Igreja de Setúbal, és peregrina da esperança
Introdução
1. A todos os que lerem esta carta pastoral, membros da Diocese de Setúbal, homens e mulheres de boa vontade: a graça e a misericórdia de Deus nosso Pai estejam com todos. Permitam-me que me dirija a TODOS os que residem e trabalham neste território sadino.
Quando um sacerdote celebra a Eucaristia, termina a consagração com estas palavras: «Mistério da Fé». Nela expressa, primeiro, como a união de Deus com o seu Povo vai muito além dos limites visíveis na humanidade e permanece misteriosamente real. Segundo, destaca que essa união não se dá na minha ou na tua fé, mas na nossa fé, «na Fé da Igreja que nos gloriamos de professar». Por isso mesmo nos diz o Concílio Vaticano II1 que a Igreja, na qual professamos a fé, «é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano»2. Assim, permitam-me aproveitar essas palavras do Missal para me referir a esta realidade que é o Povo de Deus, onde cada um de nós permanece realmente unido a outros pelo mesmo baptismo, na profissão da mesma Fé no mesmo Senhor. Hoje, mais ainda, quero dizê-las ao falar da nossa amada Diocese de Setúbal, de todos nós que a habitamos e que temos caminhado juntos ao longo dos últimos 50 anos. Somos, realmente, um mistério admirável da Fé, revelado por Deus ao longo do tempo, ao qual muitos membros da igreja e da sociedade civil se foram associando de forma particular. Por isso importa fazer memória de alguns acontecimentos.
Antes de mais, permitam-me uma partilha que veio ter às minhas mãos de modo acidental: um manuscrito do nosso primeiro bispo, D. Manuel Martins3, que dizia o seguinte: «Setubalenses Homens Ilustres da Igreja – Beato André de Setúbal, Missionário e Mártir Capuchinho – Beatificado pelo Papa Leão XIII a 30 de abril de 1893; D. Pedro Fernandes Sardinha, foi o primeiro Bispo do Brasil – S. Salvador da Baía. A 25 de fevereiro de 1551 era criada a primeira diocese do Brasil e nomeado o seu primeiro bispo pelo Papa Júlio II; D. Gonçalo Pinheiro, foi Bispo de Safim, Tânger e Viseu. Nasceu em 1490 e faleceu em 1567; D. Frei Gaspar da Cruz foi Bispo eleito de Malaca e Apóstolo da China – Faleceu em 5 de fevereiro de 1580. Viveu no Convento Dominicano de Nossa Senhora da Piedade, em Azeitão; D. Frei Lourenço de Távora da Piedade , nasceu em Azeitão em 1564, foi Bispo do Funchal e de Elvas; D. José da Costa Torres nasceu em Setúbal em 1741, foi Bispo do Funchal; D. Frei Joaquim de Santana Carvalho nasceu em Setúbal em 1755, foi Bispo do Algarve; D. Frei Patrício Xavier Moura foi Bispo de Cabo Verde e do Funchal e delegado de Portugal no Concilio Vaticano I (1869-1870); Beato Manuel Rodrigues, 4º mártir do Brasil – Alcochete.» Eu, pelo meu punho, acrescentaria o nosso “Santo Padre Cruz” de Alcochete.
Uma memória agradecida
2. Quando, em 22 de dezembro de 1926, foi criado o distrito de Setúbal, terá nascido a expectativa da criação da Diocese do mesmo nome, dada a habitual coincidência do território canónico com o civil: das paróquias com as freguesias, das dioceses com os distritos. A origem da criação desta Diocese tem uma natureza teológica historicamente situada: o Concílio Vaticano II. O Decreto Christus Dominus4, sobre o múnus pastoral dos Bispos, verteu a doutrina da Constituição dogmática Lumen Gentium5 para aspetos práticos da estrutura pastoral da Diocese e do ministério episcopal: «Diocese é a porção do Povo de Deus, que se confia a um Bispo para que a apascente com a colaboração do presbitério (…) constitui uma Igreja particular, na qual está e opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica6».
3. Encerrado o Concílio, o Patriarca de Lisboa7 publica, em 18 de abril de 1966, um Decreto a criar a “Comissão preparatória da re-estruturação pastoral do Patriarcado de Lisboa”. Um novo Decreto do Cardeal-Patriarca, em 29 maio de 1966, estabelece a «divisão da diocese (patriarcado) em unidades pastorais (…) que permita (ao Patriarca) repartir com alguns colaboradores mais próximos as responsabilidades maiores do governo diocesano».
