Por que razão a nossa missão é hoje mais necessária do que nunca?

Out 3, 2026

Evangelizar na aldeia algorítmica à luz da JMJ Lisboa 2023

Conferência para o encontro diocesano Enviados

Abertura do ano pastoral 2026-2027 da Diocese de Getafe

Queridos irmãos e irmãs:

Quero começar por agradecer a D. Ginés o convite e, a todos vós, o acolhimento e também a pergunta que me propusestes: por que razão a nossa missão é hoje mais necessária do que nunca?

Reúne-nos «Enviados», o grande encontro com que a Diocese de Getafe quer começar o ano pastoral 2026-2027. O próprio nome já nos situa no essencial. Aqui estamos sacerdotes e diáconos, pessoas consagradas e fiéis leigos, catequistas, educadores, voluntários, famílias, jovens e tantos responsáveis pela vida diocesana e paroquial. São vocações, ministérios e responsabilidades diferentes, mas um mesmo Baptismo e uma mesma missão: fomos chamados por Cristo e enviados juntos a anunciar o Evangelho.

Antes de avançar, permitam-me uma palavra de profunda gratidão. Quero agradecer à Igreja que peregrina em Espanha a extraordinária participação e o apoio incondicional que prestou à JMJ Lisboa 2023. As dioceses, paróquias, movimentos, comunidades, sacerdotes, consagrados, famílias, voluntários e tantos milhares de jovens espanhóis estiveram ao nosso lado com generosidade, entusiasmo e verdadeira fraternidade. Aquela presença não foi apenas numerosa: foi próxima, disponível e decisiva. A Igreja em Portugal guarda uma profunda gratidão por tudo o que recebeu de vós.

É uma pergunta grande. Talvez demasiado grande para uma única conferência. E, no entanto, é também uma pergunta muito concreta. Não pergunta apenas o que deve fazer a Igreja, que estratégia deve adoptar ou que ferramentas deve utilizar. Pergunta pela nossa missão. Isto é: por aquilo para que fomos enviados; por aquilo que não podemos delegar; por aquilo que, se nós não fizermos, ficará por fazer.

Quando me convidou, o senhor bispo acrescentou, com uma generosidade que espero não defraudar, que poderia falar de evangelização e novas tecnologias, «porque disto sabes muito», e fazê-lo à luz da minha experiência na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa.

Tentarei obedecer. Mas gostaria de começar por confessar algo: quanto mais contacto tenho com a tecnologia, mais convencido estou de que o centro da nossa missão não é tecnológico. E quanto mais penso na JMJ Lisboa 2023, mais claro vejo que o seu verdadeiro legado não pode ser medido apenas em números, impactos, transmissões ou imagens.

Há três anos, mais de um milhão de jovens reuniram-se em Lisboa. Poderíamos contar aquela Jornada através dos seus números, da logística, das aplicações, das redes sociais, dos sistemas informáticos ou das imagens que deram a volta ao mundo. Tudo isso existiu. Tudo isso foi necessário. E tudo isso exigiu muitíssimo trabalho.

Mas quando me perguntam o que ficou da JMJ Lisboa 2023, não penso primeiro na tecnologia. Penso em rostos.

Penso no rosto de um jovem que regressou a casa diferente. No de um voluntário que descobriu que servir podia ser uma forma de felicidade. No de uma família que abriu a porta a um desconhecido e, poucos dias depois, se despediu de um amigo. Penso em alguém que, no meio de mais de um milhão de pessoas, descobriu que Deus conhecia o seu nome.

E talvez seja precisamente aí que começamos a encontrar uma resposta: a nossa missão é hoje mais necessária do que nunca porque nunca tivemos tantos meios para comunicar e, talvez, nunca tenha sido tão difícil encontrarmo-nos verdadeiramente. Nunca tivemos acesso a tanta informação e continuamos sedentos de sentido. Nunca dispusemos de tantas possibilidades de estar ligados e, no entanto, tantos homens e mulheres experimentam a solidão.

Agora, além disso, construímos máquinas capazes de falar connosco, escrever por nós, criar imagens, responder a perguntas e imitar algumas manifestações da inteligência humana.

Mas permanece uma pergunta que nenhuma máquina pode responder por nós: para quem vivo? E uma segunda: quem me ama? E uma terceira, ainda mais radical: onde está Deus em tudo isto?

Esta tarde gostaria de percorrer convosco um caminho em cinco etapas. Começaremos em Emaús e terminaremos diante de uma janela aberta. Entre um lugar e outro aparecerão Lisboa, Santo Agostinho, a inteligência artificial, a atenção, a Encarnação, os diversos ministérios e vocações eclesiais e o sopro do Espírito. Mas a tese será simples:

Quanto mais tecnológica se torna a nossa sociedade, mais precisa daquilo que nenhuma tecnologia pode produzir por si só: presença, sentido, relação, esperança, perdão, comunhão e encontro com Cristo.

 

1. Mudámos de mundo, mas não de coração

Há alguns anos publiquei um livro intitulado, em português, Um Padre na Aldeia Global: Evangelização e o Desafio das Novas Tecnologias. Esse trabalho nasceu de uma investigação em Ciências da Comunicação e de uma convicção pastoral que conservo: a Igreja não pode alhear-se das transformações da comunicação, porque nelas mudam também os lugares, as linguagens e as condições do encontro. Então percorri o caminho que ia da Galáxia Gutenberg à Galáxia Internet, em diálogo com a reflexão sobre os meios de comunicação. E concluía recuperando uma imagem evangélica: a rede da sociedade em rede é, em boa medida, a rede de sempre, aquela em que Jesus nos convida a confiar e a lançá-la novamente.1

Doze anos depois, a pergunta daquele livro não envelheceu; tornou-se mais urgente. A rede já não comunica apenas aquilo que escrevemos: aprende connosco, selecciona aquilo que vemos e pode produzir as palavras, as imagens e as vozes que encontramos. Por isso volto hoje à «aldeia global», não para me repetir, mas para perguntar o que significa ser discípulos missionários e servir pastoralmente quando aquela aldeia se torna algorítmica.

