Queridos Pais e Encarregados de Educação, Educadores, Clero, Agentes Pastorais, Estudantes,
e todos, todos, todos…
Volto a escrever-vos, uma vez mais, sobre a importância da inscrição na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC). Faço-o porque este tema, longe de se esgotar, ganha ainda maior urgência num momento em que o mundo atravessa perturbações profundas: conflitos bélicos que se alastram, crises económicas e sociais que fragilizam milhões, tensões culturais que polarizam comunidades e um clima global de incerteza que desafia a nossa capacidade de educar para a esperança. Nunca é demais recordar aquilo que nos dizia o Papa Francisco no seu Pacto Educativo Globali: vivemos uma mudança epocal, uma metamorfose cultural e antropológica que coloca a educação à prova e exige a coragem de recolocar a pessoa no centro de todos os processos educativos.
Aliás, esta preocupação não é nova. Acabamos de celebrar 60 anos da Declaração GRAVISSIMUM EDUCATIONIS – Sobre a Educação Cristãii (28 de outubro de 1965) e percebemos que já aí o Concílio Vaticano II convidava a Igreja a dialogar com o mundo contemporâneo e percebemos como aquele texto foi profético ao defender uma educação aberta, crítica e dialogante, capaz de responder às mudanças culturais e de promover o bem comum. Na mesma linha, o papa Leão XIV na Carta Apostólica Traçar Novos Mapas de Esperançaiii (Por ocasião do LX aniversário da Declaração Conciliar Gravissimum Educationis) sublinha a necessidade de unir tradição e inovação, afirmando que o discernimento cultural é parte essencial da missão educativa, mas que “ninguém educa sozinho”.
É neste horizonte, simultaneamente desafiante e esperançoso, que se compreende a relevância da EMRC no sistema educativo português. A escola não é apenas um espaço de transmissão de conteúdos. É, como lembra a própria carta que anteriormente vos dirigi, um lugar para a construção de cultura, liberdade e diálogo, onde todo o currículo (explícito e oculto) contribui para formar pessoas plenas, responsáveis e inseridas no seu tempo.
A EMRC, integrada no currículo com o mesmo rigor das restantes disciplinas, oferece às crianças e jovens um espaço único para pensar o sentido da vida, compreender o lugar das religiões e das culturas na sociedade, dialogar com a diferença e crescer numa visão humanista inspirada pela mundividência cristã, mas aberta a TODOS, TODOS, TODOS: crentes, não crentes, pessoas em busca, indiferentes ou de outras tradições religiosas.
Num mundo onde crescem fenómenos de fechamento identitário, tribalismos digitais e relações de “mesmidade”, que impedem o encontro com o outro, a EMRC é um espaço de diálogo plural que forma para a convivência, a empatia e a fraternidade. É uma disciplina que acolhe a diversidade e a transforma em ponte, não em muro. É um lugar de escuta, não de exclusão.
Ao mesmo tempo, vivemos num contexto em que a Inteligência Artificial marca cada vez mais a vida diária, as decisões políticas, económicas e educativas. Os documentos da UNESCOiv sobre a IA alertam para os riscos de discriminação algorítmica, decisões opacas e disseminação de desinformação, sublinhando a urgência de cultivar uma cidadania digital crítica, ética e responsável. Aqui também a EMRC desempenha um papel fundamental: ajuda os alunos a olhar a tecnologia com humanismo, a discernir o verdadeiro do falso, a cultivar consciência ética e a compreender que nenhuma máquina substitui a profundidade da relação humana, da interioridade e da responsabilidade moralv.
Por ser uma disciplina confessional e simultaneamente aberta, inclusiva e dialogante, a EMRC constitui um contributo precioso para a formação integral de cada estudante, a partir de uma visão cristã da pessoa e da vida. As crianças e jovens precisam, cada vez mais e com mais urgência, deste espaço de reflexão, de encontro e de esperança, porque educar é sempre muito mais do que instruir: é capacitar para viver com sentido, propósito, liberdade e responsabilidade num mundo complexo.
Por isso vos renovo o apelo, com toda a convicção: inscrevam os vossos filhos e educandos na disciplina de EMRC. Não como um gesto identitário, mas como uma escolha consciente a favor do diálogo, da abertura ao outro, da formação integral e da construção de um futuro mais humano para todos, todos, todos.
Com estima e confiança renovada,
Setúbal, 15 de março de 2026, IV Domingo da Quaresma, Domingo Laetare, Domingo da Alegria
† Cardeal Américo Aguiar
Bispo de Setúbal
i Pacto Educativo Global – vademecum-portuges.pdf
iii Carta Apostólica “Traçar Novos Mapas de Esperança” por ocasião do LX aniversário da Declaração Conciliar “Gravissimum Educationis” (27 de outubro de 2025)
iv The Six Pillars Framework | UNESCO
Guía para el uso de IA generativa en educación e investigación
v Antiqua et nova. Note on the Relationship Between Artificial Intelligence and Human Intelligence (28 January 2025)