Numa primeira fase, são estabelecidas três regiões pastorais — Lisboa, Santarém e Setúbal. No dia 16 de julho de 1966 são nomeados os encarregados das três regiões pastorais. Lisboa: D. António Xavier Monteiro8 (vigário-geral); Santarém: D. António de Campos9 (vigário-geral); Setúbal: Cónego João Alves10 (vigário episcopal).
4. Com a Bula “Studentes Nos”11 do Papa, hoje Santo, Paulo VI12 é criada em 16 de julho de 1975 a Diocese de Setúbal. É, também, nomeado o seu primeiro Bispo, o Cónego Manuel da Silva Martins, então Vigário-Geral da diocese do Porto.
Na tarde do dia 26 de outubro, na igreja de Santa Maria da Graça13, elevada a Catedral, teve lugar a sua ordenação episcopal e a tomada de posse. As suas primeiras palavras projetaram-se pelos quase 23 anos do seu ministério episcopal em Setúbal: «Nasci Bispo em Setúbal; agora sou de Setúbal».
A 18 de março de 1980 o Papa João Paulo II14 confirmou que a diocese sadina tivesse como Padroeira Nossa Senhora com o título de Santa Maria da Graça.
A nova diocese compunha-se de 36 paróquias, tendo recebido mais 4 paróquias da arquidiocese de Évora: 3 que se encontravam já no concelho do Montijo e a da Comporta. A partir destas 40 paróquias criaram-se outras, dado o aumento da população, sendo atualmente 57, com uma população a caminho dos 900.000 habitantes.
5. Ao ser criada, a diocese tinha 27 sacerdotes provenientes do Patriarcado de Lisboa e 3 provenientes das paróquias da arquidiocese de Évora que foram anexadas à nova diocese de Setúbal. Contávamos com 10 sacerdotes de diversos Institutos religiosos, num total de 37. Hoje contamos com o exercício do ministério ordenado de cerca de 50 sacerdotes incardinados na diocese de Setúbal, 9 incardinados noutras dioceses e 18 de Institutos religiosos. Os Organismos eclesiais com especial intervenção de cristãos leigos, que já existiam no Patriarcado, foram criando, durante o período da Região Pastoral (66-75), estruturas “regionais” que, a partir de 1975, passaram a ser “diocesanas”.
6. O ministério episcopal de D. Manuel Martins (1975-1998) marca de uma forma única a vida da Igreja em Portugal, pelo reconhecimento unânime da sua determinação em denunciar a pobreza e as injustiças sociais que, ao tempo, eram uma duríssima realidade nesta Diocese que lhe tinha sido confiada e que cuidou e amou até ao fim.
Também o zelo pela questão vocacional demonstrado desde o princípio por D. Manuel Martins levou à criação do Seminário de Santa Maria, Mãe da Igreja, em 1992, primeiro partilhando as instalações da Casa do Viso com a paróquia da Anunciada, que chegou a ocupar integralmente, transferindo-se depois para a primeira Casa Episcopal (atual Cúria Diocesana) e para a chamada casa da D. Joana. No início, os seminaristas terminavam os estudos no Seminário dos Olivais, até que em setembro de 1997 se reuniram as condições para uma formação integral em Setúbal. A partir de setembro de 1999, a comunidade muda-se para o actual edifício do Seminário de Almada. Desde o seu começo, formou para a Diocese de Setúbal mais de 30 padres.
7. O ministério episcopal de D. Gilberto dos Reis15 (1998-2015) ficou especialmente marcado, em primeiro lugar, pela integração do Santuário de Cristo Rei e do Seminário de Almada na Diocese de Setúbal e pelo Jubileu do ano 2000, durante o qual a Diocese celebrou o seu jubileu de prata. Além disso, levou a bom termo as obras de reestruturação do edifício da Cúria Diocesana.
8. O ministério episcopal de D. José Ornelas16 (2015-2022) caraterizou-se pelo estímulo dado à dimensão sinodal da Igreja, concretizada na preparação do sínodo diocesano por ocasião do jubileu de ouro da Diocese de Setúbal e em comunhão com o sínodo e o jubileu da Igreja universal (2024-2025).
