O Cardeal D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, celebra hoje, 30 de setembro, um ano após ter recebido o barrete cardinalício das mãos do Papa Francisco numa celebração que teve lugar na Praça de S. Pedro, no Vaticano, para onde agora voltou, por ocasião da sua participação no Sínodo dos Bispos, a convite do Papa.
O bispo de Setúbal, um dos mais jovens do Colégio Cardinalício, fala num primeiro ano de “adaptação a uma realidade que nenhum de nós espera, nem de nenhum de nós está preparado”. “Vamo-nos convertendo, vamo-nos adaptando. A principal questão que me condiciona, por vezes, tem a ver com a espontaneidade de uma resposta, ou de uma partilha, ou de um gesto, que tenho de ter consciência que, nesta circunstância, posso estar a vincular negativamente, ou vincular sem ter razão para isso, qualquer posicionamento do Santo Padre, ou até da Igreja, atendendo a que sou cardeal. Mas, tirando isso, é uma preparação que eu acho que dura até ao fim da vida”, considerou.
A maior “riqueza” do colégio cardinalício é a sua “diversidade”, algo que o Papa Francisco e os últimos Papas tentaram fazer. “Vamos fazendo parte de um grupo que é tão representativo do mundo, e os últimos Papas foram fazendo um esforço para que os cardeais viessem das proveniências mais diversas. E o Papa Francisco tem-nos surpreendido, com alguns como eu, enfim…”, disse o bispo de Setúbal.

Há pouco tempo, o Papa escreveu a todos os cardeais a pedir ajuda na implementação da reforma da Cúria, e nomeadamente numa urgente contenção de gastos na sua vida e na vida da Igreja. “Todos nós temos que despertar para esta nova realidade, que também nos convida a uma vida mais simples, mas também convida a termos consciência da corresponsabilidade. E eu sou corresponsável por aquilo que são as necessidades da Igreja da Roma. Qualquer paroquiano de Setúbal deve sentir-se responsável, corresponsável, por aquilo que é a vida da diocese”, avisou.
O Cardeal D. Américo Aguiar lamenta que, “em muitos sítios, em muitas geografias, deixou-se de ter consciência disto e deixou-se de praticar esta corresponsabilidade, que o Papa nos chama agora de um modo especial a atenção”, mas também avisa, por outro lado, que “o Papa Francisco, desde que chegou, pede que a Cúria Romana entenda que está ao serviço das dioceses do mundo e não uma interpretação que porventura poderia existir que as dioceses do mundo estivessem ao serviço de Roma”.
O prelado considerou também que a maior transparência pedida pelo Papa Francisco pode ajudar na estabilização desta relação do Povo de Deus em todo o mundo com o Vaticano. “Eu também estou convencido que quanto mais formos transparentes naquilo que são as necessidades, também maior será a corresponsabilidade e a adesão das pessoas, quando se identificam com essa necessidade, para fazerem a partilha necessária”, conclui.
Uma comemoração que fica então marcada pela presença inédita num Sínodo dos Bispos. “Agora é um batismo, é um batismo de sínodo, nesta circunstância de Cardeal. Estarei de corpo inteiro, o coração dividido, certamente, entre Roma e Setúbal, para aquilo que vai acontecer no mês de Outubro, e rezando para que tudo corra da melhor maneira e que possamos ir ao encontro daquilo que o Espírito diz à Igreja para os tempos de hoje”, considerou.
Foto e Entrevista: Ricardo Perna




