Caríssimos irmãos e irmãs, caros formadores e famílias, permitam-me hoje uma palavra muito especialmente dirigida a vós, queridos seminaristas.
É uma alegria encontrar-vos aqui outra vez. Olho para esta comunidade e reconheço rostos, histórias e caminhos que já vamos fazendo juntos. Alguns começam mais um ano nesta casa e este ano temos também dois rostos novos. A vós, que agora chegais, quero dizer simplesmente: bem-vindos. É muito bom ter-vos aqui.
Somos agora 13. Que número exigente e provocador… Mas não somos apenas mais dois do que no ano passado. Somos uma comunidade renovada. Quando alguém chega, todos somos chamados a abrir espaço, a acolher e a aprender novamente a caminhar juntos. E três de vós vêm de dioceses irmãs, o que torna ainda mais visível uma coisa muito simples: vimos de lugares e histórias diferentes, mas aqui aprendemos que ninguém faz este caminho sozinho.
É muito bonito começarmos precisamente hoje, na Natividade de Nossa Senhora. Celebramos um nascimento. Uma vida que começa discretamente, sem ruído, sem que ninguém pudesse imaginar aquilo que Deus iria fazer através daquela menina chamada Maria.
A primeira leitura fala-nos também de Belém, «pequena entre as cidades de Judá». É precisamente do pequeno que Deus faz nascer algo de grande. Deus parece gostar destes começos discretos.
Talvez a vocação de cada um de vós tenha começado assim. Com uma pergunta, uma inquietação, uma conversa, uma pessoa, uma celebração, uma experiência de serviço, uma palavra de Jesus que ficou a trabalhar cá dentro. E provavelmente, mesmo nesses primeiros passos, havia alguém: alguém que vos falou de Jesus, alguém que vos escutou, um padre que vos acompanhou, uma família ou uma comunidade que rezou por vós.
Deus chama cada um pelo nome, mas muitas vezes faz chegar a sua voz através dos outros.
Hoje sois 13. É uma alegria. Mas não quero olhar para vós como um número. Diante de Deus há 13 nomes, 13 histórias, 13 famílias, 13 percursos e 13 maneiras diferentes de ter chegado aqui.
O Evangelho apresenta-nos aquela longa genealogia de Jesus. Uma sucessão de nomes, gerações e histórias. E nem todas são histórias perfeitas. Há grandezas e fragilidades, fidelidades e pecados. Deus não esperou por uma história perfeita para entrar no mundo. Entrou naquela história concreta e foi por dentro dela que chegou a José, a Maria e a Jesus.
Também a vossa vocação acontece dentro da vossa história. Deus não vos chamou apesar da vossa história; chamou-vos dentro dela. Com os vossos dons e qualidades, mas também com as dúvidas, os limites e as fragilidades.
Por isso, não entrem neste novo ano preocupados em parecer o seminarista perfeito. Ele não existe. Entrem preocupados em ser verdadeiros diante de Deus, dos formadores, dos irmãos e de vós próprios.
O Seminário não é uma fábrica de padres. É um lugar de discernimento. Um lugar onde cada um pode perguntar com liberdade: «Senhor, é mesmo isto que queres de mim? Como queres que eu viva aquilo que me pedes?»
Mas é também uma escola de fraternidade. Porque, se Deus quiser, um dia sereis enviados para servir comunidades concretas. E muito do que significa ser padre aprende-se também aqui: na capacidade de escutar, de ter paciência, de pedir desculpa, de perdoar, de cuidar do irmão e de se alegrar com o bem do outro.
Aos dois que chegam, digo particularmente: não tenham medo de não saber tudo. Chegam aqui para caminhar, não para provar nada a ninguém. E aos que já cá estão há mais tempo: acolham-nos, ajudem-nos e deixem também que a novidade deles vos faça bem.
E cuidado com a rotina. Podemos habituar-nos ao Seminário, aos horários, às aulas, à oração, à liturgia e à pastoral. Podemos até habituar-nos a falar de Jesus. O que não podemos é habituar-nos a Jesus.
Há uma palavra no Evangelho de hoje que gostaria que nos acompanhasse: «Não temas». José também não percebeu tudo. Também teve de deixar que Deus alterasse os seus planos. Mas confiou.
Talvez este ano Deus tenha também de mexer em algumas das vossas certezas, trabalhar algumas fragilidades, corrigir alguma coisa e confirmar outras. Deixem-No fazer. A formação não serve apenas para aprender coisas sobre Deus e sobre a Igreja. Serve para permitir que Cristo vá tomando forma em nós.
E se hoje estes 13 podem fazer este caminho, é porque há muita gente que o torna possível. Quero, por isso, agradecer à Obra do Bom Pastor, aos nossos padres e às paróquias, às famílias, aos benfeitores e doadores, a todos os que rezam e a todos os que, com a sua generosidade, nos permitem “alimentar” o nosso Seminário.
E alimentar o Seminário é também alimentar vocações. É criar condições para que estes jovens possam escutar, discernir e responder em liberdade. Cada oração, cada gesto de proximidade, cada oferta diz-lhes, de alguma maneira: «A tua vocação importa-nos. Queremos ajudar-te a descobrir aquilo que Deus quer de ti.»
Queridos seminaristas, nunca esqueçais que há muita gente a caminhar convosco, mesmo sem aparecer. E aquilo que hoje recebeis gratuitamente da Igreja sois chamados, amanhã, a devolver gratuitamente no serviço ao povo de Deus.
Somos 13. Aos olhos do mundo talvez seja pouco. Mas a liturgia de hoje recorda-nos que Deus nunca teve medo dos números pequenos. Belém era pequena. Maria era pequena aos olhos do mundo. E Deus fez maravilhas.
Mais importante do que sermos 13 é que cada um destes 13 se deixe verdadeiramente formar por Cristo: homens livres, felizes, próximos das pessoas, capazes de escutar e disponíveis para servir.
Começamos este ano com Maria. Peçamos-lhe que nos ensine a escutar, a confiar e a dizer «sim», um dia de cada vez.
E deixo-vos uma pergunta para este novo ano: «Senhor, hoje, o que queres fazer em mim e através de mim?»
Se tivermos a coragem de fazer esta pergunta todos os dias e de escutar verdadeiramente a resposta, será certamente um bom ano de Seminário.
Ámen.
Cardeal Américo Aguiar
+ Bispo de Setúbal