9. Muito devemos aos que vieram antes de nós e que nos transmitiram a Fé da Igreja, através do seu testemunho orante e do seu trabalho pela edificação do Povo de Deus. Por eles fomos introduzidos nesta nossa Igreja de Setúbal, na qual nos alimentamos e recebemos a inspiração e graça para continuar adiante.
A oração é a respiração da Fé
10. Ao sermos introduzidos pelo baptismo nesta realidade que é a Igreja, passamos a fazer parte deste povo assíduo «ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações» (At 2, 42). O diálogo humano que se estabelece entre nós, quando participamos na mesma comunidade, eleva-se e transcende as alegrias e tristezas dos nossos corações. Quando rezamos juntos, percebemos o que o Pai nos quer revelar, podemos ler a realidade dos nossos dias à luz de Cristo e, impulsionados pelo Espírito Santo, continuamos a caminhar juntos. Quando rezamos juntos, enquanto Diocese de Setúbal, testemunhamos a Fé da Igreja recebida dos nossos antepassados, transmitimos a mesma Fé da Igreja, e vivemos uns com os outros animados pela Fé da Igreja.
Da sua entrega e fidelidade recebemos não apenas a fundação da nossa querida diocese, mas sobretudo a herança de uma Tradição viva da Igreja que através deles chegou até nós. Recebemos e somos integrados neste mistério admirável da nossa Fé que os nossos antecessores e todos aqueles que com eles colaboraram nos transmitiram. Como bispo de Setúbal, é minha vontade que continuemos a celebrar juntos para que, um dia, os que vierem depois de nós se possam alegrar com o mesmo.
Jubileu diocesano de 16 de julho de 2024 a 31 de dezembro de 2025
11. Como já tinha afirmado na minha primeira carta pastoral, a coincidência do Jubileu 2025 da Igreja Universal17 e o 50º Aniversário da Diocese de Setúbal devem ser celebrados em conjunto. Embora a abertura solene do Ano Santo 202518 nas igrejas particulares seja a 29 de dezembro de 2024 e encerre a 28 de dezembro de 202518, o Santo Padre concedeu à nossa Diocese um Ano Jubilar Diocesano com indulgência plenária19 que começa hoje, dia 16 de julho de 2024, e termina a 31 de dezembro de 2025. Na Bula de proclamação do Jubileu Ordinário do ano 2025, o Papa Francisco20 afirmou que, «no Ano Jubilar, seremos chamados a ser sinais palpáveis de esperança para muitos irmãos e irmãs que vivem em condições de dificuldade»21. Durante este tempo, além de nos integrarmos nas celebrações gerais, proponho também algumas actividades que sejam sinais de esperança para toda a diocese sadina.
A peregrinação às igrejas jubilares
12. A primeira das nossas actividades enquanto Diocese de Setúbal será a abertura do Jubileu Diocesano nas igrejas jubilares. Abrir e viver o Jubileu Diocesano para, mediante a Indulgência Plenária, enquanto peregrinos e com um verdadeiro desejo de conversão, receber as graças divinas e destruir o pecado que nos impede de amar a Deus e aos irmãos. Como afirmou o Papa Bento XVI22, atravessar a porta da Fé e entrar na Igreja «implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira»23. Além disso, dizia o Papa Francisco que «pôr-se a caminho é típico de quem anda à procura do sentido da vida. A peregrinação a pé favorece muito a redescoberta do valor do silêncio, do esforço, da essencialidade»24.
13. Desejo que todos possamos receber as graças deste Jubileu Diocesano peregrinando a quatro locais: ao Real Santuário de Nossa Senhora da Atalaia25, ao Santuário de Cristo Rei26, ao Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel27, e de forma especial à nossa Igreja Catedral de Santa Maria da Graça. Cada um com os meios que dispõe, poderá peregrinar a estas quatro igrejas, ao longo do ano, sendo portadores de um “passaporte de peregrino” com uma breve explicação dos locais e com as graças que o Papa Francisco concedeu à igreja de Setúbal com a indulgência Plenária28. Porém, «os idosos, os enfermos e todos aqueles que não possam sair de casa por motivo grave, poderão igualmente obter a indulgência plenária, concedida pela detestação de todo o pecado e pela intenção de realizar, o mais rapidamente possível, as três29 condições habituais»30.
