O Cardeal D. Américo Aguiar abriu formalmente este sábado, 26 de setembro, a Visita Pastoral à Paróquia da Amora, numa celebração na Igreja Scalabrini. Ao terceiro dia de uma visita que começou já na quinta-feira, o Bispo de Setúbal colocou a escuta, o encontro e o serviço no centro do caminho que agora se inicia também na Vigararia do Seixal. «Não venho fazer uma inspeção. Venho como Bispo, pastor e irmão», afirmou.
«Filho, vai hoje trabalhar na vinha». Foi a partir destas palavras do Evangelho que D. Américo Aguiar apresentou o sentido da Visita Pastoral à Amora, na Missa que marcou formalmente o seu início.
«Hoje. Não amanhã. Deus chama-nos hoje. A Igreja precisa de nós hoje. Esta comunidade precisa de nós hoje», afirmou o Cardeal, sublinhando que a fé não se esgota nas palavras e que «não basta dizer; é preciso fazer».
A celebração, na Igreja Scalabrini, acontece no terceiro dia da presença do Bispo de Setúbal na Amora, depois de dois dias já marcados por encontros com diferentes realidades sociais, culturais, desportivas, ambientais e religiosas do território. Formalmente, porém, é esta Eucaristia que inaugura a Visita Pastoral à paróquia e uma nova etapa das visitas pastorais na Diocese de Setúbal, agora na Vigararia do Seixal.
D. Américo apresentou a visita como uma oportunidade de recomeço e discernimento comunitário. «Não venho fazer uma inspeção. Venho como Bispo, pastor e irmão, para caminhar convosco e perguntar convosco: Senhor, que queres de nós?», afirmou.
A pergunta encontra eco na própria oração do salmo proclamado na celebração: «Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos». Para o Cardeal, estes dias devem ajudar a comunidade a reconhecer onde precisa de mudar, mas também quem precisa de ser escutado, acolhido e cuidado: «os pobres, os doentes, os idosos, os jovens, as famílias em dificuldade e aqueles que chegaram de outras terras à procura de uma vida nova».
Uma paróquia feita de muitos rostos
A dimensão da migração ganhou particular relevo na homilia, também porque a Paróquia da Amora está confiada aos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos e porque a celebração coincidiu com o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado.
«Esta terra é feita de muitos rostos, povos, culturas, histórias e sotaques», afirmou D. Américo, lembrando que a própria realidade da Amora torna especialmente atual o desafio do acolhimento.
A visita à Junta de Freguesia permitiu conhecer uma das expressões dessa diversidade: existem 122 nacionalidades residentes na freguesia da Amora.
«Esta comunidade pode e deve ser um sinal muito bonito de que em Cristo ninguém é estrangeiro. Somos irmãos e irmãs. Somos família. Todos têm lugar. Todos, todos, todos», disse o Cardeal.
A mensagem foi também enquadrada pelo apelo do Papa Leão XIV para que a atenção aos migrantes e refugiados não seja reduzida a números ou estatísticas, mas se concentre nas pessoas, nos rostos e nas histórias, com particular atenção às crianças e aos jovens que se encontram entre os mais vulneráveis.
A escolha das palavras não surge desligada daquilo que D. Américo encontrou nos primeiros dias da visita. Entre os encontros realizados estiveram instituições e projetos ligados ao acolhimento e acompanhamento de pessoas e famílias, mas também espaços onde a diversidade da Amora se manifesta no quotidiano.
Uma visita que começou por sair à rua
Antes da Missa de Abertura, o Cardeal percorreu já uma parte significativa do território da paróquia.
Na quinta-feira, primeiro dia, a visita começou na Câmara Municipal do Seixal, onde foi recebido pelo presidente da autarquia, Paulo Silva. O autarca apresentou o município como um território que procura construir pontes, promover o diálogo e trabalhar em parceria com instituições sociais, misericórdias e outras entidades.

D. Américo agradeceu o acolhimento e destacou o papel dos autarcas na qualidade de vida das populações, deixando também uma palavra de reconhecimento a quem assume funções públicas, muitas vezes com custos pessoais e familiares.
«Esta visita vai tentar ir ao encontro de todos, todos, todos», afirmou então o Bispo de Setúbal, apontando para um território em crescimento que procura deixar para trás a imagem de «dormitório» e criar condições para que as pessoas possam nascer, viver e construir a sua vida familiar no concelho.
Na Junta de Freguesia da Amora, na Universidade Sénior e nas estruturas desportivas municipais, o Cardeal encontrou diferentes gerações e diferentes formas de participação na comunidade. A Universidade Sénior envolve cerca de 1300 alunos em 175 aulas, enquanto a piscina municipal da Amora conta com cerca de 3000 utentes e a pista Carla Sacramento reúne cerca de 600 praticantes de atletismo.
Na sexta-feira, o percurso passou pelo Parque Metropolitano da Biodiversidade, um espaço com sete hectares integrado na Rede Natura e onde estão identificadas mais de mil espécies de fauna e flora.

