Queridos irmãos e irmãs,
Celebramos hoje o III Domingo do Tempo Comum, que o Papa Francisco quis oferecer à Igreja como Domingo da Palavra de Deus. É um dom e uma responsabilidade. E é também uma bela coincidência espiritual que este dia marque o encerramento da Visita Pastoral às comunidades de Cacilhas e do Pragal.
A Palavra que escutamos não é uma palavra distante, nem reservada a alguns. É Palavra viva, dirigida a pessoas concretas, em lugares concretos, em circunstâncias reais. Jesus começa a sua missão com um anúncio simples e exigente: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus». E, logo a seguir, chama: «Vinde comigo».
Ao longo destes dias, percorri convosco ruas, instituições, escolas, serviços, associações, lugares de dor e de esperança, espaços de trabalho e de convívio. Encontrei pessoas reais, com vidas marcadas por esforço, generosidade, perguntas e sonhos. E é a todos vós que hoje o Senhor dirige a sua Palavra — não em abstrato, mas na vossa história concreta.
O Evangelho ajuda-nos a perceber algo essencial: Jesus não começa por discursos complicados. Começa por caminhar, olhar, aproximar-se e chamar. A Palavra de Deus nasce sempre do encontro. Por isso, este Domingo lembra-nos que não somos apenas ouvintes da Palavra, mas chamados por ela.
A Palavra de Deus não serve para nos tranquilizar a consciência, mas para nos pôr a caminho. Não nos fecha em nós mesmos, mas abre-nos aos outros. Não nos afasta da realidade, mas envia-nos para dentro dela, com mais esperança, mais responsabilidade e mais amor.
Durante esta Visita Pastoral vi muitos sinais de uma Palavra já acolhida e vivida: no serviço silencioso, na atenção aos mais frágeis, na dedicação de tantos agentes pastorais, na proximidade aos doentes, na escuta paciente, na disponibilidade generosa. A Palavra já está a dar fruto. E hoje somos convidados a confiar ainda mais nela.
Encerrar uma Visita Pastoral não é fechar um capítulo. É relançar um caminho. A Palavra que hoje escutamos é semente lançada na terra da vossa vida e destas comunidades. Cabe-nos acolhê-la, cuidá-la e deixá-la crescer.
Celebramos esta Eucaristia na igreja dedicada a São Sebastião, testemunha fiel da Palavra até ao fim. A sua vida lembra-nos que escutar a Palavra de Deus implica coragem, fidelidade e entrega, mesmo quando isso custa. Daqui a pouco, ao sairmos em procissão com o seu andor pelas ruas, não faremos apenas um gesto bonito ou tradicional: levaremos um sinal de fé viva para o meio da cidade, proclamando com os pés aquilo que celebrámos com os lábios.
Que esta procissão seja expressão de uma Igreja que não fica fechada dentro de portas, mas que caminha com o povo, levando esperança, confiança e luz. Uma Igreja que sabe que a Palavra de Deus se escuta, se celebra e se vive no coração do mundo.
Que a Palavra de Deus seja cada vez mais o centro das nossas decisões, das nossas opções pastorais e da nossa forma de ser Igreja: simples, próxima, atenta, sem deixar ninguém para trás.
Que Maria, mulher da escuta e da Palavra acolhida, nos acompanhe.
E que esta Visita Pastoral continue a dar fruto, porque a Palavra de Deus não passa: permanece, transforma e envia.
Assim seja.
✠ Cardeal Américo Aguiar
Bispo de Setúbal
24 e 25 de janeiro de 2026