14. É também meu desejo que neste período de Ano Jubilar, Diocesano e Universal, TODOS os crismandos31 (jovens e adultos) da nossa amada diocese recebam o Sacramento da Confirmação na minha Igreja Catedral. As comunidades paroquiais, orientadas pela Comissão Diocesana dos 50 anos da Diocese de Setúbal e do Ano Santo 2025, irão coordenar esta peregrinação e celebração. As nossas paróquias, movimentos e todos os grupos unir-se-ão ao calendário diocesano para podermos celebrar juntos algumas dimensões particulares da nossa península. Já estão fixadas e serão brevemente divulgadas.
A revisão do mapa diocesano
15. Celebrar é um ponto de chegada e uma oportunidade para dar graças, mas também se impõe olhar e contemplar o passado, que explica o que somos hoje e nos dá ensinamentos para o futuro que queremos construir com a ajuda de Deus.
Entendi por isso ser fundamental estudar o mapa das nossas paróquias, que são a marca no presente das escolhas do passado, mas que podem já não se adequar à realidade desta diocese que somos, em que mais de um quarto dos nossos praticantes veio do estrangeiro e 80 por cento do total vieram para aqui habitar nos últimos 50 anos. Determinei por isso constituir uma Comissão técnica para nos ajudar com as suas propostas e análises a traçar eventuais novos rumos: os desafios estão aí e a prevista construção de grandes infraestruturas promete novas alterações, enriquecendo o tecido social e territorial entre o Tejo e o Sado, pelo que urge sermos proactivos neste futuro que se avizinha.
Olhar para o mapa implica olhar também para a distribuição do clero, dos recursos humanos e materiais, procurar tornar mais eficaz, carinhosa e acolhedora a presença da Igreja, dar-lhe a possibilidade de chegar onde ainda não chegou e de ter em conta os sonhos e as necessidades de tanta gente que chega de outros contextos e geografias. Dito de outro modo, colocar a Igreja de Setúbal em chave missionária, a ir ao encontro do Ser Humano concreto e real, rejeitando o que já não serve e abraçando novos meios e desafios para dar a conhecer Jesus Vivo.
Os peregrinos da esperança continuam a escrever a história
16. A história da qual fizemos memória anteriormente é essencial para percebermos como chegámos aqui e darmos graças a Deus por isso. Mas a celebração deste Jubileu Diocesano pede-nos a todos muito mais do que uma experiência de saudade. O Papa Francisco afirmava que «olhar para o futuro com esperança equivale a ter também uma visão da vida carregada de entusiasmo para transmitir». Enquanto peregrinos da esperança, olhamos para o futuro, para que um renovado entusiasmo chegue a todos e possa continuar a fortalecer a nossa caminhada diocesana. Nunca esquecendo as palavras do nosso querido poeta da Arrábida «Pelo sonho é que vamos».
17. Em jeito de oração, dirijo estas últimas palavras ao próprio Jesus: Senhor, este ano é de festa. Peço-Te para todos nós a graça da fidelidade à alegria que Cristo Vivo traz às nossas vidas, e assim podermos ser testemunhas da esperança para todos. Sempre acompanhados pela Vossa Mãe, seguindo o exemplo do Seu «sim», desejo que a nossa Diocese de Setúbal, unida à Igreja Universal e ao Santo Padre, seja garantia da unidade e da fidelidade à fé que recebemos e queremos transmitir. E que possa continuar a peregrinar «esperando a Vossa vinda gloriosa».
ORAÇÃO DO JUBILEU DIOCESANO
Pai Santo
na celebração dos cinquenta anos da nossa Diocese de Setúbal,
Agradecemos a beleza natural que nos envolve, a vida das nossas comunidades
e todos os corações que constituem a nossa Diocese;
Agradecemos por todos os que nos precederam na Fé e são para nós construtores na Fé
e inspiradores na Esperança;
Agradecemos por aqueles que,
de coração moldado pelo Vosso Amor, são testemunho junto dos que mais precisam;
Pai Santo
que neste Jubileu, tempo de conversão, saibamos pedir perdão pelas vezes em que nos chamastes e não Vos ouvimos, em que nos tocastes e não nos abrimos;
Pai Santo
Vos pedimos que guies o nosso Bispo, os nossos Sacerdotes, consagrados e leigos,
e, também todos os não crentes,
os que se afastaram de vós e que vivem na nossa diocese;
Pai Santo
protegei as nossas famílias, as nossas crianças, os nossos jovens e idosos, os nossos doentes
e todos os que mais precisam;
Pai Santo
Que possamos ser uma comunidade santa, Igreja Viva e unida, para melhor Vos servir e levar o Vosso Amor a todos, todos, todos.
