Ir em Missão: O Caminho que nos Liberta

Set 6, 2024

Quando embarquei, rumo à Guiné-Bissau, não tinha noção do quanto aquelas semanas iriam ser libertadoras.

Há muito tempo que sentia em mim esta vontade de ir em missão, mas não me fazia sentido abraçar um propósito que se cumprisse enquanto estava lá e que se esgotasse com a minha partida.

Foi então que conheci o projeto dos Guinanos. Despertou o meu interesse porque, ao invés de substituir, os voluntários atuam como colaboradores e apoiantes dos sistemas educativos locais durante as semanas de missão. Ao longo do ano, há uma equipa que, a partir de Portugal, está em constante contacto com as escolas, Ministério da Educação e outras instituições, para preparar o tempo de missão e garantir a continuidade dos projetos.

Assim que pisei o solo guineense, o coração apertou e a convicção era só uma: ser testemunha da presença da luz de Cristo para todos os que acabaria por encontrar pelo caminho.

Os primeiros dias foram um misto de emoção, o choque de realidade é assoberbante quando nos deparamos com um mundo tão distinto do nosso. Mas, rapidamente, o coração se enche com a calorosa receção daquele povo – a humildade, simplicidade, descomplicação, a felicidade no rosto de quem não tem muito, mas que partilha ao abrir os braços para nos acolher – é desarmante! Dá que pensar se não é aquele povo mais luz para nós do que nós sal para a sua Terra.

A nossa intervenção passava por formações a professores, apoio às direções das escolas em desafios concretos, como organização financeira ou revisões curriculares, e “Formações à Comunidade”, sobre temas tão diversos como poupanças, drogas e vícios, saúde feminina, papel do pai na gravidez, entre outros.

No dia em que falámos sobre saúde feminina, apercebi-me que, para aquelas meninas e senhoras, várias delas já mães, era a primeira vez que compreendiam e esclareciam dúvidas sobre o ciclo menstrual, que conheciam o sistema reprodutor que têm dentro do seu próprio
corpo, que o viam desenhado.

Com uma das escolas, por exemplo, trabalhámos na aprovação do projeto de construção de um edifício para salas de aula, que há meses estava bloqueado e que, em poucas semanas, conseguimos concretizar.

Depois da agitação semanal, e ainda que os finais de dia fossem sempre de partilha e reflexão, os domingos eram tipicamente marcados pela participação na eucaristia, que nos enchia do Espírito Santo, para abraçar mais uma semana, e nos aproximava da comunidade. Recordo a alegria de todos os que ali se reuniam, o empenho dos Escuteiros e Valentes na preparação da celebração, e o entusiasmo do coro em proporcionar oração através de cânticos que transpareciam uma imensidão de alegria.

Há, contudo, momentos que nos marcam particularmente.

Certo dia, o Danielito, professor de uma das escolas, vem ter comigo e diz – “tu não acreditas que esta é uma terra de Deus? Aqui as crianças comem terra do chão e nada lhes acontece. Se não é proteção divina é o quê?” – e que emocionante é ver a devoção daquelas pessoas, mesmo aparentando terem poucos motivos para ainda manterem a fé.

Outro dia, perguntei ao Kennedy, nosso fiel companheiro que nos dirigia para todo o lado, sobre o que ambicionava para a sua filha Cristina, de 3 anos. Ele respondeu, prontamente, que queria que ela estudasse até o 12º ano, para se formar e ser mais capaz de enfrentar os desafios da vida, antes de casar e construir uma família. Fiquei surpresa, pois esta não é a realidade da maioria das famílias guineenses. No entanto, por trabalhar numa escola, o Kennedy compreende as oportunidades que a educação oferece – esta conversa reforçou, uma vez mais, a relevância da capacitação do sistema educativo.

Cada dia recordo os seus rostos, o ar atento com que absorviam os momentos de formação que tínhamos com eles, muito abertos a aprender e com muita vontade de se tornarem melhores professores por terem consciência do impacto que têm em tantas crianças.

Termino citando o Papa Francisco que nos diz que “ser um voluntário solidário é uma escolha que nos torna livres; torna-nos abertos às necessidades dos outros, às exigências da justiça, à defesa dos pobres, ao cuidado da criação” e nos recorda que “a educação é sobretudo uma questão de amor e responsabilidade que se transmite”. Acrescento eu, reiterando a ideia inicial: ir em missão liberta-nos e constrói liberdade para aqueles com quem nos cruzamos.

 

Artigo e fotografias: Margarida Matos

 

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