D. Américo associou a visita ao parque ao desafio de cuidar da «Casa Comum», sublinhando que a preocupação ambiental deve traduzir-se em comportamentos concretos. «O desafio que temos é que as pessoas que falam muito sobre isto possam efetivamente praticar aquilo que falam», afirmou.
A atenção aos mais frágeis
Já este sábado, antes da Missa de Abertura, a visita passou pelos Vicentinos, que acompanham cerca de 145 famílias, num universo superior a 300 pessoas, através da distribuição de alimentos e vestuário.
O encontro permitiu ao Cardeal conhecer algumas das dificuldades concretas sentidas pelas famílias acompanhadas, incluindo situações de pessoas sem a sua situação documental regularizada. D. Américo reforçou a necessidade de que os apoios sociais sejam pensados de forma a responder às necessidades sem criar situações de dependência.

Na Igreja do Bonfim, um projeto de apoio ao estudo acompanha cerca de 20 crianças e jovens de famílias apoiadas pelos Vicentinos. Muitos dos participantes são filhos de imigrantes e encontram neste espaço não apenas apoio escolar, mas também uma oportunidade de integração e acompanhamento perante dificuldades que ultrapassam a escola. Entre os motivos de orgulho partilhados durante a visita esteve o caso de uma jovem que entrou recentemente na universidade.
Também aqui se encontra uma das preocupações expressas na homilia: perceber quem está mais vulnerável e ir ao seu encontro.
«Que guardem pelo menos uma experiência de oração»
A visita pastoral tem sido igualmente marcada pelo encontro com aqueles que asseguram a vida das comunidades. No encontro com os catequistas, no Seminário Scalabrini, D. Américo insistiu na importância de uma catequese que não seja apenas transmissão de conhecimentos.
«Podem não saber muito no fim, mas que guardem pelo menos uma experiência de oração do tempo que passam convosco», pediu.
Para o Cardeal, a oração não pode ser substituída pela tecnologia. Os catequistas têm, neste campo, uma responsabilidade particular, sobretudo perante crianças que nem sempre encontram em casa uma experiência de fé.

D. Américo pediu também um foco particular na catequese de adultos, considerando o desconhecimento da Sagrada Escritura uma das grandes fragilidades das comunidades cristãs. E deixou um apelo a que a pastoral tenha em conta as transformações da vida familiar, incluindo novos horários e novas formas de participação.
«A catequese tem de ser algo que eles gostem de fazer», afirmou, pedindo ainda aos catequistas que estejam atentos às situações particulares de cada criança e que não tenham receio de dedicar tempo a quem esteja a atravessar dificuldades.
«Ir» é a palavra da visita
Na Missa de Abertura, a mensagem regressou ao Evangelho.
«Estamos disponíveis para ir trabalhar na vinha?», perguntou D. Américo à comunidade.
E explicou o que significa esse «ir»: «Ir ao encontro. Ir servir. Ir acolher. Ir cuidar. Ir procurar quem se afastou. Ir ao encontro de quem chega. Ir anunciar Jesus.»
É também uma síntese do percurso já realizado nestes primeiros três dias: sair dos espaços estritamente paroquiais para conhecer a autarquia, as instituições, os equipamentos, os comerciantes, as estruturas sociais e desportivas, o território ambiental e as pessoas que fazem diariamente a vida da Amora.

A Visita Pastoral prolonga-se até 4 de outubro e continuará a levar o Cardeal D. Américo Aguiar a escolas, associações, equipamentos sociais e de saúde, forças de segurança, comércio, estruturas desportivas e outras instituições da freguesia. O programa inclui ainda encontros com diferentes grupos paroquiais, catequistas, jovens, escuteiros e comunidades cristãs, bem como várias celebrações.
No final da homilia, o Bispo de Setúbal deixou uma imagem que resume o horizonte destes dias: «A vinha é grande. E há lugar para todos.»
E, perante a comunidade da Amora, concluiu: «Conto convosco. Contai comigo. Caminhemos juntos. Todos, todos, todos.»
O programa oficial confirma que a visita decorre de 24 de setembro a 4 de outubro, com a Missa de Abertura marcada para 26 de setembro, na Igreja Scalabrini.
Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna




