Tânia Moreira é a responsável pelo Secretariado Diocesano das Migrações que, no âmbito das comemorações do Jubileu Diocesano em Setúbal, preparar o Jubileu Diocesano das Migrações que irá acontecer no próximo dia 28 de setembro, no Santuário de Cristo Rei, em Almada. Nesta conversa, aborda a realidade das migrações na nossa diocese, assim como os desafios que se colocam à integração dos migrantes, chave vital para uma sã convivência entre todos na nossa diocese.
Porque é que se decidiu incluir o tema das migrações dentro do âmbito das comemorações dos 50 anos da nossa diocese?
Faz todo o sentido porque as migrações são uma realidade transversal, está em todo o mundo, em todo o lugar, mas na nossa diocese, particularmente, muito importante. Nós temos aqui uma população migratória bastante grande, que faz parte da história da diocese. Se pensarmos bem, ainda antes da criação da diocese, aqueles fluxos migratórios nos anos 70 e tudo que já cá haviam e esta atenção que sempre houve, ainda enquanto Patriarcado e depois com o D. Manuel Martins, que foi um bispo, o nosso primeiro bispo, que foi sempre muito amigo deste tema, que sempre apoiou e desenvolveu várias iniciativas. Por tudo isto, faz todo o sentido integrar os migrantes também nos dias de hoje.
Olhando para esta história de 50 anos, como é que tem sido esse convívio ao longo destes anos?
Acho que tem sido um convívio, por um lado, de aprendizagem, as pessoas a aprenderem, a conhecerem-se e a conviverem umas com as outras. Tem sido o desenvolvimento, o crescimento juntos, o crescimento das comunidades, muitas comunidades paroquiais acabaram por se ver revitalizadas com a presença dos imigrantes, outras integram, se calhar umas melhor do que outras, mas na grande maioria as pessoas sentem-se acolhidas e os autóctones também veem nos migrantes esta força, esta alegria. Basta vermos, por exemplo, nas missas animadas pelos coros africanos, há sempre alguém ali quase a querer começar a dançar, portanto, há um caminho que tem sido feito em conjunto e um crescimento das comunidades.
Tendo em conta todo esse caminho, tendo em conta esse crescimento que tem sido feito, considerando que 25% da população é migrante, pelo menos aquilo que nos estamos a perceber, porquê que hoje temos tão má imagem da imigração, ou se fala com tanta preocupação sobre uma coisa que já gastava tanto tempo?
Sim, é assim, a imigração existiu desde os tempos antigos, desde o tempo de Jesus, não é? Portanto, eu acho que hoje em dia tem tudo a ver com esta onda que há pela Europa toda, não é só Portugal, Portugal simplesmente vai um bocado ali por arrasto destas ideias políticas, a Europa toda está a convergir mais à direita e isto tudo leva uma ideia, a comunicação social tem esta perceção e cria esta perceção nas pessoas, incute medo. As notícias que chegam, esta ideia de que há mais criminalidade, que vêm tirar os nossos lugares, estas ideias, estes mitos, para assim dizer, que não correspondem à realidade, e é tudo o que leva a esta ideia global de que os imigrantes são um perigo para a sociedade, quando isto não é verdade, nunca foi. É óbvio que há pessoas boas e pessoas más em todo o lado, e também o que me custa mais aqui em Portugal é, tendo em conta a história do povo português, e não precisamos de ir muito longe, não precisamos ir para a época do colonialismo, nem isso, mas basta ir aos anos 50, a emigração, olhamos para a França, para o Luxemburgo, para a Suíça, portanto, se nós também vamos para todo o lado, acho que não temos o direito também de não acolher aqueles que chegam até nós.

A importância do espaço litúrgico para os migrantes é chave para a sua integração nas comunidades, diz Tânia Moreira
Por outro lado, existe toda essa narrativa que é construída, que é falada, mas por outro lado, também continuamos a ter aqui e ali problemas de integração, apesar desta história tão comprida, apesar de tantas lições que fomos tendo, a verdade é que em determinadas circunstâncias continuamos a ter problemas de integração, o que é que falta ainda fazer para trilharmos esse caminho?
Acho que os locais onde há problemas de integração são aqueles locais onde o acolhimento é feito, mas as pessoas são sempre marginalizadas. Numa comunidade paroquial, se nós não damos o lugar às pessoas para virem fazer leituras, para serem catequistas, para cantar no coro, as pessoas tornam-se marginalizadas. A mesma coisa se nós nas escolas temos professores que não acolhem, que marginalizam os imigrantes, vai crescendo também este sentimento, esta tristeza, muitas vezes esta raiva. Há pessoas que têm aqui um sentimento mesmo pior relativamente a quem os acolhe, então acaba por crescer, é um problema, porque acaba por ser um problema sistémico, muitas vezes que falha, falha desde o início e depois já é difícil combater isso.
O problema depois é que, com o afastamento, depois as próprias comunidades vão-se fechando nelas próprias.
Vão se fechando, sim.
E isso depois é uma preocupação, porque as comunidades fechadas também não se integram e nem se querem integrar.
Não se integram também, sim, e depois há ações básicas. Isto agora que se fala, esta lei, as alterações que querem fazer ao reagrupamento familiar é um atentado máximo à integração. Imagine um homem ou uma mulher que vem sozinho para Portugal e depois espera trazer a família, vêm as crianças, o esposo ou a esposa, quer dizer, se essa reunificação familiar não acontecer, esta pessoa que já cá está vai ficar isolada, automaticamente fica isolada.
Ao invés, se estiverem cá, as crianças são logo o principal meio e o mais importante de integração. Muitas vezes as pessoas chegam, nem sequer falam bem português, e através das crianças aprendem, através das crianças têm que ir à escola, têm que socializar mais, portanto, logo aí são coisas que depois falham, há ações que falham, e estas leis também podem levar a que isso ainda fique pior, porque se nós vamos isolar as pessoas, a integração automaticamente é comprometida.

