A família é o “centro que junta todas as pastorais e movimentos da nossa diocese”

Set 16, 2025

Na antecâmara de mais um Jubileu Diocesano, este dedicado às famílias, fomos conversar com Tânia Furtado e Gonçalo Boavida, o casa responsável pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar na nossa diocese.

 

Começava por vos perguntar, Gonçalo e Tânia, porquê que a Pastoral Familiar decidiu incluir um Jubileu das Famílias nas comemorações dos 50 anos de fundação da nossa Diocese?

Gonçalo Boavida: Eu creio que faria todo o sentido. Nós tivemos a particularidade, em Setúbal, de juntar o Jubileu da Diocese com o Jubileu Universal da Igreja, e portanto tivemos de facto aqui uma agenda muito carregada, mas também sentimos que faria todo o sentido que as famílias, na sua versão mais alargada, família que inclui o casal, as crianças, o indivíduo, os avós, portanto temos aqui uma diversidade de famílias, também tivessem um dia específico, um Jubileu específico para pensarmos e para rezarmos para esta realidade.

 

É um programa curto, mas intenso, temos uma pequena palestra, depois eucaristia com o D. Américo. Este será o grande foco do encontro?

GB: Sim, nós sentimos que o Jubileu faria todo o sentido em Setembro, porque Setembro é o ponto de partida também para muitas Famílias, com o ano escolar e também o pós-férias, portanto este arranque para muitas Famílias, este é o novo ano que começa, achámos que o timing para as Famílias poderia ser este.

E depois também sentimos que já temos tido tantos eventos, tantos horários, tantas dinâmicas que achamos que faria todo o sentido ser um programa conciso e, portanto, temos uma palestra às 15h30, depois temos algumas notas da Pastoral, sobre o que é a realidade da Pastoral Familiar e depois temos a Eucaristia presida pelo D. Américo.

 

Tânia, qual é a importância da Família numa Pastoral Diocesana que está a celebrar os seus 50 anos?

Tânia Furtado: Bom, essa pergunta é de facto uma pergunta muito curiosa, porque ainda há pouco tempo tivemos a possibilidade de juntar os diferentes movimentos da Diocese e todos os movimentos acabavam por dar como feedback a Família ser o centro, aquilo que junta todos estes movimentos.
Independentemente das famílias, e hoje em dia temos muitas realidades, é aqui que nos formamos enquanto pessoas, enquanto cidadãos, é aqui que fazemos a nossa caminhada de fé e por isso acaba por ser o local certo e a entidade certa para congregar todos estes movimentos.
Às vezes quando falámos no jubileu das famílias dizíamos “mais um jubileu”, mas de facto é esta congregação, é esta união, é este pilar que nos forma e que nos lança para a vida que torna este Jubileu importante.

 

Um pilar que muitas vezes é que tem sido colocado em causa, tem-se falado muito de inverno demográfico, tem-se falado muito das dificuldades da família, já se fala o suficiente sobre a família ou ainda precisamos de saber falar melhor sobre a família?

GB: Nós temos tido um bocadinho essa conversa no âmbito da pastoral familiar, somos 3 casais, e entre os 6 temos falado disso.
Hoje a realidade das famílias é de facto muito diversa, como eu disse há pouco. Nós temos famílias de dois, temos famílias de casais com filhos, de casais sem filhos, temos hoje gente da nossa idade que decidiu não casar, mas que é família com os seus pais, que estão em idade avançada, portanto todos nós temos uma realidade familiar.
Depois soma-se a isto a diversidade que temos hoje também do ponto de vista cultural. Eu sou original da paróquia da Amora, foi aí que cresci, que é uma paróquia muito dedicada às migrações, portanto nós hoje temos esta realidade num outro patamar, e tudo isto são desafios que importa olhar.

Claro que temos hoje os media a olhar muito para o tema dos divórcios na igreja, os casais católicos que se divorciam, como é que a igreja olha para esse tema, mas hoje não é só esse o tema, temos uma diversidade de temas, esta vaga de imigração, por exemplo, diz-nos muito, porque temos realidades familiares muito diferentes, e portanto é para isso que temos que olhar, é para essa realidade muito diversa, muito plural, e neste contexto da pastoral familiar não temos, chegamos à conclusão que não temos aqui limites, barreiras, ou uns que são famílias, outros que não são.