A expressão «aldeia global» vinha, naturalmente, de Marshall McLuhan. Ele compreendeu com extraordinária antecipação que os meios de comunicação não são simples tubos neutros por onde fazemos passar um conteúdo. A sua conhecida fórmula — «o meio é a mensagem» — não quer dizer que o conteúdo careça de importância. Quer dizer que a forma de comunicar modifica também a nossa maneira de perceber o mundo, de nos relacionarmos, de organizar o tempo e de nos compreendermos a nós próprios.

Mais tarde, Manuel Castells descreveu a sociedade em rede: uma sociedade na qual o poder, a cultura, a economia e a identidade se configuram através de redes de informação.2 Hoje poderíamos dizer que a aldeia global se tornou uma aldeia algorítmica.

Já não vivemos apenas ligados uns aos outros. Vivemos em ambientes onde sistemas automáticos seleccionam aquilo que vemos, ordenam o que aparece primeiro, recomendam o que veremos a seguir, aprendem quanto tempo permanecemos diante de uma imagem e prevêem o que poderá manter-nos ali mais alguns segundos.

O algoritmo não descansa. Não precisa de dormir. Não se distrai. Aprende com os nossos rastos: aquilo que procuramos, aquilo que compramos, aquilo que rejeitamos, aquilo que partilhamos, aquilo que vemos em segredo e aquilo diante do qual voltamos uma e outra vez.

Isto pode ser muito útil. Uma recomendação pode ajudar-nos a encontrar um livro, uma morada, um medicamento, uma comunidade ou uma pessoa que procurávamos. Não devemos demonizar a técnica. A criatividade tecnológica pertence também à vocação humana de cultivar e cuidar do mundo. Antiqua et nova, a nota publicada em 2025 pelos Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e a Educação, começa precisamente por reconhecer este valor. A técnica pode ser expressão da inteligência humana e serviço ao bem comum.

Na encíclica Magnifica humanitas, Leão XIV propõe duas imagens bíblicas para este discernimento: Babel e a reconstrução de Jerusalém narrada por Neemias. Babel procura a uniformidade e o controlo, sacrificando a dignidade à eficiência; Neemias escuta, distribui a responsabilidade e permite que cada pessoa contribua para a obra comum. A pergunta cristã não é, portanto, como erguer a torre mais poderosa, mas como reconstruir uma cidade verdadeiramente humana, na qual a técnica sirva a comunhão, a justiça e a fraternidade.3

Mas devemos compreender a mudança cultural que está a acontecer. Antes procurávamos informação; agora a informação vem procurar-nos. Antes decidíamos, pelo menos em grande parte, quando abrir um livro, ligar a televisão ou telefonar a alguém. Hoje levamos no bolso um dispositivo que reclama constantemente a nossa atenção e antecipa os nossos desejos.

Por isso, a questão não é apenas o que fazemos com a tecnologia. A questão é também o que a tecnologia está a fazer connosco.

Que hábitos cria? Que ritmo impõe? Que silêncios elimina? Que desejos alimenta? Que visão do homem pressupõe?

Aqui Santo Agostinho torna-se surpreendentemente contemporâneo. No início das Confissões escreve: «Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti».4

A indústria digital conhece muito bem a inquietação do coração humano. Sabe que estamos à procura de alguma coisa. Sabe que o desejo nunca fica completamente satisfeito. Mas, muitas vezes, responde a essa inquietação não com repouso, mas com um novo estímulo: outro vídeo, outra notícia, outra imagem, outra indignação, outra compra, outra resposta.

O algoritmo aprende aquilo que desejo para me manter a desejar.

Agostinho faz uma pergunta diferente: qual é o fim do meu desejo? Para onde conduz esta inquietação? Que bem pode saciar um coração que foi criado para Deus?

Talvez uma das missões da Igreja na era da inteligência artificial seja guardar a inquietação do coração humano para que não fique prematuramente satisfeita por sucedâneos. Sacerdotes, consagrados e leigos não temos de responder a todas as perguntas mais depressa do que o algoritmo. Às vezes devemos ajudar uma pessoa a permanecer diante da pergunta até que esta se transforme em busca, em oração, em abertura a Deus.

Não somos distribuidores de respostas religiosas rápidas. Somos servidores de um encontro.

E isto é muito importante, porque uma máquina pode dar uma resposta em dois segundos. Se acreditarmos que a nossa missão consiste simplesmente em responder mais depressa, perderemos sempre. Mas se a nossa missão consiste em caminhar com alguém, escutar a sua história, discernir com ele, partir o pão e ajudá-lo a reconhecer Cristo, então entramos num terreno que não se mede pela velocidade.

Entramos em Emaús.

Os dois discípulos caminham derrotados. Têm informação: sabem o que aconteceu em Jerusalém. Conhecem os factos, ouviram o testemunho das mulheres e podem resumir a história. No entanto, não compreendem o seu sentido.

