Caríssimos irmãos e irmãs,
querida família do Professor Eugénio Fonseca,
irmãos no episcopado e no sacerdócio,
amigos, representantes da Cáritas, das instituições e comunidades a que dedicou a sua vida:
Reunimo-nos hoje com o coração apertado pela dor e pela saudade. Mas reunimo-nos, antes de tudo, como cristãos. E, por isso, reunimo-nos na esperança.
Não estamos aqui apenas para recordar uma vida que terminou. Estamos aqui para dar graças a Deus por uma vida que foi dom, para confiar o nosso irmão Eugénio à misericórdia do Pai e para deixar que a Palavra de Deus ilumine aquilo que ele viveu e aquilo que agora somos chamados a continuar.
«A vida dos justos está nas mãos de Deus»
A primeira leitura fala-nos do justo.
E talvez esta seja uma palavra particularmente feliz para nos ajudar a olhar para o Eugénio.
O justo, na Sagrada Escritura, não é aquele que se considera perfeito. Não é alguém sem fragilidades ou limites. O justo é aquele que procura colocar a sua vida nas mãos de Deus e que, precisamente por isso, não consegue ficar indiferente à vida dos seus irmãos.
Ser justo é ter fome e sede de justiça.
É reconhecer a dignidade de cada pessoa.
É não passar ao lado daquele que sofre.
É deixar-se incomodar pela pobreza, pela exclusão, pela solidão e pela injustiça.
É transformar a fé em responsabilidade.
E quantas vezes vimos isto na vida do Eugénio.
Foi um leigo cristão que não viveu a fé como uma realidade privada, fechada ou confortável. Compreendeu que ser batizado significa ser enviado; que pertencer à Igreja significa estar disponível para servir; e que amar a Deus implica necessariamente deixar-se tocar pelas feridas dos irmãos.
Uma pequena história que diz uma vida inteira
Há uma história que o Monsenhor Lobato recorda e que hoje ganha para nós uma força muito especial.
Eugénio teria então apenas 10 ou 12 anos.
O jovem Padre Lobato dirigira-se ao Cemitério da Piedade para realizar um funeral. Estava prevista apenas uma celebração da Palavra. Porém, surgiu inesperadamente o pedido para que fosse celebrada a Eucaristia.
O sacerdote não tinha consigo aquilo que era necessário para a celebração.
Eugénio encontrava-se na capela.
Percebeu o que se passava. Desapareceu e, pouco depois, regressou com tudo aquilo de que o padre precisava para celebrar a Eucaristia.
É uma história simples. Quase uma história de infância.
Mas há pequenas histórias que, vistas à distância de uma vida inteira, parecem conter já tudo aquilo que uma pessoa viria a ser.
Naquele rapaz encontramos muito do Eugénio que todos conhecemos:
Estava atento.
Percebeu que alguma coisa fazia falta.
Não ficou à espera que outro resolvesse.
E foi.
Talvez esteja aqui, desde muito cedo, aquilo a que poderíamos chamar o ADN do Eugénio: a sensibilidade para perceber o que faltava, a atenção às necessidades de quem se cruzava no seu caminho e, sobretudo, a capacidade de passar imediatamente da atenção à ação.
Não bastava perceber.
Era preciso fazer.
Não bastava reconhecer um problema.
Era preciso procurar uma resposta.
Não bastava comover-se.
Era preciso comprometer-se.
E, se pensarmos bem, aquele menino que correu para procurar o necessário para que uma Eucaristia pudesse ser celebrada é o mesmo homem que, ao longo de décadas, se pôs a caminho tantas vezes quando percebeu que faltava alguma coisa a alguém.
Quando faltava pão.
Quando faltava dignidade.
Quando faltava uma resposta social.
Quando faltava uma voz que defendesse quem não conseguia fazer-se ouvir.
Quando faltava mobilizar vontades.
Quando era necessário lembrar à Igreja, às instituições ou à sociedade que havia alguém que não podia ficar esquecido.
Um leigo a quem muito foi confiado
Foram muitas as missões que Eugénio recebeu ao longo da sua vida.
Missões que a Igreja de Setúbal lhe confiou.
Missões que a Igreja em Portugal lhe confiou.
Missões que Portugal lhe confiou.
Eugénio acolheu-as não como lugares de prestígio, mas como lugares de responsabilidade e de serviço.
Fê-lo na Cáritas Diocesana de Setúbal.
Fê-lo na Cáritas Portuguesa.
Fê-lo nas muitas causas sociais e responsabilidades públicas a que emprestou a inteligência, a palavra, a inquietação e o coração.