Lembro-me também dos viúvos, que também importa referir, porque temos na nossa equipa de casais dois viúvos, e que dizem muitas vezes que a Igreja olha para a diversidade e para muitos dos problemas, e às vezes esquece-se, por exemplo, desta realidade dos viúvos e das viúvas. A pastoral familiar o que tem procurado é olhar para estas realidades e perceber o que é que pode ter para oferecer enquanto Igreja a estas realidades.

Nuns casos é mais fácil, noutros é mais difícil, e portanto temos caminhado com o Sr. Bispo para tentar ter aqui uma linha orientadora. No fim do dia há algo que nos une a todos enquanto famílias, que é o sacramento do matrimónio, e temos olhado para o sacramento do matrimónio um pouco como o ponto fulcral, o eixo daquilo que pode de alguma forma ser o caminho orientador da família. E depois, a partir daí, obviamente percebemos que as realidades são tão diversas, mas é a partir daí que depois vamos olhando para as soluções e para aquilo que temos que oferecer às famílias.

 

D. Américo Aguiar com algumas famílias no I Encontro de Avós e Netos

 

E o que é que a pastoral familiar tem para oferecer às famílias, ou quer ter para oferecer às famílias?

TF: Uma das coisas que temos falado, voltando à tua pergunta anterior, é sem dúvida preciso falar mais [sobre a família], é preciso dar mais resposta às necessidades das famílias, e uma das coisas que temos reparado, que é uma necessidade comum, é fomentar o diálogo, ajudar o diálogo entre casal, com os filhos, entre irmãos, e portanto achamos que esse é um dos pontos-chave. Enquanto pastoral familiar, vimos que há aqui três eixos de trabalho importantes. Um é a parte da oração, ajudar a um caminho de oração mais ativo, mais presente. Todos nós sabemos que, quanto mais perto estamos de Nosso Senhor, mais fortes estaremos e mais preparados estaremos para encarar os desafios, e portanto essa proximidade, essa procura constante, e portanto um dos pontos será fomentar claramente a oração.

Depois temos um segundo pilar que é em torno da educação, em torno da formação. Hoje em dia há carências enormes nesta área, todos nós sentimos, aprendemos imensos cursos para a nossa formação profissional, mas ninguém nos ensina a ser pais, ninguém nos ensina a ser bons esposos, e o que vamos fazer é identificar as necessidades de formação, porque estas vão variando ao longo dos anos, e dar resposta às mesmas de uma forma contínua, ter um plano anual em que possamos ir ao encontro das necessidades aqui na nossa diocese.
E depois há um terceiro eixo. Gonçalo?

GB: Sim, que é o que dizia há pouco, da diversidade de famílias, e aí estamos a tentar trabalhar junto com o Sr. Bispo, tentar perceber que notas pastorais, que indicações é que de alguma forma podemos conseguir dar, para ir dando algumas orientações comuns dentro da diocese, ou seja, temos algumas situações onde podemos tentar conciliar e perceber, face aos desafios que existem, que respostas é que podem existir. Aquilo que nos propusemos enquanto pastoral familiar, desde o princípio, foi não ser uma pastoral de eventos, não é de todo essa a nossa, enfim, a nossa dimensão, a nossa realidade, mas foi tentar ter uma pastoral que pudesse olhar para um programa de médio e longo prazo, com alguns eixos, estes três que dizíamos, foi aqueles que de alguma forma fomos desenhando até agora, ter aqui uma realidade que pudesse durar alguns anos. E portanto, se alguma coisa nós fizemos neste ano, foi tentar consolidar, enfim, um pequeno diagrama que temos, que mostraremos nestes dias à diocese, através do site, das redes sociais, etc., um pequeno diagrama que olha para estas três realidades, a oração, a formação e as diferentes realidades das famílias.

Neste momento o que temos, e foi o propósito também que assumimos, é não ter casal modelo, não ter famílias modelo, não ter famílias que são um exemplo para as outras, nada disso. Cada um de nós tem as suas dificuldades, cada um de nós vive os seus problemas, todos nós de alguma forma gritamos um dia com os nossos filhos porque são impossíveis de aturar na dificuldade da adolescência, os nossos estão agora nessa etapa, portanto, tudo isto são realidades que nós vivemos e que todos vivem, e portanto é muito para essa realidade concreta que nós queremos tentar olhar e depois, enquanto pastoral, apontar alguns caminhos.

Como exemplo, o Dia dos Avós, que no último ano já conseguimos celebrar duas vezes, porque foi precisamente na semana em que arrancámos, celebrámos o dia dos avós e este ano voltámos a celebrar. Aquilo que se tenta é mostrar que há ali uma realidade que é dos avós, que alguns de nós ainda têm, outros não, mas que de alguma forma temos que os incluir, temos que os trazer para dentro da família, a família é católica, não é só o casal e os filhos, ou não é só o casal, e portanto temos que trazer os avós.

