Paixão do Senhor: Cardeal Américo Aguiar apela ao desarmamento das palavras e à recusa da violência quotidiana

Abr 3, 2026

 

A Sé Catedral de Setúbal acolheu esta tarde a celebração da Paixão do Senhor, presidida pelo Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, numa liturgia solene que marcou o momento central da Semana Santa para a diocese. No coração da cerimónia, a homilia do Cardeal percorreu os grandes temas do sofrimento humano, da violência contemporânea e do chamamento à paz — numa reflexão que foi muito além da narrativa evangélica para interpelar a consciência de cada um dos presentes.

Desde as primeiras palavras, D. Américo Aguiar deixou claro que a celebração da Paixão do Senhor não pode ser reduzida a um exercício de memória histórica ou de piedade ritual. “Celebrar a Paixão do Senhor é muito mais do que reviver a sequência dos acontecimentos que acabámos de escutar”, afirmou o Cardeal, sublinhando que “não estamos aqui apenas para recordar um drama do passado”, mas para nos deixarmos tocar por “uma realidade que continua a acontecer — na história do mundo e na história de cada um de nós”.

A homilia ancorou-se nas três leituras da liturgia do dia. O Cardeal evocou o Servo sofredor de Isaías — “desprezado e rejeitado pelos homens, homem de dores, habituado ao sofrimento” — para sublinhar o paradoxo central da fé cristã: é precisamente através do sofrimento desse Servo que chega a cura, pois “pelas suas chagas fomos curados”. Na Carta aos Hebreus, D. Américo Aguiar encontrou o retrato de um “Deus que entra na nossa dor”: um Jesus que “conhece as nossas fraquezas, que foi provado em tudo, que rezou com lágrimas, que aprendeu a obediência no sofrimento”. E no Evangelho de São João, o percurso passo a passo da Paixão — “a traição, a negação, a violência, a cobardia, o julgamento injusto, a condenação, a cruz” — surge como espelho de tudo aquilo que, segundo o Bispo de Setúbal, “continua a marcar a vida humana”.

 

Num dos momentos mais contundentes da sua homilia, o Cardeal convocou explicitamente os conflitos armados que devastam o mundo neste momento. “Como não pensar na Ucrânia, na Terra Santa, no Médio Oriente, em África, em tantas regiões do mundo marcadas pela guerra?”, interrogou D. Américo Aguiar, recordando que “nesta mesma hora, a violência continua a escrever páginas de dor na história da humanidade”.

Para o Cardeal, a Paixão de Cristo não é uma narrativa encerrada no tempo. “Hoje, como naquele tempo, há sofrimento inocente. Há mães que choram os seus filhos. Há cidades destruídas. Há povos inteiros a viver na insegurança, na miséria, no medo.” A atualidade da Paixão manifesta-se, assim, nos rostos contemporâneos do sofrimento — e a Igreja, segundo este entendimento, não pode contemplá-los com indiferença.

Num passo que certamente não passará despercebido, D. Américo Aguiar trouxe para a homilia o caso de Noelia Castillo, uma jovem espanhola que morreu recentemente na sequência da legalização da eutanásia no país vizinho. O Cardeal invocou o seu nome como exemplo de uma “Paixão silenciosa”, que acontece fora dos grandes cenários mas interpela igualmente a consciência.

“Quem pode duvidar do calvário que viveu, do abandono que sentiu, do sofrimento que a atravessou?”, questionou o Bispo de Setúbal, concluindo que também aí somos chamados a reconhecer “um grito de dor que interpela a nossa consciência, a nossa humanidade, a nossa fé”. A referência insere-se numa posição pastoral consistente da Igreja Católica relativamente à eutanásia, que o Cardeal reafirmou sem ambiguidade, associando o caso à categoria teológica do abandono e do sofrimento injusto.

 

Se a dimensão geopolítica da homilia foi marcante, não menos incisiva foi a interpelação dirigida ao interior de cada pessoa. D. Américo Aguiar recuperou um repto recente do Papa — “desarmar as palavras” — e colocou-o no centro do que chamou um dos “caminhos mais concretos” que os cristãos podem assumir no presente. “Porque tantas vezes é com palavras que começamos a construir a violência: palavras que ferem, que humilham, que excluem, que matam lentamente”, alertou.

O Cardeal enumerou outras formas de violência que, segundo disse, “fazem parte do nosso quotidiano” e que chegam até às famílias: “a violência doméstica, os abusos, a pornografia, a exploração, a indiferença, a intolerância”. Tudo isso, sublinhou, “molda a nossa forma de viver” — e a pergunta que a Cruz coloca a cada um é se somos capazes de reconhecer, nestas realidades, a Paixão de Jesus que continua.

Num registo mais intimista, D. Américo Aguiar desafiou os fiéis a situarem-se no relato evangélico não como espectadores, mas como personagens. “Perante a Cruz, onde nos colocamos nós?”, interrogou. “Seremos como Pedro, que nega? Como os discípulos, que fogem? Ou seremos capazes de permanecer, como Maria e o discípulo amado, junto à Cruz — assumindo a totalidade do sofrimento, apesar de tristes e desolados, com o coração ferido?”

 

O Cardeal reconheceu a tentação de pensar que a Paixão “não tem a ver connosco”, que vivemos numa época de liberdade religiosa e de ausência de perseguição formal. Mas advertiu que a Paixão se perpetua “nas pequenas escolhas do nosso dia a dia: quando escolhemos o silêncio em vez da verdade, a indiferença em vez do compromisso, a agressividade em vez da paz”.

Outro momento de particular densidade foi a citação que D. Américo Aguiar fez da mensagem do Papa Leão XIV para o último Dia Mundial da Paz. O Cardeal recordou as palavras do Pontífice, que denuncia que, “em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunicação social, que difundem a perceção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada”.

“Estas palavras são duras, mas necessárias”, comentou o Cardeal, explicando que nos recordam que “a violência não começa apenas nos campos de batalha; começa também nas mentalidades, nas linguagens, nos hábitos, nas narrativas que normalizam o medo, justificam a hostilidade e fazem da força a primeira resposta”. A referência ao Papa Leão XIV, inserida numa celebração de âmbito diocesano, sublinha o alinhamento da Igreja em Portugal com a orientação pastoral da Santa Sé no que toca à construção de uma cultura de paz.

D. Américo Aguiar encerrou a sua homilia com uma afirmação de esperança que procurou ser antídoto ao peso de tudo o que havia enunciado. A Cruz de Cristo, disse, revela “até onde vai o amor de Deus”: um amor que “não responde à violência com violência”, que “não desiste”, que “se entrega totalmente”.

 

O chamamento final foi concreto e sem retórica: “Não com grandes discursos, mas com a vida. Desarmar as palavras. Desmistificar os ódios. Romper com as pequenas violências que vamos aceitando como normais. Escolher, todos os dias, caminhos de reconciliação, de respeito, de cuidado.”

E, na linha de um pensamento teológico que recusa o triunfalismo fácil, o Cardeal reconheceu que a Paixão não oferece respostas definitivas para todas as perguntas que o sofrimento suscita. “Hoje, diante da Cruz, não temos todas as respostas. E talvez nem precisemos de as ter. Mas temos um sinal: Aquele que foi trespassado.” Uma certeza que, segundo D. Américo Aguiar, é suficiente: “olhando para Ele, compreendemos que o amor — mesmo ferido, mesmo crucificado — tem sempre a última palavra.”

 

Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna

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