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Nota Episcopal “O Santuário de Cristo Rei – Passado, Presente e Futuro”

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No dia em que o Santuário de Cristo Rei celebra os 65 anos sobre a sua inauguração, publicamos a Nota Episcopal do bispo de Setúbal, Cardeal D. Américo Aguiar, “O Santuário de Cristo Rei – Passado, Presente e Futuro”.

 

NOTA EPISCOPAL

 

O Santuário de Cristo Rei – Passado, Presente e Futuro

 

PASSADO. A idealização do projeto do Santuário de Cristo Rei é indissociável da espiritualidade do Coração de Jesus, que caracterizou a pessoa e a missão do Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), Patriarca de Lisboa. Em 1936, ao sobrevoar, de avião, a cidade do Rio de Janeiro, perante a contemplação da imponente imagem do Cristo Redentor do Corcovado, tem a inspiração de erigir, em Portugal – mais especificamente em frente a Lisboa – um Santuário dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Assim nasce, qual embrião, o Santuário de Cristo Rei. 

Nesse mesmo ano de 1936, a ideia é apresentada ao Congresso do Apostolado da Oração, em Lisboa, o qual se compromete a trabalhar com entusiasmo para a concretização do projeto da construção do Monumento, que viria a ser aprovado pelo Episcopado Português na Pastoral Coletiva da Quaresma de 1937. Para dar seguimento a esta resolução, foi constituído, por determinação do Episcopado Português, o Secretariado Nacional da Obra do Monumento a Cristo Rei. A este Secretariado juntou-se o arquiteto António Lino, o qual, em 1938, visitou o terreno, projetou, estimou custos e começou a desenhar os cartazes que logo iriam integrar a campanha de divulgação, e também o Eng. Francisco de Mello e Castro, que acompanhou e assessorou tecnicamente toda a obra.

II Guerra Mundial. Em 1939, no início da Guerra, a ideia da construção do Monumento ganha um novo sentido e vigor, até que, a 20 de abril de 1940, em Fátima, os Bispos Portugueses, no final do seu retiro anual, fazem o voto de erguer, em frente da capital, um monumento à realeza de Jesus Cristo: “Se Portugal fosse poupado da Guerra, erguer-se-ia sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, sinal visível de como Deus, através do Amor, deseja conquistar para Si toda a humanidade.”

Em 1941 é adquirido o terreno para a sua construção e a campanha de angariação de fundos intensifica-se ativamente por todo o país, ex-colónias e comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. De facto, a construção deve-se, na sua maior parte, à generosidade do povo português, através das suas contribuições.

Finalmente, a primeira pedra é lançada a 18 de dezembro de 1949, no 50.º aniversário da consagração do género humano ao Coração de Jesus, determinada pelo Papa Leão XIII, sendo canonicamente instituído como Santuário de Cristo Rei, por decreto Patriarcal, a 26 de maio de 1957.

A 17 de maio de 1959 (Dia de Pentecostes), perante a imagem de Nossa Senhora de Fátima, com a participação de todo o Episcopado Português, os Cardeais do Rio de Janeiro e de Lourenço Marques (Maputo), autoridades civis e cerca de 300 mil pessoas, inaugurou-se o Monumento. O Papa S. João XXIII fez-se presente por Radiomensagem. Na ocasião, o Cardeal Cerejeira fez uma consideração eloquente: “Este será sempre um sinal de Gratidão Nacional pelo dom da Paz.”

Nunca é demais lembrar também aqueles que, como Reitores, tanto no tempo do Patriarcado de Lisboa como já depois da sua entrega à Diocese de Setúbal, contribuíram para que esta Casa de Deus seja o que é hoje, a começar pelo Cónego António Gonçalves Pedro, sucedido não formalmente pelo jesuíta Pe. Norberto Martins, e ainda o último Reitor antes da passagem para Setúbal, o Cónego Manuel Pires de Campos. Grata memória fazemos ainda do trabalho dos reitores seguintes, os Padres Jaime da Silva e Sezinando Alberto, imediatos antecessores do atual Reitor, o Pe. Carlos Filipe Silva.