Jesus aproxima-se e caminha com eles. Não começa com uma conferência. Pergunta: «Que conversa é essa que tendes pelo caminho?» Deixa-os falar. Escuta a sua decepção. Acolhe até a sua interpretação errada. Depois ilumina as Escrituras. Mais tarde aceita ficar. Senta-se à mesa. Toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e dá-lho. Então os seus olhos abrem-se. E só depois podem dizer: «Não ardia cá dentro o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho?»

Este é um dos modelos mais completos de evangelização: aproximar-se, caminhar, perguntar, escutar, interpretar, permanecer, partir o pão e desaparecer para que o outro possa pôr-se a caminho.

Uma máquina pode processar as palavras dos discípulos. Cristo carrega com a sua tristeza.

Uma máquina pode explicar as profecias. Cristo faz das Escrituras uma palavra viva para duas pessoas concretas.

Uma máquina pode indicar o caminho para Emaús. Cristo faz-se Caminho.

A nossa missão é hoje mais necessária porque o mundo dispõe de uma quantidade quase infinita de respostas, mas continua a precisar de alguém que faça a pergunta de Jesus: «O que se passa contigo? Que conversa levas dentro de ti enquanto caminhas?»

 

2. Da economia da atenção à pastoral da atenção

A segunda etapa do nosso caminho tem que ver com a atenção.

Há empresas que competem não apenas pelo nosso dinheiro, mas pelos nossos olhos, pelo nosso tempo, pelas nossas emoções e pelos nossos impulsos. Cada notificação diz-nos: olha para aqui. Cada alerta interrompe aquilo que estávamos a fazer. Cada deslocação infinita do ecrã promete que talvez o conteúdo seguinte seja aquele que, finalmente, vale a pena.

Se a economia digital disputa a nossa atenção, a Igreja é chamada a praticar uma pastoral da atenção.

Prestar atenção, na tradição cristã, não significa captar dados. Significa reconhecer uma presença. Significa parar diante de alguém. Significa olhar como Jesus olha.

O Evangelho está cheio de pessoas a quem ninguém presta atenção. O cego grita e a multidão quer calá-lo. Zaqueu está escondido numa árvore. A hemorroíssa toca no manto no meio da multidão. Bartimeu está à beira do caminho. O homem da mão paralisada fica no meio de uma discussão. A viúva oferece duas moedas que todos considerariam insignificantes.

Jesus vê.

Vê a pessoa que a multidão não vê. E o seu olhar não classifica: chama. Não reduz a um perfil: devolve um nome. Não calcula a utilidade: reconhece uma dignidade.

Na JMJ Lisboa 2023 vi sistemas tecnológicos extraordinários e equipas que fizeram um trabalho imenso. Mas vi, sobretudo, milhares de pessoas a fazer extraordinariamente bem coisas muito simples: um sorriso, uma indicação, uma garrafa de água, uma palavra numa língua que mal conheciam, uma presença junto de quem estava cansado, desorientado ou simplesmente precisava de alguém.

E descobri que é precisamente aí que uma Jornada ganha rosto.

Podemos ter os melhores palcos, os melhores planos, os melhores sistemas e a melhor organização. Tudo isso é necessário. Mas nenhuma tecnologia substitui um rosto que acolhe, umas mãos que servem e um coração disponível.

Não será também esta uma definição muito simples da pastoral?

A tecnologia pode dizer a um jovem onde se realiza a próxima catequese. Pode traduzi-la para cinquenta línguas. Pode resumi-la, transcrevê-la, transformá-la num vídeo e recomendá-la a quem, segundo os seus dados, poderá ter interesse.

Mas não pode aperceber-se, com verdadeira solicitude, de que aquele jovem ficou para trás e perguntar-lhe: «Estás bem?»

Pode reconhecer um rosto através de padrões. Não pode reconhecer nesse rosto um irmão.

Pode detectar palavras associadas à tristeza. Não pode fazer companhia.

Pode estar disponível vinte e quatro horas por dia. Mas disponibilidade não é presença.

Esta distinção parece-me essencial para todos os que participamos na pastoral diocesana e paroquial. Podemos encher a agenda e não estar presentes. Podemos responder imediatamente e não escutar. Podemos multiplicar mensagens, reuniões, publicações e actividades, e perder o rosto concreto que Deus pôs diante de nós.

A disponibilidade é uma condição externa: estar acessível. A presença é uma forma de entrega: estar com o outro.

Em Lisboa, o voluntário foi o tesouro mais valioso da Jornada. Não apenas porque sem voluntários teria sido impossível acolher, orientar, alimentar, transportar e acompanhar centenas de milhares de jovens. O voluntário valia, antes de mais, pelo seu testemunho. Oferecia um dos bens mais preciosos que possuímos: o seu tempo. Oferecia as mãos, a inteligência, o coração, o cansaço e, muitas vezes, as suas férias, sem esperar nada em troca.

Todos os agentes pastorais oferecemos tempo: o sacerdote e o diácono, a pessoa consagrada, o catequista, o voluntário, o educador, o casal que acompanha outras famílias, o jovem que serve na sua paróquia. E sabemos que nunca parece suficiente. Há demasiadas tarefas, demasiadas comunidades, demasiada administração, demasiadas urgências. Precisamente por isso devemos perguntar-nos com honestidade: que parte do nosso trabalho pode ser aliviada pela tecnologia para que possamos dedicar mais tempo àquilo que ninguém pode fazer no nosso lugar?

A inteligência artificial pode ajudar a organizar informação, preparar um primeiro rascunho, traduzir uma comunicação, resumir um documento, organizar materiais de formação ou tornar um conteúdo mais acessível. Pode poupar-nos tempo. Mas esse tempo poupado só será pastoralmente fecundo se o devolvermos às pessoas.