Isto vos pedimos por intercessão de Santa Maria da Graça, nossa Padroeira.
Ámen
Abraço fraterno do vosso bispo,
Setúbal, 16 de julho de 2024, Memória da Virgem Santa Maria do Monte Carmelo, no 49º aniversário da Diocese de Setúbal
Cardeal Américo Aguiar32
Bispo de Setúbal
Mensagem de D. Gilberto Reis, II Bispo de Setúbal, evocativa dos 50 anos da criação da Diocese de Setúbal
Canta e caminha, querida Igreja de Setúbal
1 Canta e caminha, ó bela Igreja, que vais celebrar os primeiros 50 anos como Diocese, conduzida visivelmente pelo teu jovem bispo, Cardeal D. Américo Aguiar.
Bela Igreja, animada pelo amor de Deus Pai que te escolheu e te cuida pelas mãos de Jesus, Seu amado Filho feito carne e pelas mãos do Espírito Santo.
Bela no amor de Jesus a edificar-te como povo santo na Catedral, a abraçar-te no Cristo Rei, a seduzir-te no Senhor do Bonfim e no Senhor das Chagas, a confiar-te à Senhora do Cabo, da Atalaia, da Tróia, do Rosário, da Boa Viagem e de tantos nomes.
Bela na história e na esperança do Seminário de Almada; na Arrábida onde a Serra, o Convento e Frei Agostinho apontam Deus; bela no grito de Bocage: crê na eternidade.
Bela na misericórdia de que são ícones maiores a Casa do Gaiato, o Vale de Acor, a Carmita Fortuna, o P. Manuel Marques amigo especial dos doentes; os grupos de socorro aos pobres nas crises; as envolventes peregrinações ao santuário de Fátima.
Bela no abraço do Rio Azul e do Tejo; no estuário do Sado onde os golfinhos brincam e encantam; no Castelo de Palmela, em Sesimbra, em Tróia e em mil recantos.
2 Eu te canto, querida Igreja, por tudo isto e sobretudo pela beleza da tua gente:
Gente boa, vinda de toda a parte, partilhando várias culturas, dialogante, jovem e a aumentar, trabalhadora e capaz de permitir empresas de ponta, sempre a sonhar um mundo melhor, já que Pelo sonho é que vamos, como disse o grande Sebastião da Gama.
3 Eu te canto, bom povo de Setúbal e, ao contemplar-te, rezo: bendito sejas, Senhor!
Bendito pelos teus filhos que no domingo Te acolhem na Palavra e no Pão para se tornarem o Teu Corpo, assimilarem as bem-aventuranças e serem tuas testemunhas.
Bendito pelo teu clero bem disponível para te emprestar a vida, a inteligência, o coração, os sentidos para que Tu, Senhor, cuides mais e mais o bom povo de Setúbal.
Bendito pelas consagradas e consagrados e pelo seu testemunho lindo de alegria, de esperança, de atenção – proximidade – serviço aos pobres de todas as pobrezas.
Bendito pelos fiéis leigos – sal e luz duma ‘cidade’ melhor – e que, além disso, Te servem na liturgia, na caridade, na catequese e em tantos serviços e obras.
Bendito pelas crianças e pelos jovens que Te seguem e que Te testemunham na alegria da fé, anunciando uma Igreja mais apaixonada por Ti e mais companheira e lava-pés de todos, com todos e para todos, como pede o querido Papa Francisco…
4 Bendito sejas, Senhor, pelos batizados que, sem terem ainda descoberto a graça do batismo, buscam uma sociedade mais fraterna e justa nas autarquias, nas escolas, nos serviços de saúde e de segurança, nas associações políticas, desportivas, recreativas e de apoio fraterno, nas empresas e sindicatos, na comunicação social, no mundo artístico…
Bendito pelos Teus filhos de outras igrejas cristãs ou de outros cultos que, com a sua riqueza peculiar, contribuem para acolher a Tua luz e para a projetar na sociedade;
Bendito pelos Teus filhos que, sem Te terem ainda encontrado, Te servem cuidando o bem comum e a paz com entusiasmo, iluminados pela consciência reta e justa.