 

PRESENTE. O documento O Santuário, Memória, Presença e Profecia do Deus vivo, do Conselho Pontifício para a pastoral dos Migrantes e Itinerantes, afirma que o Santuário é o lugar da permanente atualização do Amor de Deus, que pôs a Sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1, 14).

Efetivamente, os santuários são vistos como lugares onde o Amor de Deus se atualiza constantemente e onde os fiéis podem aprofundar a sua fé. São espaços privilegiados, lugares de encontro com o Senhor da vida, onde Deus se faz presente e se comunica aos peregrinos por meio da Sua Palavra e dos Sacramentos. Os fiéis visitam os santuários como se fossem o Templo de Deus vivo, um local de aliança viva com Ele, onde a graça dos Sacramentos os liberta do pecado e os fortalece para testemunhar a fé com alegria e vigor renovados. Os Santuários oferecem oportunidades para a nova evangelização e promovem a religiosidade popular, levando-a a uma compreensão mais profunda e madura da fé.

Ora, o Santuário de Cristo Rei, à luz destas mesmas orientações e fiel à sua missão – conforme foi recentemente definido nos seus Estatutos – tem vindo a desenvolver mecanismos que lhe permitam corresponder cada vez mais e melhor à missão que lhe é própria:

(i) ser lugar de manifestação e anúncio do amor salvador de Deus;

(ii) ser centro de aprofundamento e difusão da espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus;

(iii) propor a escuta e o aprofundamento da Palavra de Deus, como caminho de conversão, de renovação batismal e de participação na vida da Igreja, concretamente através dos Sacramentos, sobretudo da Reconciliação e da Eucaristia, continuada na adoração eucarística;

(iv) ser local de acolhimento e de evangelização, criando as estruturas e iniciativas mais adequadas à sua realização;

(v) fomentar no coração de todos os que o visitam e com ele se identificam uma atitude de compromisso ativo em favor da justiça, da dignidade e do serviço evangélico, tendo em especial atenção os mais pobres e desprotegidos.

Com base nestes princípios estatutários – e na ocasião da preparação da comemoração dos 50 anos da Diocese de Setúbal e do Jubileu da Igreja Universal, em 2025 – celebramos os 65 anos da inauguração deste Santuário, com o lema do biénio pastoral 2024-2025: No Coração da Paz.

 

FUTURO. A pergunta do Papa S. Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi – “Com que métodos se deve proclamar o evangelho para que o seu poder seja eficaz?” – ainda permanece uma interpelação para a vida da Igreja universal e também para a pastoral dos nossos Santuários. O Papa Francisco, na Carta Apostólica em forma de “Motu Proprio”, Sanctuarium in Ecclesia, reforça também a ideia dos Santuários como centros propulsores da nova evangelização, para o que deve contribuir a sua valorização cultural e artística e a promoção da formação específica dos colaboradores.

Assim, para dar cumprimento à missão do Santuário de Cristo Rei, urge apostar nos melhores meios para um trabalho de evangelização diligente, pela caridade cristã e no cumprimento da missão a que somos chamados: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16,15).

Aqui nos chegam pessoas de todo o mundo, e a todos o Coração do Salvador acolhe de braços abertos, surpreende, converte e nos pede para sermos a Sua voz, as Suas mãos, a vida nova da Graça. É o que nos pede o Papa Francisco neste próximo Jubileu: “que os Santuários sejam lugares sagrados de acolhimento e espaços privilegiados para gerar esperança” (Spes non confundit, 24).

 

Almada, Santuário de Cristo Rei, 17 de maio de 2024

 

† Cardeal Américo, Bispo de Setúbal

 

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16 de Maio de 2024