No Centro Social Paroquial do Cristo Rei, pertencente à Paróquia de S. Francisco Xavier de Caparica, nasceu há cerca de três anos um projeto de alfabetização informal que tem transformado a vida de um grupo de alunos. O ponto de partida foi simples e profundamente espiritual: o desejo de algumas mulheres de serem autónomas na oração.
Integradas num grupo de oração, estas mulheres, provenientes de Cabo Verde, enfrentavam uma dificuldade comum. “No início, a nossa dificuldade era sempre a mesma: não sabíamos ler.”, explica Fátima, uma pioneiras deste grupo. Dependiam sempre de alguém que orientasse ou lesse as orações, a Bíblia ou outros textos. Quando essa pessoa deixou de estar disponível, perceberam que precisavam de dar um passo em frente. A iniciativa partiu delas próprias: queriam aprender a ler e a escrever para poderem rezar juntas, com autonomia e confiança.
Foi assim que contactaram o Centro Social Paroquial do Cristo Rei. “Viemos pedir escola. Queríamos saber ler e escrever.”, explica Felismina, outra das impulsionadoras desta iniciativa. Sem vagas nos programas formais existentes, acabou por nascer um grupo próprio, com uma resposta pensada à medida das suas necessidades. Mais do que uma sala de aula tradicional, criou-se um espaço de aprendizagem, partilha e encontro.
As aulas decorrem duas vezes por semana e reúnem alunos de idades, percursos e níveis de aprendizagem muito diferentes. Para alguns, trata‑se de retomar algo iniciado na infância; para outros, o primeiro contacto com as letras acontece já em idade adulta. Esta diversidade é simultaneamente um desafio e uma riqueza, marcada por uma entreajuda constante entre todos.
A professora Inês Cunha, formada para o ensino do primeiro ciclo, explica como chegou até ao projeto: “Estava desempregada e numa fase complicada da minha vida. Quando surgiu isto, pensei: é mesmo isto que vou fazer?” Aceitou o convite do Centro quase como um desafio pessoal, mas rapidamente percebeu que esta experiência seria também transformadora para si: “A verdade é que elas me salvaram”. Entre ditados, textos, histórias e partilhas, construiu‑se uma metodologia própria, sem pressas nem metas rígidas, respeitando o ritmo de cada um.
“Aqui não há um programa rígido. O objetivo é ir avançando, ganhar confiança.” Os desafios existem, sobretudo pela diferença de níveis: “Tenho pessoas que já leem e outras que ainda não reconhecem as letras. Gerir isso na mesma aula é a parte mais complicada.” Ainda assim, a entreajuda acaba por ser essencial. “Elas ajudam-se imenso. Pedem ajuda umas às outras.”
Sem avaliações nem certificações formais, este grupo celebra e partilha as pequenas conquistas como ler uma frase inteira, escrever algumas palavras ou reconhecer palavras numa oração.
Com o tempo, este projeto tornou‑se muito mais do que um curso de alfabetização. É um verdadeiro grupo de partilha, onde as histórias de vida ganham espaço e voz. “Trabalhei desde muito cedo”, conta uma das alunas. Outra confessa: “A minha mãe queria que eu fosse à escola, mas naquela altura não deu.” Há também quem admita arrependimento: “Agora estou arrependida, mas estou aqui para aprender”, depois de uma vida ao serviço dos outros, estes alunos estão aqui para, finalmente, serem o centro.
Dessa partilha nasceu um novo desafio: transformar as suas histórias em texto. Depois de lerem obras que espelhavam a experiência da migração, foram desafiados a contar as suas próprias vidas. Escritores trazidos pela professora e pelo Centro Paroquial ajudaram a dar forma às narrativas e uma fotógrafa captou os seus rostos. “O importante era que cada história tivesse uma cara”, explica a professora. O livro, a lançar em breve, reúne estes testemunhos e representa mais um passo de afirmação e valorização. A docente sublinha: “Aqui, estas alunas tornam-se a personagem principal.”
Aprender a ler abriu também portas a novas experiências. Visitas culturais, idas ao cinema, passeios a locais emblemáticos como Sintra ou os Jerónimos, algumas vividas pela primeira vez, ajudaram a “dar mundo” a quem tantas vezes passa pela cidade sem se sentir parte dela.
Hoje, todos estes alunos têm a oportunidade de se sentirem mais confiantes, mais autónomos e mais valorizados. Alguns continuam a rezar juntos, continuam ligados à paróquia e continuam a aprender não apenas letras, mas também a acreditar que nunca é tarde para começar.
No final, Felismina deixa uma mensagem simples a quem ainda hesita em dar este passo: “começar é sempre bom, nunca se sabe como vai acabar, mas a decisão de começar é importante”. O mais importante é não deixar a cabeça parada e confiar que, com apoio e coragem, é sempre possível aprender mais um pouco.
Artigo: Lara Franquelim Alves
Fotografias: Inês Cunha e Lara Franquelim Alves










