“O mundo está à espera de cada um de vocês”, diz Cardeal D. Américo Aguiar aos finalistas

Mai 4, 2026

 

Sob o céu aberto do Parque da Paz, em Almada, centenas de estudantes universitários finalistas e as suas famílias reuniram-se ontem, dia 3 de maio, para uma eucaristia de bênção presidida pelo Cardeal D. Américo Aguiar, bispo da Diocese de Setúbal. O momento celebrativo, organizado pela Pastoral Universitária da Diocese de Setúbal com o apoio logístico da Câmara Municipal de Almada, contou com a participação de alunos das universidades NOVA FCT, Egas Moniz e Instituto Piaget.

A celebração foi, nas palavras do próprio cardeal, um acto de gratidão. “Estamos aqui para agradecer. Para agradecer a todos aqueles que fizeram sacrifícios para estarmos aqui agora a dar graças a Deus por serem finalistas”, afirmou D. Américo logo no início da homilia, num tom descontraído e próximo que rapidamente conquistou o auditório jovem.

Num dos momentos mais marcantes do discurso, o Cardeal fez uma crítica directa ao modelo actual de acesso ao ensino superior, defendendo que o sistema devia permitir que cada jovem pudesse seguir verdadeiramente a sua vocação — e não apenas o curso para o qual tem média. “Não acho bem os numerus clausus de muitas coisas. Não acho bem que uma pessoa que sente ser médico tenha que ter uma média de 35 pontos”, afirmou, provocando reacção entre os presentes. Mas fez questão de equilibrar a afirmação: “Também não é um convite aos preguiçosos.”

O prelado revelou que, numa visita recente a estudantes universitários, questionou os jovens sobre se estavam no curso da sua vocação. “Uma percentagem muito significativa não estava no curso que sentia ser a sua vocação”, contou, sublinhando que estudar sem vocação é um fardo pesado. “Estudar já é um sacrifício. Estudar uma coisa que não se gosta é obra. Estudar uma que não sente ser a sua vocação é martírio.”

 

Com a naturalidade que o caracteriza, D. Américo desafiou os finalistas a não encerrar este dia como o fim de um ciclo, mas como o começo de uma missão. “Deus tem um sonho para todos e para cada um. Nós temos é que descobrir qual é esse sonho”, disse, acrescentando que, quando essa descoberta acontece, “não há disciplina nenhuma, não há professor nenhum, não há obstáculo nenhum que nos pare.”

O Cardeal também não evitou o tema da precariedade laboral que afecta a geração dos presentes. Reconheceu que a juventude portuguesa enfrenta “um problemazinho de emprego” e “outro problemazinho de precariedade”, mas apelou à coragem: “Não ter medo. Seja o que Deus quiser e será uma coisa boa. Portanto, agarrar o amanhã, agarrar o futuro com toda a confiança.”

Numa passagem bem-humorada, o prelado observou a forma como os jovens de hoje se relacionam com a identidade geográfica. “Quando eu perguntava a alguém com idade onde é que é, a pessoa respondia imediatamente: do Porto, de Braga, da Almada, do Seixal. Agora, pergunto à malta nova onde é que é, e a pessoa gagueja”, brincou, para logo concluir com elogio: “Os meus amigos, para além de serem geração Erasmus, são cidadãos do mundo. E isso não é nada mau, pelo contrário.”

 

D. Américo valorizou tanto os que sonham percorrer o mundo como os que pretendem “construir a sua vida e ajudar a construir um Portugal mais moderno, melhor e mais fraterno”, deixando claro que nenhum dos caminhos é superior ao outro.

Num tempo marcado pela divisão nas redes sociais, o bispo foi directo: “Estamos num tempo em que o ambiente digital é de extrema cobardia uns com os outros. Nós matamo-nos uns aos outros através do teclado.” E apelou à responsabilidade individual: “Façam o favor de começar a espalhar a paz à vossa volta.”

O momento mais participativo — e mais descontraído — da homilia chegou perto do fim, quando D. Américo pediu aos jovens que olhassem para o lado. Um exercício simples para transmitir uma mensagem profunda. “O rosto de Cristo é diferente, é gordo, é magro, é mulher, é homem, é branco, é preto, é amarelo, é às bolinhas”, disse o Cardeal, citando o apelo do Papa João Paulo II a dar testemunho do rosto de Cristo no quotidiano. “Nós somos todos irmãos. Todos, todos, todos. E quem é diferente não é um problema, é uma oportunidade, é uma riqueza”, defendeu.

A encerrar, e dirigindo-se directamente aos finalistas, D. Américo foi breve e certeiro: “Coloquem no coração de Deus os vossos sonhos. Que Deus vos abençoe e que vos fortaleça.”

 

Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna

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