São 18h de domingo, naquele que era o primeiro dia da Semana dos Seminários 2025, e a porta lateral da capela do Seminário de S. Paulo, em Almada, abre-se para acolher o povo que deseja estar em Adoração ao Santíssimo juntamente com os 12 seminaristas da nossa diocese. A hora da Adoração já acontecia, mas a abertura da porta é novidade neste Ano Pastoral. Quem entra ajoelha-se, reza e acompanha depois as orações de Vésperas.
A vida dos seminaristas não é apenas de oração e Adoração, como acontece em outras congregações. Mas esta é uma parte fundamental do processo de discernimento e da preparação para a vida sacerdotal que todos têm de receber.
Mas afinal, que vida é esta, a de um seminarista, e em que medida é diferente, ou não, da vida de tantos jovens que não estão no seminário? Bom, é isso que vamos tentar descobrir ao jantar, depois das Vésperas. É na copa que encontramos todos os seminaristas – O Francisco, o Alexandre, o Filipe, o André, o Miguel, o António, o Tomás, o Steve, o Luís, o Paulo, o Simbarashe e o Stivenie (os dois de Moçambique que a diocese acolheu) – e a respetiva equipa formadora. Aos domingos, o jantar é mais informal, e procura-se estimular o convívio e o diálogo que, durante a semana e em virtude das diferentes tarefas e atribuições de cada um, nem sempre é possível.
O Seminário é como uma casa de estudantes, pois, efetivamente, todos estão a estudar, apesar da experiência académica que traziam antes de entrarem no Seminário. E temos de tudo um pouco: um farmacêutico, um matemático e informático, um cozinheiro, um engenheiro químico, um geógrafo, entre muitas outras áreas de formação. Agora, todos estão a formar-se em Teologia, pilar da formação de um sacerdote.
E é aqui principalmente que esta casa se distingue de uma normal casa de estudantes. É que a vivência espiritual, os tempos de oração e partilha são uma constante. “A diferença é a vida de adoração, que é muito mais intensa do que a vida de adoração que estávamos habituados em casa”, confessa o Tomás, ao que quase todos concordam.
Mas nem todos estão na formação em Teologia. Os seminaristas que entraram este ano estão no chamado Ano Propedêutico, ou seja, “não estão a fazer formação em Teologia na Universidade Católica, como os outros, mas têm formação interna, aqui no Seminário, com a equipa formadora e outros formadores externos, como forma de os ajudar no discernimento deste primeiro ano”, explica-nos o Pe. José Cachaço, um dos membros da equipa formadora do Seminário, juntamente com o reitor, o Pe. Miguel Alves, e o Pe. Afonso Pereira.
Os dias de semana são então passados essencialmente a estudar, como qualquer outro jovem, sendo que depois todos dão catequese no Externato diocesano Frei Luís de Sousa, e alguns, os do Ano Propedêutico, estão também envolvidos noutros projetos de pastoral, como o Vale d’Acor ou o Centro Amadeu Pinto, no Pragal, onde dão explicações aos miúdos que o frequentam, ou ainda as Missionárias da Caridade.
Tudo isto são experiências que os ajudam a crescer e, ao mesmo tempo que permitem o discernimento, proporcionam formação e experiência prática que vão ser essenciais para que depois possam assumir as suas funções pastorais enquanto sacerdotes.
Para o Pe. Afonso Pereira, é importante os seminaristas serem confrontados com estas realidades inesperadas, que os retiram da “bolha” em que vivem no seminário, pois não estão minimamente preparados para elas, e isso é bom. E é por isso que também, aos fins-de-semana, alguns já têm paróquias de estágio, e outros, os mais novos, acompanham os padres formadores aos diferentes eventos da vida da diocese, ou respondem a algum pedido em particular de uma paróquia ou movimento diocesano.
Entrar no seminário diocesano não significa deixar a sua vida anterior para trás, pelo contrário. Por isso, os seminaristas regressam regularmente para visitarem a família ou as suas comunidades de origem. “Quando foi o fim de semana livre, acho que eu senti responsabilidade, ou seja, mesmo em relação aos amigos e às coisas, acho que, saindo daqui, acho que estamos um bocadinho mais responsáveis, ou seja, pelas nossas decisões que estamos a fazer, não é? Temos alguma liberdade, mas estamos um bocado condicionados. Eu acho que é tudo o que tu fazes, já não é o Tomás, não é o António ou o André, é o seminarista Tomás”, e isso tem peso, afirma o Tomás.
O Filipe entende a necessidade de viverem em “bolha”, da qual saem frequentemente. “Acho que vivemos numa bolha absolutamente necessária para nos preparar para o futuro. Para termos uma formação, que seja intelectual, que nos prepare para o futuro. Por outro lado, também acho que é importante, quando vamos ao fim de semana a diferentes paróquias, com contextos diferentes e pessoas diferentes, perceber que vivemos numa bolha, mas pelo menos conseguimos ver o que está fora da bolha”.
E é por isso que os formadores insistem em que passem o tempo possível em serviço pastoral ou em atividades da diocese. O que também lhes permite perceber outra coisa, que é o envolvimento que os diocesanos têm na sua vida de seminaristas e o quanto anseiam pela conclusão dessa etapa.
O Filipe conta que “a maior prova disso é quando nós vamos a uma paróquia, e as pessoas vêm ter connosco, e não é ir ter connosco porque é o seminário, mas vêm ter connosco porque estão a rezar por nós, porque querem-nos conhecer”. O Francisco, por seu lado, acha “bonito isto, de termos uma relação com as pessoas que rezam por nós”. “Acho que também nós rezamos muito com as pessoas que nos serão dadas um dia nas paróquias, isso foi sempre uma coisa que ouvimos desde o início dos padres”, explica.
A relação que se cria entre as pessoas e os seminaristas leva até que as pessoas lhes escrevam, para que possam rezar por elas, coisa que fazem com todo o gosto. “Não somos só 15 que estamos numa casa, isolados. Não estamos sozinhos porque somos 15 e temos o amparo, a oração e a ajuda de milhares de pessoas de fora. Quando vamos às paróquias, a experiência que eu tenho é que há muita gente que chega ao pé de nós, e fala-me, diz-me, que reza por mim, e não fazemos a mínima ideia de quem é, muitas vezes é a primeira vez que estou a ver aquela cara, e isso ampara-nos”, conta o Filipe.