5 Senhor, bendito sejas por me teres confiado esta jovem diocese; perdoa por lhe ter dado tão pouco; e ajuda-me a rezar melhor para que Setúbal cresça mais e mais:
na arte de ajoelhar junto de quem sofre para lhe lavar os pés e o integrar na comunidade;
na arte de ser comunhão e fonte de comunhão na pluralidade de dons e de vocações;
na arte de contemplar, acolher, revelar e difundir o Teu Amor di- vino na vida diária;
na arte de cuidar e de ser esperança para todos e com todos e em toda a parte.
Porto, 13 de Maio de 2024,
† Gilberto Reis
Bispo emérito de Setúbal
Mensagem de D. José Ornelas, III Bispo de Setúbal, evocativa dos 50 anos da criação da Diocese de Setúbal
50 anos da Diocese de Setúbal
Dou graças a Deus que me chamou, através da nomeação do Papa Francisco, a servir, como terceiro Bispo, o seu Povo, nesta parte da sua vinha – a Diocese de Setúbal – que conservarei sempre no coração, com estima e gratidão.
Aprendi a ser Bispo nesta Diocese, nascida num tempo de grande renovação da Igreja, pelo sopro do Espírito, através do Concílio Vaticano II e de profunda transformação do país, a partir da revolução de Abril. Nunca deixei de admirar e agradecer a vida desta Igreja que encontrei já com 40 anos de idade. Dom Manuel Martins, o primeiro Bispo, soube discernir o tempo do Espírito que soprava na Igreja e o drama dos problemas sociais que assolavam a península de Setúbal e o nosso país, deixando uma marca fundamental na população de Setúbal. Estava rodeado de clero, religiosos, religiosas, leigos e leigas de diversa origem e diferentes sensibilidades, mas que souberam encontrar caminhos de renovação e dar um notável testemunho de nova proximidade aos mais necessitados, animados pela fé no Evangelho. Este trabalho foi continuado pelo Dom Gilberto Gonçalves Canavarro dos Reis, com sabedoria simples, competente e resiliente, para estruturar a Diocese e as comunidades, organizar a missão e ajudar a fazer crescer a semente e levedar o fermento.
Sempre senti a Igreja de Setúbal como uma Igreja em crescimento, marcada pelas suas origens, consciente da diversidade étnica e cultural que a carateriza, aberta para integrar quem chega e ajudar quem precisa. Alegra-me constatar que este espírito continua bem vivo nas comunidades e que os problemas – o último dos quais, a pandemia – foram sendo ultrapassados com amor, labor e espe- rança.
Trago no coração, de modo especial, os jovens de Setúbal que, em maior ou menor número, inseridos nos escuteiros ou em outros grupos e movimentos, senti bem presentes e vibrantes perante os desafios, como a pandemia e a JMJ 2023. Que o Espírito continue a animar-vos, como força e esperança para a Igreja, agora com a atenta e criativa direção do novo Bispo, Dom Américo Manuel Alves Aguiar.
Falar de uma Igreja de cinquenta anos é falar de uma Igreja menina: menina que é amada e cuidada pelo Pai do Céu, que se assume como família de irmãos e irmãs; que aceita que é preciso aprender e que tem uma grande vontade de crescer através da força missionária do Espírito do Senhor Jesus.
Que Deus olhe sempre para vós e vos faça sentir o Seu carinho de Pai, vos reúna e conduza, como Bom Pastor, sinodalmente unidos, e vos dê o seu Espírito que vos envie em missão, para levar o Evangelho a quem não o conhece.
Que Maria, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, seja vosso modelo e inspiração, para partirdes, apressadamente como ela, guiados pelo Espírito, para acolher e levar Jesus ao seu Povo e ao mundo.
† José Ornelas Carvalho
Bispo de Leiria-Fátima
1 Concílio Vaticano II – reunião dos bispos de toda a Igreja, convocado a 25 de dezembro de 1961 pelo papa João XXIII e continuado por Paulo VI, terminando a 8 de Dezembro de 1965, com o objectivo de reflectir sobre o lugar e acção da Igreja no mundo actual.
2 Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, 1.
3 Manuel da Silva Martins (1927-2017) – nascido em Leça do Balio, frequentou o Se- minário Maior do Porto e foi ordenado sacerdote em 1951. Em 16 de Julho de 1975 é nomeado para primeiro bispo da nova Diocese de Setúbal, tendo sido sagrado bispo em 26 de outubro do mesmo ano. Morreu a 24 de setembro de 2017.
4 Decreto Christus Dominus – documento publicado pelo Concílio Vaticano II em 1965, reflete sobre o papel dos bispos e a algumas especificidades relativas às dioceses.
