Papa Francisco “marcou o coração da humanidade de forma profunda”

Abr 21, 2026

 

Um ano depois da morte do Papa Francisco, a paróquia da Cova da Piedade reuniu-se esta terça-feira à volta do altar para dar graças a Deus pelo seu pontificado. O Cardeal D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, presidiu à eucaristia de ação de graças na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, rodeado de vários sacerdotes diocesanos e de uma assembleia numerosa que veio fazer memória do papa argentino.

Na homilia, D. Américo começou por confessar a estranheza que este primeiro aniversário provoca. “Estou assim no meio da ponte. Tanto parece que este ano passou muito rápido como parece que não passou. É um ano estranho.”

O cardeal recordou o momento em que soube da morte do Papa, numa cena marcada pela surpresa e pela incredulidade. Estava a tomar o pequeno-almoço com o Patriarca Emérito D. Manuel Clemente quando recebeu a notícia por telefone. “Eu disse alto: o Papa morreu! E o Dom Manuel Clemente estava a comer não sei o quê e deixou-o cair. Eu não acreditei, mas depois ligámos a televisão e estava a passar nos rodapés.”

O choque foi ainda maior porque, no domingo anterior, Francisco havia feito um esforço visível para ir à varanda de São Pedro e circular pela praça, num gesto que poucos souberam ler no momento. “Mal sabíamos nós que era a despedida do seu pontificado”, disse D. Américo, querendo dar graças precisamente por “esses gestos, por essas palavras, por esse esforço, por essa vida.”

O bispo traçou um paralelo com a resignação do Papa Bento XVI, há doze anos, também ela recebida com estupefação generalizada. Para D. Américo, ambos os momentos revelam a mesma verdade: “São as surpresas de Deus. Deus surpreende-nos. O melhor é colocar tudo nas mãos de Deus.”

 

«Somos todos, todos, todos irmãos»

Na reflexão sobre o legado de Francisco, o cardeal foi direto ao núcleo da mensagem que o papa repetiu ao longo de todo o seu pontificado, com particular intensidade na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, em 2023. “A sua preocupação de nos lembrarmos que somos todos, todos, todos irmãos. Cada um com a sua panca, cada um com as suas coisas, cada um com as suas qualidades, cada um com os seus defeitos, cada um com os seus pecados, cada um com as suas virtudes — mas isso não apaga que somos e que nos devemos descobrir cada vez mais e verdadeiramente irmãos.”

É por isto que o Bispo de Setúbal defende que o Papa Francisco “marcou o coração da humanidade de forma tão profunda que sentimos a necessidade de aqui estar, um ano depois, a dizer obrigado, para dizer obrigado a Deus por nos ter enviado o nosso querido Papa Francisco e para cumprirmos aquilo que ele nos pediu”, que rezássemos por ele.

D. Américo garantiu que, a título pessoal, prometeu ao Papa Francisco que rezaria por ele. “Hoje, eu e cada um de vocês estamos aqui para lhe retribuir essa oração, tendo a certeza absoluta que ele não para de chatear Deus lá em cima — deve estar sempre a interceder e a rezar por todos, todos, todos.”

A assembleia foi também convidada a rezar pelo Papa Leão XIV, sucessor de Francisco, que se encontra em visita à África — estando neste momento na Guiné Equatorial. Com o humor afectuoso que o caracteriza, D. Américo pediu a intercessão de Francisco junto do seu sucessor: “Que o Francisco interceda para que o Leão dê umas mordidelas, se for preciso, e faça uns rugidos, porque há aí malta que precisa levar uns rugidos e umas mordidelas a ver se se põe no lugar.” Mas logo a seguir, em tom mais sério: “Tem dito que não tem medo de anunciar o Evangelho. É exatamente isso que o Senhor nos pede.”

A eucaristia desta terça-feira insere-se na visita pastoral que D. Américo Aguiar está a realizar à paróquia da Cova da Piedade, iniciada no passado domingo e que se prolonga até 27 de abril. Nos dias anteriores, o cardeal percorreu hospitais, lares, escolas, centros de saúde e associações recreativas e culturais do território, encontrando aquilo que descreveu como “o Portugal real” — “muito melhor que o Portugal das notícias”, disse, numa nota de optimismo sobre a dedicação silenciosa de tantos homens e mulheres ao serviço das suas comunidades.

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