Se utilizarmos a tecnologia apenas para produzir ainda mais, acabaremos mais cansados e talvez menos presentes. Se a utilizarmos para libertar espaço para a escuta, a visita, a oração, o estudo sério e o acompanhamento, pode tornar-se uma ajuda valiosa.

A nossa missão é hoje mais necessária porque a atenção humana está fragmentada. E talvez uma das formas mais contraculturais de evangelizar seja oferecer a alguém uma atenção que não pretende vender-lhe nada, classificá-lo, acelerá-lo nem transformá-lo em resultado.

Uma atenção gratuita.

Uma atenção paciente.

Uma atenção capaz de dizer: «A tua história importa. Não és uma interrupção. Não és um caso. Não és um dado. És alguém por quem Cristo deu a vida».

 

3. A inteligência artificial obriga-nos a redescobrir o que significa ser humano

Chegamos agora à etapa mais directamente relacionada com a inteligência artificial.

Não entrarei em explicações técnicas. Não é necessário. Todos já vimos sistemas capazes de produzir textos, imagens, música, traduções e respostas com uma rapidez impressionante. Alguns utilizam-nos; outros olham para eles com desconfiança; muitos provavelmente sentem as duas coisas ao mesmo tempo.

Essa mistura de admiração e preocupação é razoável.

A inteligência artificial apresenta oportunidades reais. Pode contribuir para a investigação médica, melhorar a acessibilidade para pessoas com deficiência, facilitar traduções, analisar grandes quantidades de informação, detectar padrões que escapariam ao olhar humano e assumir trabalhos repetitivos. Também pode ser utilizada para vigiar, manipular, fabricar falsidades, reforçar preconceitos, concentrar poder ou desumanizar decisões.

Mas antes de perguntar o que pode fazer, convém perguntar o que é.

Antiqua et nova oferece aqui uma distinção decisiva. Quando falamos de inteligência humana, falamos de uma capacidade da pessoa inteira: corporal, relacional, histórica, moral e aberta à verdade, ao bem, à beleza e a Deus. Quando falamos de inteligência artificial, utilizamos a palavra num sentido funcional: um sistema executa tarefas, identifica padrões e produz resultados através de cálculo computacional. Magnifica humanitas retoma esta diferença de um modo muito concreto: a IA não tem corpo, não amadurece nas relações, não conhece o amor, a amizade ou a responsabilidade e não possui consciência moral.5

A diferença não consiste apenas em que a máquina ainda não tenha alcançado um nível suficiente. Não é uma competição em que o ser humano conserva provisoriamente uma pequena vantagem. São realidades de ordem diferente.

A pessoa cresce num corpo, recebe uma história, sofre, espera, ama, arrepende-se, promete, perdoa, é responsável e pode entregar-se. Aprende não apenas acumulando dados, mas vivendo. Como recorda a nota, pode aprender-se com uma doença, com um abraço de reconciliação ou com um pôr do sol. Nenhum dispositivo que opere apenas com dados está à altura da totalidade dessas experiências.6

A inteligência artificial pode imitar expressões da inteligência. Não vive uma biografia.

Pode produzir uma frase sobre a dor. Não lhe dói nada.

Pode gerar uma declaração de amor. Não ama.

Pode combinar milhões de frases. Não reza.

Pode descrever a esperança. Não espera.

Pode usar a palavra «Deus». Não pode pôr-se de joelhos.

Isto não diminui o valor técnico da ferramenta. Simplesmente impede que confundamos uma simulação funcional com uma pessoa.

Na vida pastoral, estas questões tornam-se concretas: quem responde por uma decisão apoiada numa máquina? Que lugar fica para a consciência? Como garantimos que a eficiência não nos faça perder de vista a pessoa? Precisamos de aprender a utilizar estes meios com discernimento e ajudar as nossas comunidades a fazer o mesmo.

Mas o cristianismo introduz uma pergunta anterior: que ideia de ser humano estamos a entregar à máquina?

Antes de alinhar uma tecnologia com «valores humanos», devemos saber o que entendemos por humano. Se reduzirmos o homem a consumidor, a máquina aprenderá a maximizar o consumo. Se o reduzirmos à produtividade, optimizará a produtividade. Se o reduzirmos a preferências observáveis, confundirá a liberdade com o historial de escolhas. Se o reduzirmos a dados, tratará o seu passado como destino.

A fé cristã diz outra coisa: o ser humano foi criado à imagem de Deus. A sua dignidade não depende do seu rendimento cognitivo, da sua eficácia, da sua saúde, da sua autonomia nem da sua utilidade. Como sublinha Leão XIV, cada pessoa é querida por Deus para a comunhão e a sua dignidade não depende das suas capacidades, da sua riqueza, da sua função social nem sequer do acerto das suas decisões. Por isso, uma pessoa inconsciente, uma criança ainda não nascida, um idoso com demência, alguém que não pode falar ou produzir conserva uma dignidade que nenhuma métrica concede e nenhuma perda de capacidades elimina.7

Voltemos à primeira página da Escritura: Deus criou o ser humano à sua imagem (cf. Gn 1,27). Esta afirmação ilumina também o nosso modo de acolher cada pessoa. A dignidade de quem nos procura não depende de calcular depressa, de falar com facilidade ou de ser autónomo. Diante de nós está alguém chamado à comunhão com Deus. É a partir desta vocação que devemos pensar a relação, a liberdade e a responsabilidade humanas.