E fê-lo também através do voluntariado, dimensão tão importante da sua vida e do seu entendimento da sociedade.
Na Confederação Portuguesa do Voluntariado, a que presidia, encontramos a mesma convicção: cada pessoa tem alguma coisa para oferecer e uma sociedade torna-se verdadeiramente humana quando a gratuidade, a participação e o serviço fazem parte da sua maneira de viver.
Para Eugénio, o voluntariado não era apenas uma forma de organização da sociedade civil. Era cidadania. Era responsabilidade. Era fraternidade.
O voluntário é alguém que aceita gastar gratuitamente um pouco da sua vida para que a vida de outro possa ser um pouco melhor.
Eugénio acreditava nisso.
E viveu assim.
Um filho espiritual de D. Manuel Martins
Mas há uma dimensão da sua vida que, nesta Igreja de Setúbal, não podemos deixar de recordar de modo muito especial: a sua relação com D. Manuel Martins, nosso primeiro Bispo.
Não foi apenas uma relação institucional.
Não foi somente a relação entre um Bispo e um leigo comprometido na vida da Diocese.
Foi uma relação profundamente filial.
Eugénio reconhecia em D. Manuel um pai, um pastor, um mestre e uma referência que marcou profundamente a sua maneira de compreender a Igreja, a responsabilidade dos cristãos na sociedade e, sobretudo, a atenção aos pobres e àqueles cuja dignidade tantas vezes é esquecida.
Muito daquilo que Eugénio foi e fez não se compreende inteiramente sem esta ligação.
Com D. Manuel aprendeu — e depois testemunhou pela própria vida — que a Igreja não pode passar ao lado das dores concretas das pessoas; que a caridade não pode ser separada da justiça; que os pobres não são um assunto entre tantos outros na missão da Igreja; e que a fé, quando é verdadeiramente acolhida, compromete a nossa vida.
Por isso, ganha um significado tão especial o facto de Eugénio ter assumido recentemente a responsabilidade de presidir à Fundação D. Manuel Martins.
Havia algo de profundamente filial nessa missão.
Era como se, numa etapa madura da sua própria vida, lhe tivesse sido confiado guardar a memória de um pai e ajudar a transmitir o seu legado às novas gerações.
Eugénio estava empenhado na preparação das comemorações dos 100 anos do nascimento de D. Manuel Martins, primeiro Bispo de Setúbal.
Queria certamente que esse centenário não fosse apenas a evocação de uma figura do passado, mas uma oportunidade para voltarmos a perguntar à Igreja e à sociedade de hoje:
Onde estão hoje os pobres?
Onde estão hoje os esquecidos?
Que injustiças continuam a exigir de nós uma palavra?
Onde somos chamados a estar presentes?
Há aqui uma imagem que hoje nos toca particularmente:
o filho preparava-se para celebrar os cem anos do nascimento daquele que reconhecia como pai e mestre.
Não chegou a concluir essa missão entre nós.
Agora, essa missão fica também nas nossas mãos.
«Bem-aventurados…»
E chegamos ao Evangelho.
Escutamos Jesus proclamar as Bem-aventuranças.
As Bem-aventuranças não são uma teoria sobre a felicidade.
São o retrato de Jesus.
E são o caminho que Jesus propõe a cada discípulo.
Sem fazermos canonizações humanas — porque todos somos pecadores, todos temos fragilidades e todos necessitamos da misericórdia de Deus — podemos reconhecer hoje, com gratidão, que Eugénio Fonseca foi um leigo que, de facto, personificou muitas das Bem-aventuranças nas tantas missões que lhe foram confiadas.
«Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça.»
Eugénio teve esta fome.
Inquietava-o a desigualdade. Inquietava-o a pobreza. Inquietava-o a exclusão. Inquietava-o tudo aquilo que diminuía a dignidade de uma pessoa.
«Bem-aventurados os misericordiosos.»
A Cáritas marcou profundamente a sua vida.
E Cáritas significa amor.
Um amor que se aproxima, que escuta, que acolhe e que procura respostas concretas para sofrimentos concretos.
«Bem-aventurados os que choram.»
Bem-aventurados aqueles que não perderam a capacidade de chorar com quem chora.
Aqueles cujo coração não se tornou indiferente perante a dor dos outros.
«Bem-aventurados os que promovem a paz.»
Também aqui reconhecemos o Eugénio: na construção de pontes, no diálogo, na capacidade de convocar diferentes pessoas e responsabilidades para a construção do bem comum.
E talvez pudéssemos acrescentar:
bem-aventurados aqueles que não se resignam.
Aqueles que não aceitam como inevitável a pobreza.
Que não se habituam à injustiça.