O nosso bispo no I Encontro de Avós e Netos, que reuniu gente de toda a diocese.

 

São estes pequenos apontamentos, estas pequenas direções. E eu se calhar só acrescentava que, daquilo que têm sido as conversas que temos tido, quer a nível das paróquias com os sacerdotes, quer a nível dos movimentos, o que vemos é aqui quase que duas grandes realidades. Primeiro, temos basicamente resposta para a maioria das necessidades, através dos movimentos, seja as equipas de Nossa Senhora, seja o CPM, há muitas respostas e é preciso dinamizar essas, para que as pessoas tenham conhecimento das mesmas e possam, de facto, aproveitar.

Depois há outras pequenas áreas, que é mais este terceiro eixo que o Gonçalo estava a dizer, onde é preciso procurar, se calhar, algumas respostas, e é aí que também vamos, passo a passo, tentar, falámos da questão dos viúvos, falámos de várias situações onde, se calhar, é preciso ir ao encontro e procurar uma resposta mais adaptada.

Mas para a grande maioria estão lá e, portanto, é importante dinamizar os movimentos que temos para que mais pessoas, mais famílias, também possam conhecer dos mesmos. Há uma questão que também, e julgo que nós já tínhamos falado nisto, que tem a ver com, há muitos movimentos que olham para os adultos, há muitos movimentos que olham para as crianças, nem todos os movimentos, ou muito poucos, se calhar, olham para a totalidade da família, ou seja, para a relação dos pais com os filhos, não têm presente todas as áreas da família.

 

É também uma preocupação essa, garantir que, de facto, se olha para a família como um todo, e não propriamente para as partes da família, tentando ajudar as partes da família sem ter esta visão mais profunda e global?

GB: Nós hoje temos, para além dessa diversidade de movimentos que olham cada um para determinada área, pastorais que olham para a sua área, temos a pastoral da juventude, temos a pastoral da catequese, temos a pastoral da família, portanto, já há uns meses reunimos com vários movimentos e vários pastorais para tentar ter uma conversa.

Chegámos um bocadinho a essa conclusão, a solução terá que passar por conversarmos todos, pastorais e movimentos.

Aquilo que conseguimos no outro dia, quando reunimos algumas pastorais, foi de facto perceber que a pastoral da juventude devia ter aqui uma integração com a pastoral familiar, que a pastoral da catequese já estava a fazer algum caminho, e era importante saber quais eram os nossos eixos para também de alguma forma poder integrar na sua realidade. Ficámos com a sensação de que é importante que haja diálogo.

 

Uma das coisas que nos propusemos fazer, e que será agora para este ano, será precisamente isso, os movimentos que são parte da solução e que já existem, ou seja, não vale a pena nós criarmos na pastoral familiar mais uma celebração, mais um evento, etc. Aquilo que vamos fazer é dar a conhecer, através de um toolkit [caixa de ferramentas], os movimentos a todos os sacerdotes da diocese e a todas as famílias. E aquilo que vamos tentar fazer é de facto congregar a informação dos vários movimentos que existem para as famílias, numa realidade igual para todas: qual é o movimento, o que é que o caracteriza, qual é o seu ponto mais distintivo, em que paróquia é que está mais enraizado e mais forte e já existe, com quem é que eu posso falar, se quiser saber um pouco mais.

Essas fichas serão entregues não só aos sacerdotes, mas também aos casais que quiserem, que pretenderem saber um pouco mais, porque percebemos que os casais estão na realidade das paróquias, procuram algumas soluções, mas na sua paróquia provavelmente só existe ou um movimento, ou uma realidade, em alguns casos poderá até não existir nada, ou não se identificarem com aquele por um motivo qualquer. Se essa informação estiver compilada num site, numa pequena folha, num folheto que possa ser entregue, cremos que poderá ser um bocadinho mais fácil, portanto o nosso papel, e para fechar a resposta como iniciei, é em torno do diálogo, ou seja, o nosso papel enquanto pastoral familiar parece-nos que é ser aqui um bocadinho um pivot de congregar a informação para poder voltar a distribuir, e cada casal, ou cada família, procurará aquilo que lhe diz mais, umas vezes será mais num contexto familiar, outras vezes será mais num contexto de casal.

 

 

Entrevista: Ricardo Perna

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