A Visita Pastoral do Cardeal D. Américo Aguiar às paróquias da Trafaria e da Costa da Caparica ficou marcada por um contacto direto com as realidades sociais, económicas e de socorro destas populações. Entre o mar e o rio, o Bispo de Setúbal não poupou palavras para defender quem está na linha da frente e para pedir uma Igreja menos burocrática e mais humana. Neste que foi o último dia de visitas, o dia começou com o encontro nos Bombeiros Voluntários da Trafaria, um dos momentos mais políticos e emotivos. D. Américo Aguiar agradeceu o esforço da corporação em “tempos difíceis” e lançou uma crítica contundente à gestão estatal do socorro. “Nestas visitas que fiz a corporações afetadas pelo mau tempo causa-me aflição que os quartéis colapsem. Se o quartel colapsa não há socorro para ninguém… O Estado tem dificuldade em entender que o mundo do socorro passa por termos nos nossos territórios corpos de bombeiros em prontidão permanente”, afirmou o Cardeal.

Depois da visita, uma passagem pelo comércio local, onde escutou as queixas dos comerciantes sobre a sazonalidade e as crises económicas, e de seguida o prelado reuniu-se com o Conselho para os Assuntos Económicos (CAE). Ali, reforçou que a missão financeira da Igreja deve servir a missão espiritual: “Sejamos capazes da evangelização deste território, cheio de gente, fazendo coincidir a Missão com o chegar e cuidar dos que precisam de nós.” O pároco local, Pe. Casimiro Henriques, subscreveu a urgência: “Há gente muito longe de nós e isso é uma preocupação”, defendeu.
O dia anterior fora dedicado à vertente social, com passagens pelo Centro Paroquial de S. Pedro (Trafaria) e pelo Centro Social Paroquial Nossa Senhora da Conceição da Costa da Caparica (CSPNSCCC). Nestas instituições, o Cardeal deixou um aviso sobre a natureza da caridade moderna. Na Trafaria Pediu que o apoio não alimente “sistemas de dependência”, mas que trabalhe a autonomia das pessoas, e na Costa da Caparica desafiou as equipas a abandonarem o “sempre foi assim” e a procurarem “inovar” onde tal for possível e se justifique para se ir ao encontro das necessidades das pessoas. “Pedimos compaixão, porque ficamos tão especialistas que esquecemos que estamos a tratar de problemas de pessoas, e não de números e leis”, alertou.
Na reunião com a direção do CSPNSCCC, D. Américo relatou ainda um certo “alheamento” ou “indiferença” que encontrou em algumas organizações face aos problemas reais do território, e pediu que as valências das instituições sejam ajustadas ao que é hoje mais urgente.
A dimensão geracional também esteve em foco. Esta tarde esteve com o Agrupamento 372, da Trafaria, e mais tarde reuniu-se com os dirigentes do Agrupamento, onde defendeu o escutismo como pilar de formação para jovens cujas famílias, por vezes, carecem de estrutura. O Chefe do Agrupamento reconheceu que, embora a retenção de adultos seja um desafio, o trabalho com os jovens continua a dar frutos.

Nas celebrações litúrgicas — tanto na Igreja Matriz da Costa como na Trafaria (esta última repleta de escuteiros e crianças da catequese) — o tom foi de preparação para a Páscoa. O Cardeal apelou a “que os jejuns e as penitências não sejam feitas porque sim, mas porque nos fazem sentido, e assim possamos preparar as nossas vidas para chegarmos à Páscoa mais leves espiritualmente.” D. Américo Aguiar lembrou ainda que a Renúncia Quaresmal da Diocese de Setúbal este ano se orienta para as vítimas do mau tempo, unindo a oração à solidariedade prática.
A Visita Pastoral culminará agora com a Eucaristia conclusiva, onde 16 jovens e adultos da paróquia da Costa da Caparica receberão o Sacramento do Crisma, selando este tempo de renovação para as comunidades da Trafaria e da Costa da Caparica.