Por isso, a grande pergunta pastoral da inteligência artificial talvez não seja: «O que chegará a fazer a máquina?», mas: «O que não podemos deixar de fazer nós?»

Não podemos deixar de oferecer os sacramentos que Cristo confiou à sua Igreja.

Não podemos deixar de acompanhar um luto.

Não podemos deixar de permanecer junto de uma cama de hospital.

Não podemos deixar de discernir uma vocação.

Não podemos deixar de reunir uma comunidade dividida.

Não podemos deixar de celebrar a Eucaristia.

Não podemos deixar de anunciar e testemunhar, diante de uma pessoa concreta, a misericórdia e a palavra do perdão.

Não podemos deixar de acompanhar durante anos sem saber quando germinará a semente.

Pensemos num exemplo próprio do ministério ordenado. Uma inteligência artificial pode produzir em segundos uma homilia formalmente correcta sobre o Evangelho do domingo. Pode encontrar paralelos patrísticos, organizar três pontos, sugerir uma introdução e adaptar o vocabulário à idade da assembleia.

Mas não conhece aquela assembleia.

Não baptizou aquela criança. Não acompanhou aquela mulher durante a doença do seu marido. Não conhece o jovem sentado ao fundo que deixou de acreditar. Não esteve junto do homem que vai morrer. Não ouviu a história daquela família. Não carregou com aquela comunidade durante anos.

E, sobretudo, não recebeu o sacramento da Ordem nem foi enviada pela Igreja a servir aquele povo concreto.

Portanto, a pergunta interessante não é: «Pode a IA escrever uma homilia?» Pode produzir um texto que se pareça com uma homilia.

A pergunta sacerdotal é: pode uma homilia ser apenas um texto?

A homilia nasce da Palavra, da oração, de uma comunidade concreta e do ministério daquele que foi enviado a partir para aquele povo o pão da Palavra. Podemos utilizar uma ferramenta para procurar, comparar ou rever. Mas não podemos delegar a escuta de Deus nem a entrega da própria vida.

A mesma regra vale para a oração e para todas as vocações e serviços eclesiais. Uma máquina pode gerar uma oração. Não pode rezar. Pode preparar uma ficha de catequese, mas não pode dar o testemunho de uma vida crente. Pode propor uma actividade para jovens, mas não pode amá-los, esperá-los e acompanhá-los. Pode redigir uma mensagem para uma família, mas não pode entrar na sua casa e partilhar as suas lágrimas. Pode ajudar-nos a encontrar palavras quando não as temos, como um livro pode fazê-lo. Mas o acto de rezar e a entrega pastoral pertencem a pessoas que se colocam diante de Deus e junto dos seus irmãos.

A ferramenta pode assistir. Não pode substituir.

E devemos acrescentar algo incómodo: se uma máquina pode substituir sem perda uma parte do nosso ministério, talvez tivéssemos reduzido essa parte a uma tarefa demasiado mecânica. A IA pode ser um espelho que nos obriga a recuperar a profundidade daquilo que fazemos.

Preparar uma homilia não é fabricar um texto. Catequizar não é transferir dados. Governar não é administrar processos. Acompanhar não é oferecer respostas padrão. Evangelizar não é produzir conteúdo religioso.

Leão XIV disse aos missionários digitais em Julho de 2025: «Não se trata simplesmente de gerar conteúdo, mas de criar um encontro entre corações».8 Esta frase poderia aplicar-se a toda a pastoral.

A nossa missão é hoje mais necessária porque a máquina nos obriga a redescobrir que o Evangelho tem rosto.

 

4. «Todos, todos, todos»: o Evangelho diante do algoritmo que classifica

A quarta etapa leva-nos de novo a Lisboa.

Há três palavras que atravessaram a cidade e depois o mundo: todos, todos, todos.

Aquelas palavras não significavam que tudo é indiferente, que não existe a verdade ou que o discernimento deixou de ser necessário. Significavam que ninguém fica de fora do convite; que a Igreja não é uma alfândega para perfeitos, mas uma casa com as portas abertas; que a misericórdia de Deus nos precede e que a missão começa por sair ao encontro.

No mundo algorítmico, estas palavras adquirem uma densidade inesperada.

Um algoritmo classifica. Para funcionar, selecciona, hierarquiza, prevê, agrupa e descarta. Atribui-nos categorias segundo comportamentos anteriores. Isso pode ser útil para organizar uma biblioteca, detectar fraude ou recomendar um caminho. Mas torna-se perigoso quando essa lógica invade a nossa compreensão da pessoa.

O Evangelho introduz outra lógica. O pastor deixa as noventa e nove e procura a que não encaixa no cálculo. O pai não reduz o filho pródigo ao seu historial. Jesus não identifica Pedro com a sua negação. A mulher adúltera não fica encerrada no seu pecado. Mateus não é para sempre «o publicano». Saulo não fica definido pela perseguição.

A graça significa que o passado não é destino.

O Papa Francisco advertiu que a singularidade de uma pessoa não pode ser identificada com um conjunto de dados e que não devemos permitir que os algoritmos excluam a compaixão, a misericórdia, o perdão e a possibilidade de mudar.9

Esta é uma palavra profundamente missionária. O olhar cristão nunca diz a uma pessoa: «Já sei quem és porque conheço todos os teus dados». Diz: «Deus conhece-te mais profundamente do que tu próprio te conheces, e continua a escrever a tua história».

