Homilia nos 50 anos da Cáritas Diocesana de Setúbal

Nov 7, 2026

 

Caríssimos irmãos e irmãs, permiti que faça uma partilha convosco, uma reflexão. Trago papéis, porque 50 anos obriga a papéis.

50 anos de Cáritas, 50 anos de mãos estendidas, de portas abertas, de esperança renovada. 50 anos de Evangelho vivido, não apenas anunciado.

Hoje é, antes de mais, um dia de gratidão. Gratidão a Deus e a tantas mulheres e homens que ao longo deste meio século fizeram da caridade uma forma de viver, de servir e de testemunhar Jesus Cristo. As leituras que escutámos ajudam-nos a compreender o sentido desta celebração. O profeta Isaías recorda-nos que o jejum agradável a Deus é repartir o pão com quem tem fome, acolher quem não tem abrigo e não voltar as costas ao nosso semelhante. E Jesus, no Evangelho, vai ainda mais longe. Sempre que o fizeste a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizeste. Aqui está o coração da Cáritas, aqui está o coração da Igreja. A caridade cristã não é simplesmente fazer o bem, é reconhecer Jesus Cristo no rosto dos mais pobres, dos mais frágeis, dos esquecidos e deixar que esse encontro transforme a nossa vida.

Celebrar 50 anos é também fazer memória agradecida. Em primeiro lugar, do nosso primeiro bispo, D. Manuel Martins, pastor de coração inquieto, de palavra corajosa e de proximidade verdadeira. Compreendeu que não era possível anunciar o Evangelho nesta terra sem escutar o sofrimento das suas gentes. A Cáritas Diocesana nasceu também desta sua visão de uma Igreja próxima, comprometida com a justiça e com a dignidade humana. Honrar D. Manuel Martins é continuar a sua missão.

E hoje recordamos com particular emoção e saudade o professor Eugénio Fonseca, recentemente falecido, que durante tantos anos foi rosto e coração da Cáritas Diocesana de Setúbal. Deixou-nos o testemunho de uma vida dedicada à dignidade dos mais pobres, lembrando-nos que a caridade não pode reduzir-se à assistência, mas deve também promover a justiça, a autonomia e a esperança. D. Manuel Martins e Eugénio Fonseca, duas vidas diferentes, mas uma mesma paixão, Jesus Cristo e os mais pobres.

Eu estou a fazer as visitas pastorais, já estou a chegar a uma dezena, não duas, dezenas de paróquias visitadas, entre as vigararias de Almada e do Seixal, e já no Porto e em Lisboa tinha o mesmo sentimento. Por vezes, acho que estamos a obrigar todas as pessoas a vestir a mesma roupa. Ou seja, temos fatos e vestidos iguais e queremos que todos vistam essa roupa. E às vezes essa roupa não serve à pessoa.

Dito de outra maneira, às vezes temos respostas que não correspondem ao que as pessoas precisam. E não é fácil. Não é fácil no que diz respeito ao Estado, propriamente dito, seja a Segurança Social, seja o Ministério da Saúde, e não é fácil para as nossas instituições. A pessoa tem fome, mas nós queremos tratar-lhe da roupa. A pessoa quer roupa, mas nós queremos que ela coma. Não dá. E quanto mais conhecemos o território, mais fico convencido que deveria ser de outra maneira. As instituições e quem está no terreno deviam ter total autonomia para usar os meios de acordo com as necessidades.

Isso não acontece. Principalmente quando depois se sucedem os programas e as candidaturas e os concursos que não coincidem com as emergências do território. Podem coincidir com o município A ou B, com a situação C ou D, mas não coincidem na totalidade do território nacional. E é preciso descobrir a pólvora. Não sei se já descobriram, porque não é um problema certamente português, é um problema também certamente de todos os países, mas era bom que os meios que são cada vez mais escassos e os trabalhadores desta área pudessem, em cada caso, agir de acordo com aquilo que são as necessidades específicas. Nós, no seminário, a certa altura, falávamos de um PPV, Plano Pessoal de Vida. Ora, nós precisamos, para cada pessoa, de desenhar um PPV, um Plano Pessoal de Vida. Senão o que acontece é o que está nos nossos olhos: estamos a alimentar nada mais nada menos do que a assistencialismo, e ficamos todos contentes que andamos há 50 anos a ajudar os mesmos, há 40 anos a ajudar os mesmos, há 20 anos a ajudar os mesmos e estamos todos felizes. Não pode. Isso não respeita a dignidade daqueles a quem queremos servir. E a culpa é minha, não é de ninguém que está aqui. A minha é minha, dos meus antecessores e de todos aqueles que porventura temos responsabilidades.

A nossa gratidão estende-se a todos os que, ao longo destes 50 anos, deram a vida a esta missão. Dirigentes, trabalhadores, voluntários, benfeitores, comunidades cristãs e tantos homens e mulheres que muitas vezes, no silêncio e no anonimato, fizeram a diferença na vida de alguém. Como nos recorda São Paulo, Deus ama quem dá com alegria. E quantos gestos de generosidade, quantas lágrimas enxugadas, quantas vidas ajudadas a recomeçar, fazem parte desta história. Tudo aquilo que é feito por amor, permanece no coração de Deus. Meus queridos irmãos e irmãs, 50 anos não são um ponto de chegada, são uma responsabilidade acrescida, porque a pobreza continua a ter muitos rostos, famílias que trabalham e não conseguem viver com dignidade, idosos sozinhos e cada vez mais sozinhos.

