Queridos irmãos e irmãs:
Ao começarmos este novo ano pastoral, a Diocese de Getafe reúne-nos sob uma palavra que contém um chamamento e uma missão: «Enviados».
Estamos aqui sacerdotes e diáconos, pessoas consagradas e fiéis leigos; catequistas, educadores, voluntários, famílias, jovens e tantos homens e mulheres comprometidos na vida das paróquias e da diocese. Temos vocações, ministérios e responsabilidades diferentes, mas partilhamos o mesmo Baptismo e a mesma missão. Todos fomos chamados por Cristo e enviados a anunciar o Evangelho.
A Palavra de Deus que acabámos de escutar ajuda-nos a compreender como devemos viver este envio.
Há uma frase de Job que pode resumir toda uma vida espiritual: «Eu conhecia-te só de ouvir falar, mas agora os meus olhos viram-te».
Job não pronuncia estas palavras porque tenha encontrado uma explicação simples para o seu sofrimento. Deus não lhe dá uma resposta capaz de resolver todas as suas interrogações. Concede-lhe algo maior: encontrar-se com Ele. Job descobre que a fé não consiste em compreender tudo, mas em confiar n’Aquele que sustenta tudo.
Também nós podemos saber muitas coisas acerca de Deus, falar d’Ele, ensinar a doutrina, organizar actividades pastorais e participar generosamente na vida da Igreja. Mas existe sempre o perigo de conhecer Deus somente «de ouvir falar».
Podemos falar muito de Deus e reservar pouco tempo para estar com Deus. Podemos multiplicar as reuniões, os projectos, as catequeses e as celebrações, e esquecer que a missão nasce sempre do encontro com o Senhor.
Por isso, precisamos de voltar à oração humilde do salmo: «Ensina-me, Senhor». Ensina-me de novo. Ensina-me através da tua Palavra, das pessoas que puseste ao meu lado, dos meus limites e também daquilo que não compreendo.
No Evangelho, os setenta e dois discípulos regressam cheios de entusiasmo. A missão foi bem-sucedida: até os demónios se lhes submetem. Jesus não despreza a sua alegria, mas purifica-a: «Não vos alegreis porque os espíritos se vos submetem; alegrai-vos porque os vossos nomes estão escritos no céu».
Esta palavra é muito necessária no início de um ano pastoral. Também nós podemos sentir a tentação de medir a fecundidade da missão pelos seus resultados: o número de participantes, as actividades realizadas, a repercussão pública, as visualizações, os seguidores ou o sucesso das nossas iniciativas.
No entanto, Jesus recorda-nos que a nossa alegria mais profunda não nasce daquilo que conseguimos, mas de sabermo-nos conhecidos e amados pelo Pai.
Antes de sermos sacerdotes, consagrados, catequistas, voluntários ou responsáveis pastorais, somos filhos. Antes de o nosso nome aparecer num programa, numa convocatória, numa notícia ou num ecrã, está escrito no coração de Deus.
Esta certeza torna-nos livres. Se o sucesso não é a nossa identidade, também o fracasso não pode destruir-nos. Se o reconhecimento não é o nosso alimento, a indiferença não nos paralisa. Podemos servir com alegria, semear sem ansiedade e confiar que Deus faz crescer até aquilo que nós não chegaremos a ver.
Contemplamo-lo também na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa. Vimos uma multidão de jovens, mas o verdadeiro acontecimento aconteceu em cada rosto e em cada coração. E aquela Jornada foi possível graças a sacerdotes, consagrados, famílias, catequistas, voluntários, jovens e comunidades inteiras que ofereceram o seu tempo e as suas capacidades.
Foi especialmente significativa a extraordinária participação da Igreja em Espanha e o seu apoio incondicional. Aquela experiência mostrou-nos que a missão dá fruto quando caminhamos juntos e quando cada vocação põe os seus dons ao serviço da comunhão.
Jesus enche-se de júbilo porque o Pai revela os mistérios do Reino aos simples. A simplicidade evangélica não é falta de inteligência. É a humildade de quem não pretende encerrar Deus nas suas categorias nem transformar a pastoral numa obra própria.
Job precisou de atravessar o sofrimento para passar do conhecimento «de ouvir falar» à experiência de um olhar transformado. Os discípulos precisaram que Jesus purificasse o seu entusiasmo para compreender qual era a verdadeira razão da sua alegria.
Também nós precisamos de escutar hoje esta palavra. Somos enviados, mas não somos proprietários da missão. A missão pertence a Cristo. Nós somos seus servidores.
«Enviados» não significa simplesmente receber uma tarefa. Significa levar uma presença. Significa sair ao encontro da criança e do jovem, da família que atravessa uma dificuldade, do idoso que vive sozinho, do doente, daquele que deixou de acreditar e daquele que nunca escutou verdadeiramente o Evangelho.
Cada um deverá fazê-lo segundo a sua vocação. O sacerdote servirá o seu povo através da Palavra, dos sacramentos e da entrega pastoral. A pessoa consagrada será sinal de que Deus basta e de que toda a vida lhe pertence. Os pais anunciarão o Evangelho no seu lar. Os catequistas acompanharão o crescimento da fé. Os educadores servirão a verdade e a dignidade de cada aluno. Os jovens evangelizarão outros jovens. Os fiéis leigos tornarão Cristo presente na família, no trabalho, na cultura e na vida pública.
Ninguém pode fazer tudo, mas ninguém está dispensado da missão.
Peçamos, portanto, ao Senhor que purifique o nosso olhar e o nosso serviço; que não procuremos dominar, mas acompanhar; que não nos preocupemos tanto em ser relevantes como em ser fiéis; e que, no meio de tantas palavras, tecnologias e mensagens, ajudemos cada pessoa a descobrir a única notícia que pode verdadeiramente transformar a sua vida: que o seu nome está escrito no céu, que Deus a conhece, a chama e a ama.
Então poderemos começar este ano pastoral não somente com novos programas, mas com um coração renovado. E poderemos dizer com Job: «Antes conhecia-te de ouvir falar; agora os meus olhos viram-te».
Ámen.