Na JMJ aprendemos que uma multidão só tem sentido se cada pessoa puder descobrir que é olhada. As imagens aéreas eram impressionantes. Mas o verdadeiro milagre acontecia no segredo de cada vida: uma confissão, uma decisão, uma reconciliação, uma pergunta que começava, um chamamento vocacional, uma oração pronunciada depois de muito tempo.

Nunca conheceremos todos os frutos.

Nunca saberemos completamente o que aconteceu no coração de cada peregrino, quantos voltaram a rezar, quantos se reconciliaram, quantos regressaram às suas comunidades ou quantos começaram a fazer uma pergunta que antes nunca tinham feito.

A semente não faz barulho quando germina. Mas germina.

A cultura dos dados quer medir tudo. Também nós, na Igreja, sentimos a pressão de apresentar números: quantas pessoas, quantas visualizações, quantas actividades, quantos seguidores. Os dados podem ajudar-nos a conhecer a realidade e a avaliar responsavelmente. Não são inimigos. Mas não podem dizer-nos tudo.

Não existe uma métrica para a graça.

Não existe uma análise capaz de medir o instante em que uma pessoa perdoa.

Não existe um painel de controlo que antecipe uma vocação.

Não existe uma estatística que esgote o valor de uma hora diante do sacrário ou de uma conversa que impediu alguém de desistir.

Isto não é um convite à improvisação ou à irresponsabilidade. Devemos planear, avaliar, aprender e prestar contas. Em Lisboa fizemo-lo e sabemos quanto custa. Mas devemos recordar que organizamos condições; não fabricamos a graça.

A Igreja pode preparar um caminho, abrir uma porta, formar voluntários, celebrar com beleza, comunicar melhor e estar onde estão os homens e as mulheres do nosso tempo. Depois deve deixar espaço à liberdade de Deus e à liberdade de cada pessoa.

«Todos, todos, todos» significa também que a missão digital não pode dirigir-se apenas àqueles que já respondem bem, partilham os nossos códigos ou confirmam as nossas convicções. As plataformas tendem a mostrar-nos mais daquilo com que já estamos de acordo. Criam bolhas onde ouvimos as nossas próprias vozes amplificadas.

A missão, pelo contrário, atravessa a outra margem.

Procura quem não apareceria nas nossas recomendações. Escuta quem incomoda. Senta-se à mesa com quem pensa de maneira diferente. Fala com quem não acredita. Sai dos lugares seguros.

Na preparação da JMJ tivemos de nos relacionar com instituições públicas, empresas, forças de segurança, técnicos, vizinhos, crentes e não crentes. Tivemos de pedir ajuda, escutar linguagens diferentes, aceitar limites e construir confiança. Também isso foi Jornada. Também isso foi missão.

Descobrimos uma Igreja mais aberta ao mundo: capaz de conversar e escutar, de trabalhar com quem não pensa como nós, de ir às periferias e de anunciar o Evangelho sem medo.

A nossa missão é hoje mais necessária porque, numa sociedade que segmenta públicos e constrói perfis, a Igreja é chamada a guardar a universalidade do encontro. Cada pessoa é mais do que a sua categoria. Cada vida pode mudar. Cada coração pode abrir-se.

Todos significa realmente todos.

 

5. Não uma Igreja que produz mais conteúdo, mas uma Igreja que gera encontro

Chegamos à quinta etapa.

Existe o risco de a Igreja interpretar o desafio digital principalmente como uma corrida para produzir conteúdo. É preciso estar em todas as plataformas, publicar mais, responder antes, conseguir mais impacto, dominar cada novo formato.

Devemos aprender as linguagens do nosso tempo. A ausência não é uma estratégia missionária. Leão XIV recordou que a Igreja nunca permaneceu passiva diante das mudanças culturais e que deve iluminar cada época com a esperança de Cristo. Também afirmou, ao falar da evolução tecnológica e da inteligência artificial, que «esta missão se torna ainda mais necessária».10

Mas presença digital não é o mesmo que missão digital. Pode ocupar-se muito espaço e não oferecer um caminho. Pode ter milhares de seguidores e não acompanhar ninguém. Pode defender a verdade sem caridade e transformar uma palavra cristã noutra arma de polarização.

A pergunta não é apenas quantas pessoas nos veem. É o que acontece quando nos veem.

Encontram paz ou agitação? Encontram clareza ou ruído? Encontram uma porta ou uma trincheira? Encontram uma testemunha ou uma marca pessoal? Encontram Cristo ou encontram apenas nós?

Nenhum agente pastoral é chamado a tornar-se uma celebridade religiosa. Todos somos chamados a ser sinais de Outro.

Isto exige discernimento também na forma de utilizar a inteligência artificial. Proponho algumas regras simples, não como legislação universal, mas como exame de consciência pastoral.

Primeira: utilizar a IA como assistência, nunca como substituição da responsabilidade. Se uma ferramenta nos ajuda a preparar, procurar ou traduzir, continuamos a ser responsáveis pelo resultado. Não podemos dizer: «Foi a máquina que o disse». A decisão e a assinatura moral continuam a ser humanas.

Segunda: não entregar a uma ferramenta dados que pertencem à intimidade das pessoas. Uma conversa pastoral, uma situação familiar, um dado médico, uma história de confissão ou um processo sensível não são matéria-prima. A privacidade protege a liberdade e a dignidade; no âmbito pastoral, protege além disso uma confiança sagrada.11

Terceira: verificar. Os sistemas generativos produzem por vezes afirmações falsas com aparência convincente. Uma citação bíblica, patrística ou magisterial deve ser verificada. A velocidade não nos dispensa da verdade.