A alegria contagiante dos migrantes revitaliza as comunidades, indica a responsável pelo Secretariado Diocesano das Migrações
Tornam-se focos de insegurança, porque lá está, esses indivíduos sozinhos que se vão juntando a outros indivíduos sozinhos, terão uma tendência maior para potenciar o foco de insegurança.
Sim, claro. A partir do momento em que as pessoas se sentem acolhidas, que se sentem integradas, que conseguem fazer essa integração, porque a sociedade assim os permite, depois é tudo mais fácil.
O facto das pessoas não conseguirem legalizar a sua situação, não terem documentos, faz com que tenham piores condições de trabalho, sejam exploradas, cresce o sentimento de revolta, e depois isto é uma bola de neve. As pessoas são exploradas, têm piores condições de trabalho, não se integram, marginalizam-se mais, os homens secalhar começam a beber, ou mesmo as mulheres, e depois começam a ter comportamentos desviantes, que nada ajudam na sociedade.
É um problema mais de raiz do que propriamente desta ou daquela situação?
Sim, sim, eu acho que é um problema mais de raiz, porque se as pessoas a partir do momento, e se calhar é a mesma coisa, se nós olharmos à história do povo português quando foram para a França, muitos deles tiveram dificuldade nessa questão, de ter documentos, legalização e tudo, e claro, quando as pessoas estão separadas da família, é sempre pior.
No meio de tudo isso, que papel tem a Diocese, e nomeadamente o Secretariado das Migrações, para ajudar a lidar com toda esta realidade?
Eu acho que principalmente o nosso papel passa por ser de sensibilização, sensibilizar as comunidades que o imigrante não é uma pessoa má, não é uma pessoa que vem por mal, muito pelo contrário, as pessoas vêm por bem. O Papa Leão XIV diz-nos na mensagem deste ano para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que a esperança, sendo o tema Migrantes Missionários da Esperança, a esperança é esta busca da felicidade que todos os homens têm no coração, portanto, é essa busca da felicidade que traz as pessoas até Portugal, ou as leva até França, até Espanha, até à Suíça, as pessoas procuram algo melhor para as suas vidas, portanto, logo, vêm por bem.
Nós temos aqui o papel principal de sensibilizar, de ajudar as comunidades a integrarem as pessoas que chegam. Em algumas paróquias é mais fácil, em algumas comunidades é mais fácil, porque já têm outros elementos e então integram-se mais facilmente, noutras não tanto, e nessas é basicamente dar as ferramentas para as pessoas conseguirem acolher os que chegam, integrar, dar-lhes o seu lugar, dar-lhes espaço também para viverem a sua fé.
É importante eles terem uma missa, uma Eucaristia, um encontro, terem um espaço físico onde se possam encontrar e viver a fé, que de algumas vezes é um bocado diferente da forma como nós estamos habituados a vivê-la, portanto, acima de tudo dar o espaço e o Secretariado acho que vem aqui ajudar nesse caminho e estamos disponíveis sempre para ajudar sempre que seja preciso.

25% das comunidades paroquiais da diocese são compostas por migrantes, o que é um desafio e uma benção.
A Igreja ainda é, hoje em dia, um espaço seguro para os migrantes poderem estar, viver e virem pedir ajuda, se for preciso?
Sim, a Igreja é definitivamente. Quem vem de África, são pessoas que têm uma fé mesmo muito enraizada e esta trajetória que eles fazem, esta deslocação, até chegarem até cá, são pessoas que vêm mesmo amparadas por Deus, é Deus que os guia e eles passam por tantas dificuldades que se não fosse a Igreja, muitas vezes… é na Igreja que eles refugiam naqueles momentos de tristeza, às vezes tenho pessoas que me dizem, “oh Tânia, se não fosse a minha fé em Deus eu não sei o que seria de mim”.
Muitos vão ter com os padres, conversar com eles, pedir conselhos, pedir ajuda, ajuda alimentar, bens alimentares, roupa, tudo, muitas vezes é isso e a Igreja tem um papel muito importante e vai sempre ter.
E consegue ser um papel um pouco maior do que o assistencialismo puro?
Consegue, dá também todo este apoio emocional, e este apoio religioso, porque uma coisa é só dar bens, e há muitas associações que o fazem, mas através da presença, seja dos consagrados, padres, irmãs, ou mesmo dos leigos que estão ao serviço, as pessoas conseguem ter o outro apoio que também precisam, o ombro amigo, para chorar se for preciso, o abraço quando é preciso também, portanto, definitivamente conseguem ter esse apoio na Igreja.
E do próximo jubileu que vamos celebrar agora, no dia 28, podemos esperar um dia de muita festa?
Sim, é um dia de muita festa, eu acho que vão correr connosco do santuário às 19 horas (risos). Vamos começar com a Eucaristia, claro, não podíamos começar o dia de outra forma que não com a celebração mais importante, depois vamos almoçar todos juntos, porque sempre que há imigrantes, há panelas, há comida, tem que haver essa festa.
Depois preparámos ali um pequeno momento de oração, vamos fazer também um bocado da simbologia do jubileu, da peregrinação à porta santa, que vamos ali caminhar até à capela do santuário para fazer esse momento de oração, e depois temos aqui grupos de várias paróquias que nos vão animar com as suas músicas, vão cantar, trazer os seus trajes, os seus batuques, as suas pandeiretas, portanto, vai ser um dia bem, bem animado.
Entrevista e fotos: Ricardo Perna




