Desafios da evangelização e o trabalho com os mais frágeis na agenda da Visita Pastoral à Vila Nova

Mar 21, 2026

 

A visita pastoral do D. Américo Aguiar à paróquia da Vila Nova, integrada no percurso pelas comunidades da Sobreda e Vila Nova, ficou marcada, no segundo dia, por um forte apelo à responsabilidade coletiva perante a realidade da deficiência e à necessidade de respostas concretas para os mais vulneráveis, assim como pelos desafios da evangelização, em particular dos adultos.

Já depois de visitar ao Apoio Fraterno da Vila Nova, serviço de voluntários na paróquia que presta assistência alimentar a cerca de 40 pessoas, o Cardeal D. Américo Aguiar esteve no Externato Zazzo, instituição de referência no apoio a jovens com deficiência, onde sublinhou o impacto das limitações estruturais e políticas neste setor. “No mundo da deficiência, são poucos, gastam muito dinheiro e há dificuldade, independentemente dos governos, de assumir estes encargos”, afirmou, reconhecendo, no entanto, o esforço das instituições: “Nesta visita tenho descoberto milagres em todos os sítios.”

A preocupação com a ausência de respostas após a maioridade foi uma das questões centrais. Segundo os responsáveis, muitos jovens ficam “totalmente sem resposta” depois dos 18 anos, uma realidade que o bispo de Setúbal considerou “dramática”. Ainda assim, destacou o trabalho desenvolvido por respostas como o Centro de Apoio à Vida Independente (CAVI), que acompanha dezenas de utentes na construção de uma vida autónoma.

Perante profissionais, famílias e utentes, D. Américo deixou uma palavra de reconhecimento: “Temos de agradecer muito aos trabalhadores e aos técnicos, porque ficamos sensibilizados para a dureza da tarefa, seja física seja de afecto e carinho.” E lançou um desafio mais amplo: “É preciso sensibilizar a sociedade civil em geral para a solidariedade com a área da deficiência.”

Também presente, a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, agradeceu a proximidade do bispo e o olhar atento sobre as realidades locais, numa visita que, ao longo dos dias, passou por diferentes instituições e contextos sociais do concelho.

O encontro incluiu ainda momentos de escuta e diálogo com a comunidade educativa. O professor Baltazar destacou que “educar é mais do que transmitir conhecimento”, sublinhando o compromisso da instituição com a promoção da autonomia e dos valores: “Cada criança é única, e procuramos respeitar ritmos e processos.” Rejeitando críticas de segregação, afirmou que “não se mede o sucesso pela rapidez com que se aprende”.

Ao longo do dia, o cardeal visitou também o comércio local e reuniu com a Associação de Moradores dos Capuchos, que apresentou o trabalho desenvolvido em parceria com entidades públicas para melhorar as condições de vida da população.

O dia terminou com um encontro com os membros da Catequese de Adultos, onde o cardeal desenvolveu uma reflexão aprofundada sobre os desafios da transmissão da fé na sociedade contemporânea. “Hoje em dia, a sociedade já não tem referências cristãs”, alertou, partilhando a experiência das visitas às escolas: “Tem-me impressionado muito a quantidade de crianças que me perguntam o que é isto que trago ao pescoço… nem isso sabem.”

Para D. Américo Aguiar, esta realidade revela uma rutura geracional, agravada pelo facto de “os avós, que ajudavam muito a rezar, também já desapareceram ou não têm essas referências”, fazendo com que muitas crianças “cheguem à catequese a zeros”. Ainda assim, destacou um sinal de esperança: “Há um desejo grande nas pessoas em conhecer mais”, desafiando os catequistas a responder a essa procura.

Reconhecendo a exigência desta missão, deixou uma palavra de apreço: “Isto é muito exigente para quem aceita o desafio de formar”, sublinhando que este serviço “não é comum hoje em dia nas paróquias”. Defendeu também a centralidade da Palavra na vida cristã, questionando a forma como é acolhida: “Na eucaristia, qual é a perceção das pessoas do que estão a ouvir?”, alertando para o risco de as leituras “se perderem se não houver o mínimo de entendimento”.