Nestas visitas pastorais vou descobrindo que vamos ter um problema muitíssimo grave dentro de poucos anos. Não há respostas para os séniores, não há lares, não há ERPIS, sejam lá as nomenclaturas doidas que existem, não há. A esperança de vida que deve ser uma coisa positiva passou a ser um problema. Não morrem, que é uma grande chatice. Não morrem, os velhos não morrem. E é uma chatice, porque não há respostas, não há soluções. E nós vamos visitando o território e vamos vendo que é uma situação cada vez mais grave, e não há capacidade de resposta a médio e longo prazo, não há.

E somos surpreendidos, muitas vezes, demasiadas vezes, com notícias de idosos mortos em sua casa há muitos dias. Aliás, há dias no Porto, há três anos. Alguém morto na sua sala de estar, a ver televisão, há três anos. Não é possível. Não é possível. E a falha é nossa. Obviamente que é nossa.

A indiferença de quem vê e não olha, de quem conhece o sofrimento e passa adiante. O Evangelho de hoje recorda-nos que Jesus não nos pergunta apenas pelo mal que fizemos, mas também pelo bem que deixámos fazer. É neste contexto que quero reafirmar uma convicção e um compromisso pastoral. A Cáritas Diocesana é, e deverá ser sempre, o braço da caridade do Bispo. Esta é a sua identidade e a sua missão. Não deve ser entendida como mais uma IPSS, nem existir numa lógica de concorrência com as demais, sejam IPSS, com identidade canónica, sejam outras, cujo trabalho tanto valorizamos e agradecemos. A Cáritas Diocesana não é mais uma IPSS que faz coisas, é o braço da caridade do bispo, de cada bispo.

A Cáritas não existe para competir, duplicar respostas ou disputar protagonismos. Existe para animar, congregar, articular e promover a caridade em toda a diocese. A Cáritas não é do município, da cidade, da jurisdição de Setúbal. É de toda a diocese de Setúbal. Eu, percorrendo os municípios e a diocese, sinto sempre um desconforto, porque a Caritas não é de Setúbal, por muito que isso seja honroso: a Cáritas é de toda a diocese e tem que ter essa preocupação e essa consciência que é de toda a diocese

A Caridade não é um território que se ocupa nem um protagonismo que se disputa, é uma missão que se partilha. Queremos uma Cáritas que crie pontes, desperte consciências, promova a colaboração e ajude toda a Igreja diocesana a estar mais próxima de quem sofre. Porque a caridade não pode ser delegada apenas em alguns. É a responsabilidade de todos nós, também minha, como Bispo de Setúbal.

As entidades nacionais devem estar preparadas para atuar no nível nacional. Quando há um cataclismo, uma coisa qualquer que ultrapassa municípios, deve aparecer a entidade nacional. Tivemos um mau tempo, em janeiro, fevereiro, tivemos isso tudo, e vimos como isso não é, não acontece. É dito melhor assim, não acontece. Há cada um para cada lado, e depois há uns voluntaristas, e há uns não sei o que, depois já há coisas a mais, já há coisas a menos, já há uma desgraça.

Porque não estamos preparados para que o nível nacional atue quando for o nível nacional. A tal subsidiariedade da Doutrina Social da Igreja, onde cada nível respeita o nível intermédio e o nível inferior. Se há um problema a nível paroquial, é a paróquia que responde. Se há um problema a nível diocesano, é a Cáritas Diocesana que responde. A Cáritas Diocesana não responde a problemas paroquiais, responde a problemas diocesanos. E a Cáritas Portuguesa, para a animação dela, certamente, também faz esse esforço por responder a problemas nacionais. E eu dizia isto na Cruz Vermelha que visitei numa das visitas pastorais porquê? Porque num certo sítio que eu fui visitar, a Cruz Vermelha era a IPSS lá do sítio: cabazes de alimentos, visitas domiciliárias.

Nós, quando precisarmos da Cruz Vermelha Portuguesa, quando houver um incidente de dimensão nacional, precisamos que a Cruz Vermelha Portuguesa esteja em, como é que se diz, meu comandante, em prontidão. Em prontidão. Porque nunca nos acontece nada, mas um dia, infelizmente, pode acontecer. E nós temos que ter esses níveis em prontidão absoluta.

Celebrámos estes 50 anos à volta do altar e não podemos receber o pão da vida e esquecer o pão que falta na mesa de tantos irmãos. Não podemos reconhecer Cristo na Eucaristia e ignorá-lo à nossa porta. A Eucaristia que celebrámos tem de continuar na vida, nas nossas ruas, nas nossas comunidades, onde alguém espera por um gesto de proximidade e de esperança.

Querida família da Cáritas Diocesana de Setúbal, obrigado por estes 50 anos. Que a memória de D. Manuel Martins e de Eugénio Fonseca continuem a inspirar-nos. Que o testemunho de tantos que nos precederam nos dê coragem para continuar a servir com humildade, alegria e fidelidade ao Evangelho. E que um dia possamos todos escutar do próprio Jesus aquelas palavras que dão sentido a tudo: Tive fome e deste-me de comer. Tive sede e deste-me de beber. Era estrangeiro e acolheste-me.

Cinquenta anos depois, a missão continua. Porque o amor não se reforma, a esperança não desiste e a caridade não pode esperar.

Amém.

 

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