Quarta: ser transparentes quando a utilização da ferramenta for relevante. Não atribuirmos a nós próprios um trabalho que não fizemos; não enganar; não confundir uma imagem artificial com um facto; não utilizar uma voz ou um rosto falsos.

Quinta: proteger o processo interior. Não delegar na máquina aquilo que constitui a nossa formação: ler, pensar, escrever, lutar com uma ideia, preparar em oração, escutar a Palavra. Uma ajuda que evita todo o esforço pode acabar por enfraquecer precisamente a capacidade que pretendia servir.

Sexta: devolver às pessoas o tempo que a tecnologia nos poupa. Este critério parece-me decisivo. Se uma ferramenta reduz vinte minutos de uma tarefa administrativa, que esses vinte minutos não se transformem automaticamente em mais vinte minutos de ecrã. Que possam transformar-se numa chamada, numa visita, numa escuta, num silêncio diante de Deus.

Sétima: perguntar-nos sempre quem pode ficar de fora. Os idosos, os pobres, aqueles que não têm competências digitais, aqueles que falam outra língua, aqueles que vivem com deficiência ou aqueles que simplesmente precisam de um contacto humano não devem pagar o preço da nossa eficiência.

Estas regras convergem numa convicção: a tecnologia deve ampliar a nossa capacidade de servir, não reduzir a nossa humanidade. Leão XIV pede-nos, por isso, que saibamos «desarmar» a inteligência artificial: não rejeitar a tecnologia, mas libertá-la das lógicas de domínio e competição, para que não domine o humano e possa tornar-se transparente, habitável e orientada para o bem comum.10

Lisboa teve uma enorme dimensão digital, mas o acontecimento decisivo foi profundamente corporal. Caminhámos, cansámo-nos, cantámos, suámos, esperámos, confessámo-nos, fizemos silêncio, dormimos pouco, acolhemos desconhecidos e celebrámos juntos.

Havia corpos presentes.

Isto é essencial para o cristianismo. A nossa fé não anuncia que Deus enviou uma informação perfeita. Anuncia que «o Verbo fez-se carne e habitou entre nós».

Deus poderia ter-nos dado apenas uma mensagem. Deu-nos o Filho.

A Encarnação é talvez a resposta cristã mais profunda à tentação de substituir presença por informação. Magnifica humanitas coloca precisamente no centro o mistério do Verbo que se fez carne e recorda que a verdadeira humanidade floresce na abertura e na comunhão. Uma palavra simulada pode produzir a aparência de uma relação; só uma palavra encarnada se oferece realmente ao outro.7 E os sacramentos prolongam essa lógica: água que toca, óleo que unge, mãos que se impõem, pão que se parte, vinho que se partilha, uma palavra pronunciada sobre uma pessoa concreta.

O cristianismo não é desencarnado. A Igreja também não pode sê-lo.

Por isso a nossa missão eclesial é hoje mais necessária do que nunca. Não porque sejamos inimigos da tecnologia, mas porque somos servidores de uma presença que a tecnologia não pode substituir. Não porque saibamos mais coisas do que a internet, mas porque, a partir da vocação de cada um, fomos enviados a anunciar, celebrar e servir Cristo vivo no meio de um povo.

O discípulo missionário é aquele que desce do monte com o seu povo.

Na Transfiguração, Pedro diz: «Senhor, como é bom estarmos aqui; se quiseres, farei três tendas». Compreendemo-lo. Também nós gostaríamos de permanecer nos momentos em que tudo faz sentido, a multidão nos dá força, a alegria é contagiante e sentimos quase fisicamente a presença de Deus.

Mas Jesus não permite que construam as tendas. É preciso descer.

A vida não é uma Jornada permanente. Depois de Lisboa tivemos de regressar às dioceses, paróquias, famílias, escolas, universidades e lugares de trabalho. A pergunta sobre o legado começou realmente na planície: o que fazemos, na vida quotidiana, com aquilo que recebemos no monte?

Também nós descemos. O sacerdote desce ao quarto do hospital e ao confessionário; o catequista, ao encontro da criança e da sua família; o educador, à inquietação do adolescente; o voluntário, à solidão do idoso; os leigos, à escola, à universidade, ao trabalho, à vida pública e às periferias onde só eles podem tornar o Evangelho presente. Todos descemos à vida concreta, mesmo quando estamos cansados. Descemos porque Cristo desceu primeiro.

Uma máquina pode estar disponível vinte e quatro horas. Não significa que esteja presente.

Nós nem sempre poderemos estar disponíveis. Somos limitados, precisamos de descansar e devemos aprender a cuidar da comunhão, das famílias, das comunidades e daqueles que sustentam diariamente a missão. Mas, quando estamos, podemos estar presentes. E uma presença verdadeira, ainda que breve, pode mudar uma vida.

 

Uma janela aberta

Gostaria de terminar com uma história.

Durante a preparação da JMJ Lisboa 2023 estávamos reunidos numa grande sala de trabalho, na sede do Comité Organizador Local. Éramos tantos que muitos estavam de pé. As janelas estavam fechadas.

Quase no final de uma apresentação, o voluntário que falava disse algo muito simples: nada daquilo seria possível sem a força do Espírito Santo.

E, naquele preciso momento, uma das janelas abriu-se de par em par com o vento.

Fez-se silêncio.

Não foi necessário acrescentar nada.

Não quero transformar aquela coincidência numa demonstração. Não sei explicar exactamente o que aconteceu e talvez não seja necessário explicar tudo. Mas sei o que aquele instante significou para nós: a Jornada era nossa responsabilidade, mas não era apenas obra nossa.