5 Constituição Dogmática Lumen Gentium – documento publicado pelo Concílio Vaticano II em 1964, acerca da natureza, missão da Igreja e a sua constituição hierárquica.
6 Concílio Vaticano II, Christus Dominus, 11
7 D. Manuel Gonçalves Cerejeira nasceu em 1888, em Lousado, Braga e faleceu em Lisboa no ano de 1977. Foi nomeado Bispo Auxiliar de Lisboa em 1928, com o título pessoal de Arcebispo de Mitilene. Nomeado Patriarca de Lisboa em 1929, bem como Cardeal. Resignou em 1971 com 82 anos.
8 D. António de Castro Xavier Monteiro nasceu em Guimarães em 1919 e faleceu em Lamego no ano 2000. À data era Bispo Auxiliar do Patriarcado com o título pessoal de Arcebispo de Mitilene. Tinha sido Bispo Auxiliar de Vila Real entre 1964 e 1966. Foi posteriormente nomeado Bispo de Lamego em1972, tendo resignado em 1995 por limite de idade
9 D. António de Campos nasceu em Alcobaça em 1904 e faleceu em Lisboa no ano de 1969, apenas com 65 anos. Foi nomeado Bispo Auxiliar de Lisboa em 1954, com o título de Febiana.
10 D. João Alves nasceu em 1925 em Torres Novas e faleceu em Coimbra no ano de 2013. Foi nomeado Bispo Auxiliar de Coimbra em 1975, sendo titular de Scala. Em 1976 foi nomeado Bispo de Coimbra, resignando em 2001 por limite de idade.
11 Bula “Studentes Nos” – documento pelo qual o papa Paulo VI, em 1975, determina a criação e constituição da nova Diocese de Setúbal.
12 Paulo VI (1897-1978) – nascido Giovanni Montini, ordenado presbítero em 1920 e eleito 262º Papa em 1963. Responsável pela criação da Diocese de Setúbal. Foi declarado santo pelo Papa Francisco em 2018.
13 Igreja de Santa Maria da Graça – Catedral de Setúbal – fundada no séc. XIII, o atual edifício é uma reconstrução do alto renascimento com uma imponente facha- da maneirista. No interior, em estilo barroco, colunas com frescos, talhas e Azulejos dos séculos XVII e XVIII. Está classificada como imóvel de interesse público desde 1955
14 João Paulo II (1920-2005) – de origem polaca, Karol Wojtyla foi ordenado presbítero em 1946 e eleito Papa em 1978. Um dos Papas mais influentes do séc. XX, fundamental para a queda do chamado Bloco de Leste. Guiou os destinos da Igreja até aos primeiros anos do novo milénio. No dia 27 de abril de 2014, o Papa Francisco, numa celebração conjunta, canonizou S. João Paulo II e S. João XXIII, na presença do Papa emérito Bento XVI.
15 Gilberto Canavarro dos Reis (1940-…) – natural de Vila Pouca de Aguiar, foi ordenado presbítero em 1963 na Diocese de Vila Real, e nomeado Bispo Auxiliar do Porto em 1989, sendo titular de Elephantaria in Mauretania. A 23 de Abril de 1998 foi nomeado II Bispo de Setúbal
16 José Ornelas Carvalho (1954-…) – nasceu em Porto da Cruz, Ilha da Madeira. Pertence à Congregação dos Dehonianos. Foi nomeado III Bispo de Setúbal a 24 de Agosto de 2015 e sagrado Bispo dois meses depois. É atualmente presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e Bispo da Diocese de Leiria-Fátima desde 28 de Janeiro de 2022.
17 Jubileu – é uma comemoração religiosa da igreja católica, celebrada dentro de um ano santo. A celebração cristã fundamenta-se na bíblia, tanto no antigo testamento, como no novo testamento.
O primeiro jubileu cristão foi instituído pelo Papa Bonifácio VIII, em 22 de fevereiro de 1300, com a bula Antiquorum fide relatio. Esta decisão deu à peregrinação a Roma, aos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, uma nova dimensão e um novo significado. O contínuo fluxo de peregrinos levou Bonifácio VIII a convocar um Jubileu a cada cem anos e a promulgar a indulgência plenária.
