Quanto mais nos adentramos no tempo da Quaresma, mais nos aproximamos também da Páscoa. Esta frase, ainda que um pouco óbvia, ajuda-me, pelo menos a mim, a entender qual o sentido da Quaresma.
Confesso (a Deus Pai, todo… brincadeira) que durante grande parte da minha vida, não percebia muito bem o sentido da Páscoa e muito menos da Quaresma. Porque é que é tão importante? Explicaram-me (e bem) que Jesus tinha ressuscitado dos mortos, mas eu continuava sem compreender. Então vamos lá ver, Jesus ressuscitou, muito bem, mas o Goku também ressuscitou no Dragon Ball. Quem diz o Goku, diz outro personagem qualquer. Na maioria das séries/filmes há um personagem que morre e que estranhamente volta à vida. Felizmente, para nós, o nosso “herói” também voltou, mas, por vezes, estamos tão confortáveis com esta realidade que nem sempre paramos para pensar no seu real significado.
Se olharmos para a Quaresma verdadeiramente como a preparação para a Páscoa, que tem o seu ponto mais alto na ressurreição de Cristo, temos de perceber como é que Jesus preparou a Sua própria ressurreição.
Vejamos a frase seguinte que vou usar para descrever o que Jesus fez antes de ressuscitar:
“Cristo morreu por nós, venceu a morte para sempre, resgatou Adão e Ressuscitou”
Desde a sexta-feira em que Jesus soltou o “grande brado” e suspirou pela última vez, até domingo de manhã, Jesus fez tudo isto. (Se fosse eu, a minha mãe dizia que era pouco, devia ter deixado o almoço pronto e a casa arrumada, mas isso sou eu)
Vejamos, podemos partir esta frase em vários bocadinhos e compreendê-la à luz do que a igreja nos ensina e pede:
1º- “Cristo morreu por nós (…)”
Já todos ouvimos esta parte da frase milhentas vezes, mas nem sempre paramos para pensar no que realmente significa. A morte de Jesus é essencial para percebermos a sua humanidade e o amor que Ele tem por nós.
Os judeus imolavam cordeiros “sem mancha nem defeito” para “expiar” /” pagar” pelos seus pecados, assim ficavam “puros”. Jesus, porém, foi chicoteado 39 vezes, levou com canas, foi blasfemado, envergonhado, carregou a Cruz e foi pregado nela. Depois de 3 horas de agonia, suspirou e morreu, foi trespassado por uma lança e depois foi sepultado. Este é o nosso cordeiro, Aquele, que pagou pelo nosso pecado.
À luz da Sua morte o que me pede a Igreja? Jejum e abstinência.
Ainda que não seja comparável às chicotadas, o jejum ajuda-nos a estar mais próximos da cruz. O facto de nos negarmos alguns prazeres permite que nos aproximemos das chagas de Jesus. Quando jejuamos estamos a colocar a nossa mão “no lugar dos cravos”. Esta nossa pequena mortificação, através das chagas de Cristo, torna-se parte da própria morte de Cristo.
Nesta Quaresma, saibamos que ao jejuar estamos a colocar uma pequena coroa de espinhos na nossa própria cabeça. Espinhos esses que se tornam naqueles que Jesus também teve na sua cabeça.
2º- “(…) venceu a morte para sempre (…)”. Como?
Imaginem-se no lugar do diabo, naquela tarde em que Jesus morreu. O diabo finalmente achou que tinha vencido. Deus fez-se homem e o diabo conseguiu convencer os homens que o correto era matá-lo. O Filho do Deus Altíssimo veio à terra, resistiu às tentações, só para morrer na cruz. O diabo deve mesmo ter pensado que tinha vencido.
No entanto, enquanto se preparava para acolher a alma do próprio Deus na mansão dos mortos, o diabo teve uma surpresa. Deus chegou à mansão dos mortos, não para dar razão ao “acusador”. Deus chegou lá para destruir o pecado, para destruir os nossos medos, Ele próprio foi ao quinto dos infernos para que aquilo que nos separa Dele fosse destruído de uma vez para sempre.
Sejam esses medos quais forem, Deus já os destruiu e venceu uma vez. Ao derrotar a morte, destruiu tudo o que nos impede de estar próximo Dele. Seja a nossa ansiedade, medo, cansaço, incerteza, desespero… Jesus vem ter connosco e pede que lhe entreguemos todas estas coisas que nos separam Dele. Na mansão dos mortos, é isso que Jesus pede aos que lá estão, que entreguem as correntes com que eles próprios se prenderam.
À luz da sua Vitória o que me ensina a Igreja? Oração.
Seja a nossa oração essa entrega, vamos entregar os nossos pesos, Àquele que diz:
“Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves”. Mt 11, 28-30
A nossa oração é o que eleva o nosso coração até próximo do Dele, assim, entregando tudo, vamos aprendendo com Ele. Para a oração é bom recordar algumas passagens que nos podem ajudar neste tempo:
- Isaías 43, 1-7
- Isaías 49, 14-16
- Salmo 23
- Lucas 1, 46-56
3º- “(…) resgatou Adão (…)”
Um pouco configurado na reflexão anterior, podemos pensar no resgate de Adão como uma missão que Cristo começou e que deixou para nós continuarmos. Deus não deseja o sofrimento de ninguém. Por isso mesmo, vem resgatar o Homem, não só das suas dúvidas e medos, mas também das suas dores e sofrimentos físicos. Olhando para o ministério de Jesus, vemos o que Ele disse aos discípulos de João:
“Os cegos veem, os coxos andam, os que têm lepra são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada a boa nova”. Mt 11,5
Cristo não veio só para libertar as nossas almas, mas também os nossos corpos. Ele veio tomar sobre si as nossas dores e as nossas culpas.
À luz do seu resgate, o que me pede a igreja? Caridade.
A caridade tem princípio na compaixão, que é o “sofrer com o outro”. Não é só uma questão de dar dinheiro ou comida a quem mais precisa. É uma questão de ter a coragem de estar com o outro. É tomar sobre nós um pouco do seu sofrimento e deixar com ele um pouco do nosso alívio. Desta maneira, acontece um fenómeno muito interessante:
Quem dá, torna-se aos olhos do que recebe, como Jesus que o alivia dos seus sofrimentos. Aos olhos de quem dá, o que recebe torna-se no Jesus escondido na pessoa dos “irmãos mais pequeninos”.
Finalmente – “(…) e Ressuscitou.”
Para alegrar os discípulos e converter de uma vez por todas o nosso desespero em Esperança, Cristo ressuscita e dá-nos uma missão: “E em seguida mandou: «Vão por todo o mundo e preguem a Boa-Nova do Evangelho a todas as criaturas»”. Mc 16,15.
Esta Boa-Nova é de tal forma incrível, que não podemos esperar pela Páscoa para a partilhar.
Da minha parte é tudo, espero não ter massacrado muito.
Um abraço em Cristo.
Guilherme Matos
Coordenador Vicarial de Juventude do Barreiro-Moita
“Posso enfrentar todas as dificuldades naquele que me fortalece.” Fl 4, 13



