workshop promovido pelas Pontifícias Academias de Ciências e Ciências Sociais, que tem como tema: “Conhecimento dos povos indígenas e as ciências”.

Segundo explicou o Papa, esta conferência tem como objetivo “reconhecer o grande valor da sabedoria dos povos nativos e favorecer o desenvolvimento humano integral e sustentável”, e também para “enviar uma mensagem aos governos e às organizações internacionais em favor da justiça e da fraternidade”.

“A Igreja está com vocês, aliada aos povos indígenas e aos seus conhecimentos, e aliada à ciência para fazer com que a fraternidade e a amizade social cresçam no mundo”, enfatiza Francisco no seu discurso.

Gostaria de destacar que este workshop representa uma oportunidade para crescermos em escuta recíproca: escutar os povos indígenas, para aprender com a sua sabedoria e os seus estilos de vida, e ao mesmo tempo escutar os cientistas, para beneficiar-se das suas investigações.”

“Os projetos de investigação científica e, consequentemente, investimentos, devem ser direcionados decisivamente para a promoção da fraternidade humana, justiça e paz, para que os recursos possam ser coordenados e alocados para responder aos desafios urgentes enfrentados pela Terra, o nosso lar comum, e pela família dos povos”, defendeu.

“Deus fez-nos guardiões e não senhores do planeta: somos todos chamados a uma conversão ecológica, comprometidos em salvar a nossa casa comum e viver uma solidariedade intergeracional para salvaguardar a vida das gerações futuras, em vez de dissipar recursos e aumentar a desigualdade, a exploração e a destruição.”

JM (com recursos jornalísticos do Vatican News)

Partilhe nas redes sociais!
14 de Março de 2024