Cardeal D. Américo Aguiar inicia visita pastoral à Cova da Piedade com apelo à paz nas palavras e ao testemunho vivo da fé

Abr 19, 2026

 

O Cardeal D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, iniciou esta semana a visita pastoral à paróquia da Cova da Piedade, que se prolongará até ao próximo dia 27 de abril. Nos primeiros dois dias, o cardeal já percorreu um caminho intenso de encontros, celebrações e escuta, colocando-se em contacto com algumas das faces mais representativas da comunidade paroquial.

O segundo dia começou cedo, com a celebração da Eucaristia na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, onde D. Américo presidiu à missa do terceiro domingo da Páscoa. Na homilia, o cardeal centrou a sua reflexão no Evangelho dos discípulos de Emaús, convocando os fiéis a reconhecerem Cristo precisamente no gesto que repete a cena bíblica: a partilha do pão.

“Quando ele pegou no pão e partiu, eles reconheceram que aquele estranho era o próprio Jesus”, recordou, para logo acrescentar: “Nós estamos a viver exatamente isso. Entrámos, sentámo-nos à volta da mesa e daqui a bocadinho vamos pegar no pão, partir, e esse pão e esse vinho vão se tornar o corpo e o sangue de Jesus.”

Com uma linguagem próxima e acessível, o bispo de Setúbal desafiou os presentes a não ficarem presos ao ciclo de domingos sem que a fé transborde para o quotidiano. “O que é que devia acontecer no fim da missa? Cada um devia interpelar as pessoas para saber se elas são as únicas que não sabem o que aconteceu a Jesus”, disse, resumindo o apelo evangélico a um testemunho concreto: “Porquê que eu estou feliz? Porque Cristo está vivo.”

A homilia tocou também na questão da paz, a partir do recente magistério do Papa Leão. D. Américo recordou que, mesmo sem poder resolver os conflitos armados no mundo — da Ucrânia ao Médio Oriente, passando por África —, cada crente pode começar pela paz mais próxima. “Nós podemos fazer a paz cortando na má língua”, afirmou citando o Papa Leão XIV, apelando a “uma linguagem desarmada e desarmante” como fez o Papa. Com uma comparação doméstica e direta, observou que “os cãezinhos e os gatinhos não magoam quem os ama”, ao contrário dos seres humanos, “capazes de magoar quem nos ama — e principalmente com as palavras.”

 

Após a missa, D. Américo encontrou-se com o grupo Fé e Luz da paróquia, composto por jovens com deficiência e pelos seus cuidadores. O cardeal ouviu as suas preocupações, agradeceu o trabalho desenvolvido e sublinhou a mudança de paradigma que a sociedade ainda precisa de concretizar. “Fraternidade universal é acolher o outro como ele é, mesmo com as suas deficiências”, afirmou. “Temos de nos converter à ideia de que a deficiência não é um peso, é uma característica. Temos de criar condições para ajudar estas famílias na sociedade.”

O bispo encerrou os compromissos do dia com visitas a três paroquianos doentes acompanhados semanalmente em casa por voluntários da paróquia, que lhes levam a comunhão e a companhia. Um gesto discreto, mas que D. Américo quis fazer questão de incluir no seu percurso.

“Rasgar caminhos novos para a evangelização”

A visita pastoral teve início formal na véspera, com uma sessão do Conselho Pastoral Paroquial onde o cardeal expôs a sua visão para a evangelização nos dias de hoje. “Temos de ser capazes de ir ao encontro dos outros, e é para isso que serve a visita pastoral”, disse. “Temos de rasgar caminhos novos para a evangelização.” Destacou também a urgência da catequese de adultos como uma das prioridades absolutas da comunidade, alertando para um paradoxo da sinodalidade: “Se eu chego e pergunto a opinião às pessoas, se não sabem do que falam, não vão ter capacidade de ter uma opinião.”

À tarde, após uma visita à Casa do Parque — residência para estudantes universitários — e às instalações do Agrupamento 543 dos escuteiros, D. Américo reuniu-se com os catequistas. “O exemplo do catequista é fundamental para a criança ganhar hábitos, seja de oração, seja da importância de certos ritos, até porque muitos não têm sequer esse exemplo em casa”, afirmou, pedindo que cada catequista deixe “a semente bem direitinha, para que um dia mais tarde eles possam ter guardado essas luzes.”

O primeiro dia encerrou com um encontro com os jovens da paróquia, num jantar partilhado onde D. Américo foi direto sobre a missão da Igreja e os seus limites. “Todos, todos, todos significa que todos podem entrar na Igreja. Se não os deixarmos entrar, há pessoas que nunca ouvirão falar de Cristo.” Mas advertiu igualmente para o risco do testemunho excessivo: “Por vezes encontro jovens com um testemunho tão radical de Cristo que afastam as pessoas. E nós temos de atrair com mel, com simpatia.”

Nos dias que se seguem, até 27 de abril, D. Américo continuará a percorrer a paróquia da Cova da Piedade, ao encontro de outras comunidades, grupos e realidades que compõem esta comunidade. Uma visita que, como os primeiros dois dias já deixaram antever, se quer de escuta antes de tudo.

 

Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna

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