Que não conseguem olhar para o sofrimento e dizer: «não é comigo».
Eugénio foi muitas vezes uma voz inquieta. Talvez, algumas vezes, uma voz incómoda.
Mas uma Igreja que leva verdadeiramente a sério as Bem-aventuranças precisa de homens e mulheres que não a deixem acomodar-se.
Talvez tenha sido também isso que aprendeu junto de D. Manuel.
Não passar ao lado
E talvez agora possamos juntar tudo.
O justo da primeira leitura.
As Bem-aventuranças do Evangelho.
A Cáritas.
O voluntariado.
D. Manuel Martins.
E aquele menino no Cemitério da Piedade.
Há uma expressão que atravessa tudo isto:
não passar ao lado.
O justo não passa ao lado.
O misericordioso não passa ao lado.
Quem tem fome e sede de justiça não passa ao lado.
Quem constrói a paz não passa ao lado.
O voluntário não passa ao lado.
O cristão não pode passar ao lado.
Eugénio procurou não passar ao lado.
Talvez possamos resumir muito da sua vida naquela atitude tão simples daquele menino:
perceber o que falta, levantar-se e ir procurar uma resposta.
Foi assim a sua maneira de servir.
Foi assim a sua maneira de estar na Igreja.
Foi assim a sua maneira de estar em Portugal.
Foi assim, afinal, a sua maneira de procurar viver as Bem-aventuranças.
Hoje, entregamo-lo à misericórdia
Mas hoje as nossas palavras tornam-se pequenas.
Eugénio já não precisa dos nossos títulos, dos nossos cargos ou dos nossos elogios.
Precisa — como todos nós precisaremos — da misericórdia de Deus.
Por isso, esta Eucaristia não é apenas uma homenagem.
É, antes de tudo, uma oração.
Senhor, recebe o Eugénio.
Recebe tudo aquilo que na sua vida foi entrega, serviço, inquietação pelo bem, procura da justiça e amor aos irmãos.
Recebe também as suas fragilidades, os seus limites, aquilo que ficou incompleto e aquilo que só Tu conheces.
Purifica-o na Tua misericórdia.
E acolhe-o na Tua paz.
À sua família, aos seus amigos, à Cáritas, à Confederação Portuguesa do Voluntariado, à Fundação D. Manuel Martins, à Igreja de Setúbal e a todos aqueles que hoje sentem a sua ausência, quero manifestar a minha profunda proximidade e comunhão.
A saudade permanecerá.
Mas, para um cristão, a saudade não tem a última palavra.
A última palavra pertence a Deus.
E a palavra de Deus é Vida.
Uma missão que fica nas nossas mãos
Talvez possamos pensar que terminaram as missões do Professor Eugénio Fonseca.
Permitam-me pensar de outra maneira.
Terminou a forma como, entre nós, as cumpria.
Mas fica agora uma missão para todos nós.
Não deixar cair aquilo por que ele trabalhou.
Continuar a olhar para os pobres.
Continuar a defender a dignidade de cada pessoa.
Continuar a promover o voluntariado e a gratuidade.
Continuar a construir uma Igreja próxima.
Continuar a recordar que a caridade nunca dispensa a justiça.
Continuar a não passar ao lado.
E continuar também aquela missão que Eugénio tinha tão especialmente entre mãos: honrar e transmitir o legado de D. Manuel Martins.
Ao celebrarmos o centenário do nascimento do nosso primeiro Bispo, recordaremos inevitavelmente também este seu filho espiritual, que tanto desejava preparar essa celebração.
Talvez a melhor homenagem que possamos prestar aos dois seja não transformar a sua memória num monumento.
Mas fazer dela uma responsabilidade.
Hoje entregamos Eugénio Fonseca nas mãos de Deus.
Nas mãos daquele Deus de quem a Escritura nos diz:
«A vida dos justos está nas mãos de Deus.»
E fazemo-lo agarrados à promessa de Jesus:
«Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.»
É nessa misericórdia que confiamos.
É nessa misericórdia que entregamos o nosso irmão Eugénio.
Obrigado, Eugénio.
Obrigado pela Igreja que ajudaste a construir.
Obrigado por tantas vezes nos recordares aqueles que não podíamos esquecer.
Obrigado pelo serviço à Igreja de Setúbal, à Igreja em Portugal e a Portugal.
Obrigado pela fidelidade à herança de D. Manuel.
E obrigado por esse testemunho tão simples e tão exigente que nos deixas:
perceber, levantar-se, servir e não passar ao lado.
Que o Senhor te acolha na Sua paz.
Até Deus.
+ Cardeal Américo, Bispo de Setúbal