Em 1350, uma delegação foi de Roma a Avinhão, onde Clemente VI se encontrava exilado, a fim de pedir um Jubileu extraordinário em 1350, com uma periodicida- de mais breve, isto é, de 50 anos. O pedido fundamentava-se num antigo costume hebraico, do qual se fala no Levítico. Houve uma interrupção da regularidade dos Jubileu durante o período do cisma. Em 1450 é proclamado novo Jubileu, passando a periodicidade dos mesmo a ser de 25 em 25 anos, mantendo-se até hoje esta periodicidade.
18 f. Francisco, Spes non confundit, 6
19 Carta da Penitênciaria Apostólica ao Cardeal Américo Aguiar, 27 de maio de 2024, (Prot. nº 01854/2024-73/I)
20 Francisco (1936-…) – de origem argentina, o Cardeal Jorge Bergoglio foi ordenado presbítero em 1969 e eleito Papa em 2013. Foi o primeiro Papa pertencente à Companhia de Jesus (Jesuítas). Tem-se destacado pela preocupação para com os mais pobres e marginalizados, a crítica às injustiças sociais, as questões provocadas pela degradação do meio ambiente e o combate aos abusos sexuais na Igreja.
21 Francisco, Spes non confundit, 10
22 Bento XVI (1927-2022) – Joseph Ratzinger, ordenado presbítero em 1951 é eleito Papa em 2015. Destacou-se pela grande capacidade intelectual teológica que, aplicou na vida académica e nos escritos publicados durante o pontificado e pelo combate às ideologias políticas em defesa da fé e da doutrina. Foi o primeiro Papa a renunciar ao cargo desde 1415, tendo-o feito por motivos de saúde em 2013, mantendo-se retirado como Papa emérito até à sua morte.
23 Bento XVI, Porta Fidei, 1
24 Francisco, Spes non confundit, 5
25 Real Santuário de Nossa Senhora da Atalaia – situado na Atalaia (Montijo), santuário mariano cuja história remonta ao séc. XV, adornado durante o reinado de D. João V. Ainda hoje é lugar de peregrinação.
26 Santuário do Cristo Rei – santuário e monumento situado em Almada, dedicado ao Sagrado Coração de Jesus como forma de agradecimento dos bispos portugueses a Deus por ter livrado Portugal da II Guerra Mundial. A construção iniciou-se em 1949 e a inauguração teve lugar a 17 de maio de 1959.
27 Real Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel – em meados do séc. XIV foi construída uma ermida para guardar uma imagem da Virgem em cima do rochedo onde foi encontrada. Lá afluíram desde a Idade Média vários e numerosos grupos de círios (grupos de peregrinos organizados em romarias coletivas). A atual Igreja foi sagrada em 1707. Foi ao designado Círio Saloio, iniciado em 1430, que coube a construção de grande parte das hospedarias (1715). O conjunto está classificado desde 1950.
28 Penitenciaria Apostólica, Carta ao Cardeal Américo Aguiar, 27 de maio de 2024 (Prot. nº 01854/2024-73/I): «A Penitenciaria Apostólica, em virtude das faculdades que lhe foram atribuídas pelo Santíssimo Padre Francisco, concede um Jubileu diocesano com indulgência plenária, nas seguintes condições devidamente cumpridas: sagrada confissão plenária, comunhão eucarística e oração em favor do Sumo Pontífice».
29 Três condições habituais para lucrar indulgência – 1. Confissão dos pecados ao sacerdote; 2. Comunhão eucarística; 3. Oração do Pai-Nosso, Avé-Maria e Glória pelas intenções do Santo Padre. Durante o Ano Jubilar, acrescenta-se a peregrinação a uma das quatro igrejas jubilares.
30 Penitenciaria Apostólica, Carta ao Cardeal Américo Aguiar, 27 de maio de 2024 (Prot. nº 01854/2024-73/I).
31 Crismandos – todos aqueles que se preparam para receber os sete dons do Espírito Santo através do Sacramento da Confirmação (Crisma).
32 Américo Manuel Alves Aguiar (1973-…) – nasceu em Leça do Balio, Matosinhos. Foi ordenado presbítero da Diocese do Porto a 8 de julho de 2001. Teve a sagração episcopal a 31 de março de 2019 como bispo-auxiliar de Lisboa. Foi o Coordenador Geral da JMJ LISBOA 2023. A 30 de Setembro de 2023 foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco. Tendo sido nomeado IV Bispo de Setúbal a 21 de setembro de 2023, tomou posse a 29 de Outubro de 2023.