A reflexão alargou-se à escassez de sacerdotes, que considerou um desafio estrutural. “Não há padres como não há médicos, professores ou outros profissionais. Não há pessoas, e por isso não há vocações”, afirmou, apontando à raiz demográfica do problema. Neste contexto, defendeu uma maior corresponsabilidade dos leigos: “O exclusivo do padre é celebrar missa, ouvir em confissão e ungir os doentes. Tudo o resto qualquer leigo pode fazer”, apelando a uma reorganização pastoral mais flexível e centrada nas necessidades das pessoas.

 

Primeiro dia marcado pelo contacto com crianças, famílias e agentes pastorais

O primeiro dia da visita pastoral ficou assinalado pelo contacto próximo com diferentes realidades da paróquia, desde a infância até aos agentes pastorais.

A jornada começou no Centro Social e Paroquial da Sagrada Família, onde D. Américo Aguiar encontrou crianças da creche e profissionais da instituição, a quem agradeceu o trabalho diário. Destacou o desafio de “acolher e trabalhar com as crianças de sorriso no rosto, mesmo que na própria vida nem tudo corra bem”, apelando também a formas de reconhecimento que valorizem o empenho dos trabalhadores.

Seguiu-se a visita à Escola Básica da Vila Nova, onde alunos e professores manifestaram entusiasmo pela presença do bispo. Entre os principais problemas apontados esteve a sobrelotação das escolas e a insuficiência de oferta educativa gratuita.

No Colégio Campo de Flores, instituição de inspiração cristã, o cardeal contactou com alunos de diferentes níveis de ensino, partilhando o almoço com a comunidade educativa.

De tarde, e após a visita ao Hotel Crowne Plaza Caparica Lisbon, onde pôde conhecer melhor uma das poucas ofertas hoteleiras que existem na região, o Cardeal D. Américo Aguiar presidiu à celebração da Eucaristia na Igreja da Sagrada Família, na solenidade de São José, centrada na valorização da família. D. Américo convidou a dar graças “por todos os pais e por todos aqueles que, não o sendo biologicamente, o são na verdadeira aceção da palavra”, lembrando também as mães e apelando à criação de condições para que todas as famílias possam acolher a vida. Recordou ainda os que já partiram, evocando o seu papel na construção das famílias e da comunidade.

O dia terminou com um encontro com os conselhos paroquiais, movimentos e voluntários, marcado por palavras de reconhecimento e por vários desafios pastorais. D. Américo Aguiar destacou o trabalho feito “com sacrifício” e “generosidade”, lembrando também aqueles que já partiram e contribuíram para a construção da comunidade.

Entre as preocupações deixadas, salientou o progressivo afastamento da comunidade das realidades da doença, da morte e do luto: “Quanto mais num meio urbano, mais vai desaparecendo essa preocupação com os vizinhos”, alertou, apontando para uma sociedade mais distante e menos atenta aos outros.

Outro dos desafios identificados foi o das igrejas fechadas. “Por vezes, nos centros urbanos está tudo aberto durante o dia, menos a igreja que está fechada”, afirmou, defendendo que estes espaços devem estar disponíveis como lugar de oração, acolhimento e até refúgio.

A pastoral juvenil mereceu também destaque. O cardeal reconheceu a importância dos grandes encontros, mas alertou para a falta de continuidade: “Os grupos de jovens criam-se para grandes eventos, e depois esvaziam-se entre eventos.” Perante este cenário, apelou à criatividade e persistência: “Temos de multiplicar as propostas, os convites, porque alguma coisa os há-de despertar”, lembrando que “os melhores evangelizadores dos jovens são os jovens”.

Num apelo a comunidades mais inclusivas, reforçou que “é importante ter as portas abertas a todos, todos, todos”, sublinhando a importância do acolhimento como primeiro passo do caminho de fé.

Questionado sobre a sinodalidade, deixou uma síntese clara do caminho da Igreja: “A sinodalidade é fazermos caminho juntos. Não é fácil, porque ouvir as pessoas é uma chatice, mas temos de nos converter a essa forma de fazer Igreja”, concluiu.

 

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