Talvez também hoje precisemos de deixar uma janela aberta.

Vivemos num mundo que quer prever tudo. Os algoritmos são extraordinárias máquinas de previsão. Aprendem com o passado para calcular aquilo que provavelmente faremos a seguir.

Mas o cristianismo vive de uma novidade que não pode ser calculada.

Jesus diz a Nicodemos: «O vento sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito».

Nenhum algoritmo calcula o Pentecostes.

Nenhum modelo de previsão teria antecipado Pedro.

Nenhuma análise de dados teria escolhido aqueles Doze.

Nenhuma folha de cálculo pode prever uma conversão, uma vocação ou uma reconciliação.

E esta é talvez a razão última pela qual a nossa missão é hoje mais necessária do que nunca.

Porque o homem não é um algoritmo.

Porque uma pessoa é sempre mais do que os dados que deixou para trás.

Porque o passado não esgota o futuro.

Porque o pecado não tem a última palavra.

Porque nenhuma máquina pode anunciar por si mesma: «Cristo ressuscitou».

Porque nenhuma tecnologia pode absolver, consagrar, ungir, abençoar ou entregar a própria vida por amor.

Porque o mundo continua a precisar de testemunhas.

Nós podemos preparar. Podemos estudar. Podemos comunicar melhor. Devemos aprender as novas línguas e entrar sem medo nesta cultura. Podemos — e devemos — utilizar inteligentemente a própria inteligência artificial.

Mas não somos administradores de um sistema fechado. Somos servidores de um mistério.

Não controlamos a graça. Preparamos o caminho.

Não produzimos o encontro. Abrimos as portas.

Não fabricamos a fé. Damos testemunho.

E depois deixamos espaço.

Deixamos uma janela aberta.

Porque o Espírito sopra.

E, quando sopra, nunca sabemos completamente até onde nos levará.

Muito obrigado.

 

Notas

  1. Américo Aguiar, Um Padre na Aldeia Global (Prior Velho: Paulinas Editora, 2014).
  2. Manuel Castells, The Rise of the Network Society, 2.ª ed. (Chichester: Wiley-Blackwell, 2010).
  3. Dicastério para a Doutrina da Fé e Dicastério para a Cultura e a Educação, Antiqua et nova. Nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana (28 de Janeiro de 2025), nn. 1–5 e 36–39; Leão XIV, Carta encíclica Magnifica humanitas (15 de Maio de 2026), nn. 4–14.
  4. Santo Agostinho, Confissões, I, 1, 1.
  5. Antiqua et nova, nn. 8–12 e 26–35; Magnifica humanitas, nn. 99–100.
  6. Antiqua et nova, nn. 31–33.
  7. Antiqua et nova, n. 34; Magnifica humanitas, nn. 50–53 e 230–232.
  8. Leão XIV, Saudação aos influencers e missionários digitais, 29 de Julho de 2025.
  9. Francisco, Mensagem para o 57.º Dia Mundial da Paz, Inteligência artificial e paz, n. 5; citado também em Antiqua et nova, n. 94.
  10. Leão XIV, Discurso aos representantes dos meios de comunicação, 12 de Maio de 2025; Magnifica humanitas, nn. 110–112.
  11. Antiqua et nova, nn. 90–94.

 

Bibliografia essencial

• Agostinho de Hipona. Confissões.

• Aguiar, Américo. Um Padre na Aldeia Global: Evangelização e o Desafio das Novas Tecnologias. Prior Velho: Paulinas Editora, 2014. ISBN 978-989-673-370-4.

• Castells, Manuel. The Rise of the Network Society. 2.ª ed. Chichester: Wiley-Blackwell, 2010.

• Dicastério para a Doutrina da Fé e Dicastério para a Cultura e a Educação. Antiqua et nova. Nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana. 28 de Janeiro de 2025.

• Francisco. Mensagem para o 57.º Dia Mundial da Paz, Inteligência artificial e paz. 1 de Janeiro de 2024.

• Leão XIV. Carta encíclica Magnifica humanitas sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. 15 de Maio de 2026.

• Leão XIV. Discurso aos representantes dos meios de comunicação. 12 de Maio de 2025.

• Leão XIV. Saudação aos influencers e missionários digitais. 29 de Julho de 2025.

• McLuhan, Marshall. Understanding Media: The Extensions of Man. Nova Iorque: McGraw-Hill, 1964.

Newsletter

Em destaque

Conselho Pastoral Diocesano – Comunicado Final

Conselho Pastoral Diocesano – Comunicado Final

  Realizou-se hoje, dia 25 de julho, Festa do Apóstolo São Tiago, na Casa Episcopal, em Setúbal, o segundo Conselho Pastoral Diocesano.  A sessão de abertura foi presidida pelo Cardeal D. Américo...

Últimas notícias

Novo Vigário Forâneo adjunto para Almada-Caparica

Novo Vigário Forâneo adjunto para Almada-Caparica

Prot. Nº P2026-394  D. AMÉRICO, CARDEAL-PRESBÍTERO DA SANTA IGREJA ROMANA, DO TÍTULO DE SANTO ANTÓNIO DE PÁDUA, NA VIA MERULANA, POR MERCÊ DE DEUS E DA SÉ APOSTÓLICA, BISPO DE SETÚBAL   Tendo o Rev.do Pe. Afonso Liberal cessado a função de Vigário Adjunto para a...

Agenda

Set 24
Setembro 24 - Outubro 4
Out 10
Out 24