Missa Crismal em Setúbal: “Não somos sacerdotes por função, mas por unção”

Abr 2, 2026

A Sé de Setúbal acolheu esta manhã a Missa Crismal da Páscoa de 2026, presidida pelo Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, num momento que antecede o início do Tríduo Pascal e que reúne, por tradição, o presbitério em torno do seu bispo. A celebração constituiu o palco para uma homilia de fundo teológico e pastoral, marcada por apelos concretos ao ministério sacerdotal num mundo que, nas palavras do cardeal, é «profundamente marcado pela violência, pela guerra e pela insegurança».

A homilia abriu com uma convocação à experiência da novidade pascal. «Celebrar a Páscoa é sempre entrar na novidade de Deus, que não se repete e que nos surpreende», disse o cardeal, convidando cada sacerdote a reencontrar «o sentido mais profundo da sua vocação e do seu ministério». Ancorado no profeta Isaías — «o Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos infelizes» — D. Américo Aguiar insistiu na distinção entre identidade e função: «Não somos sacerdotes por função, mas por unção. Não somos enviados para nós próprios, mas para os outros.»

Este «hoje» do Evangelho de Lucas, em que Jesus proclama na sinagoga de Nazaré o cumprimento das Escrituras, foi lido pelo bispo como uma realidade viva no ministério dos sacerdotes: «Este “hoje” de Jesus prolonga-se no nosso hoje. Através da nossa vida, da nossa palavra e da nossa presença, esta Escritura continua a cumprir-se na história concreta das pessoas que nos são confiadas.»

«Somos ungidos para estar, para escutar, para acompanhar e para consolar. Nem sempre teremos respostas, mas somos sempre chamados a oferecer presença — uma presença que, quando é verdadeira, se torna sinal de esperança e expressão da ternura de Deus.»

O cardeal não ficou pelo plano doutrinal. Com o que descreveu como «um apelo muito concreto», exortou os sacerdotes a renovarem a atenção pastoral às situações de maior fragilidade humana: «Que a nossa ação pastoral tenha uma atenção renovada e cuidada à doença, à morte e ao luto. São momentos onde a vida se revela na sua maior fragilidade e onde a presença da Igreja não pode faltar.»

A paz saudada pelo Ressuscitado — «A paz esteja convosco» — foi o fio condutor de toda a homilia. Evocando o Papa Leão XIV, D. Américo Aguiar sublinhou que esta paz «não é frágil nem superficial», mas «desarmada e desarmante, humilde e perseverante, que nasce do amor incondicional de Deus e que se torna credível quando encontra testemunhas.» As perguntas que lançou ao presbitério foram diretas: «Somos, de facto, homens que levam esta paz? A nossa presença aproxima ou afasta? As nossas palavras constroem ou ferem?»

A Missa Crismal é a celebração por excelência da bênção dos Santos Óleos — o Óleo dos Catecúmenos, o Crisma e o Óleo dos Doentes —, que serão distribuídos pelas paróquias da diocese e utilizados ao longo do ano na administração dos sacramentos. D. Américo Aguiar quis sublinhar o sentido desta distribuição como gesto eclesial: «Como um rio que brota desta catedral, irão correr por toda a diocese, levados pelas mãos de cada um de vós, até chegarem ao encontro de cada irmão e de cada irmã que será ungido.»

 

No Batismo, na Confirmação, na Ordem Sagrada e na Unção dos Doentes, estes óleos serão, nas suas palavras, «sinal da presença de Deus que toca, cura, fortalece e envia».

Num registo de ação de graças, o bispo expressou o seu obrigado pessoal pelo ministério fiel dos sacerdotes ao longo do último ano e referiu com «graça» os momentos de Visita Pastoral às comunidades que já acolheram a sua presença. Reconheceu igualmente as fragilidades do ministério, acolhendo a intenção de oração proposta pelo Papa Leão XIV: «Rezemos pelos sacerdotes que atravessam momentos de crise na sua vocação, para que encontrem o acompanhamento necessário e para que as comunidades os apoiem com compreensão e oração.»

No final da celebração, o Cardeal D. Américo Aguiar distinguiu três sacerdotes que completam este ano 25 anos de sacerdócio: o Pe. Francisco Mendes, o Pe. João Rosa e o Pe. Álvaro Lago. O seu percurso foi saudado como «um sinal concreto de fidelidade e um testemunho que encoraja todo o presbitério».

Foi também entregue a condecoração papal ao Pe. Fernando Belo, um dos sacerdotes distinguidos no âmbito do Jubileu Diocesano que a Diocese de Setúbal celebrou no ano passado.

A homilia encerrou com a imagem que a percorreu do início ao fim: «O mundo não espera de nós discursos perfeitos, mas testemunhos credíveis. Espera encontrar em nós homens que vivem aquilo que anunciam.» E com as palavras do Ressuscitado como remate: «Irmãos, não tenhamos medo de viver à altura desta unção. Cristo está vivo. E continua a dizer-nos, hoje e sempre: ‘A paz esteja convosco.’»

 

Texto: Ricardo Perna (com apoio de IA)
Fotos: Ricardo Perna

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