A Ir. Carla Barbosa é a presidente da CIRP Regional de Setúbal, e está responsável pela organização do Jubileu da Vida Consagrada, que acontece a 2 de fevereiro na nossa diocese com um momento de adoração e eucaristia para todos os religiosos da diocese com o seu bispo, Cardeal D. Américo Aguiar. Estivemos à conversa sobre a realidade da Vida Consagrada na nossa diocese e os desafios que hoje se colocam aos religiosos.
Irmã Carla, começava por lhe perguntar como é que olha para estes 50 anos de presença da vida consagrada nesta diocese?
Olha, antes de mais, obrigado ao Ricardo e à diocese de Setúbal por nos proporcionar também este momento de darmos graças, que é um pouco este o meu principal e primeiro olhar sobre a vida consagrada ao longo destes 50 anos. Um olhar agradecido por tanto bem feito, tanto bem recebido também.
E fazendo esta memória agradecida, posso talvez pousar o olhar em tantos rostos, tantas vidas que ao longo destes 50 anos deram de si, deram do seu carisma próprio, à vida da Igreja neste território concreto, e sabendo desde já que muitas das congregações que estão ou estiveram aqui em Setúbal chegaram até muito antes da criação da diocese. Fazem parte integrante desta Igreja particular e é bom darmos graças antes de mais por isso, por nos sentirmos parte.
Muitas das congregações já cá estavam, outras chegaram. Como é que foi esta adaptação a uma nova diocese, a uma nova realidade?
Bom, do conhecimento que eu tenho, a maior parte de facto das congregações já cá estavam em Setúbal, ou seja, pertenciam ao Patriarcado de Lisboa na altura, e portanto permaneceram.
As que chegaram depois, foi a pedido ou consoante as necessidades próprias deste contexto. E mesmo as que estavam vieram porque respondiam às necessidades concretas e a passagem para, digamos, este novo modo de organização, como a nova diocese, penso que foi fundamental também, pensando sobretudo nas congregações masculinas, onde muitos dos irmãos são padres. Contribuíram muito para o apoio pastoral de tantas paróquias quando a Igreja de Setúbal estava a começar, como diocese, e não tinha um clero ainda suficientemente numeroso para assumir estas realidades. Então foi muito também com a ajuda dos institutos religiosos masculinos, que hoje ainda permanecem também.
A nível de vida religiosa feminina, foi muito o apoio social, e sabemos como são as características próprias deste território, carências de vária ordem a nível da infância, a nível da saúde e muito do apostolado destes institutos foi ao encontro da necessidade deste povo e desta Igreja.

Falou efetivamente nesta área social. Como é que tem sido a evolução da intervenção dos institutos de vida consagrada aqui na diocese? Tem havido alguma mudança na abordagem ao trabalho pastoral que é feito?
Sim, posso dizer que sim, até porque os tempos se vão alterando e, portanto, as configurações pastorais também. Se olharmos um pouco historicamente, é verdade que há 50 anos havia muito mais gente, se vamos pensar logo por aí. Havia muito mais membros dos institutos, as comunidades eram mais numerosas e, portanto, havia uma intervenção muito mais, digamos, visível.
Estou a pensar, por exemplo, a nível das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras de Nossa Senhora, que sempre estiveram muito presentes aqui na diocese na área da saúde, desde o início, muito antes até da criação da diocese.
Devido a estas mudanças, temos menos vocações, é um dado que todos conhecemos, a configuração também da presença foi-se alterando, mas atrevo-me a dizer que não podemos ceder ao perigo de pensar que, por sermos menos, deixamos de fazer. A nossa forma de presença tem que se configurar também com a própria mudança social e também congregacional, que é mesmo assim.
Mas posso dizer que no início havia uma intervenção, talvez nos 20, 30 primeiros anos, uma intervenção muito objetiva, as Irmãs Salesianas com o Colégio de Santa Ana, as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria com a intervenção social, pastoral, as Auxiliadoras da Caridade também com a obra social, a Casa de Oração de Santa Rafaela Maria…
Agora vamos estando atentas aos sinais dos tempos também para perceber, com os meios que temos, como podemos continuar a ser presença do Evangelho, presença também carismática que nos é própria.
Há uma presença mais esperada em termos sociais, em termos de educação, em termos de tudo mais, mas há também uma forte presença espiritual em termos de oração. Este é um aspeto da vida religiosa que pode passar mais despercebido ou não ser tão visível, mas que efetivamente tem um peso grande em todo o lado, tem também um peso grande aqui na nossa diocese?
Tem, e isso sem dúvida, até porque faz parte integrante do ser vida consagrada. É um pouco aquilo que nos distingue no meio do povo de Deus e também aquilo que somos chamadas a viver antes de fazer. A parte social e a parte educativa é muito boa, a parte do apostolado, mas isso só faz sentido se estiver ancorado, se estiver inscrito na nossa identidade primeira, que é ser.
E o ser consagrado, como o próprio nome indica, é sermos para o Senhor e do Senhor. E isso vive-se, sim, numa vida de oração, ou seja, só faz sentido darmos catequese ao serviço dos pobres, numa obra social ou numa obra de educação ou num hospital, se cultivarmos este aspeto. E em muitos lugares este aspeto da nossa espiritualidade, da nossa base enquanto consagradas é também posto ao serviço da comunidade, ou seja, os espaços de acolhimento, as nossas vidas que falam por si, que devem falar por si, testemunham de facto que há aqui uma forte presença de ser, mais do que fazer coisas.

E há pedidos das pessoas nesse sentido, ou seja, continua a haver esta, embora se possa às vezes não compreender, esta ânsia da oração e esta necessidade da presença de oração na vida?
Sim, Ricardo, sem dúvida, porque eu atrevo-me a dizer que é uma das grandes necessidades do nosso tempo e é uma das grandes respostas que podemos dar enquanto vida consagrada. É oferecer aquilo que o mundo não nos pode dar: espaços de silêncio, espaços de oração, espaços e oportunidades de verdadeiro encontro com o Senhor.
E este, num mundo onde parece que Deus não faz falta e onde os valores do Evangelho parece que perderam significado, se calhar o nosso papel ou a nossa missão específica é oferecer isto mesmo. E as pessoas têm necessidade disto. As pessoas têm necessidade e procuram-nos por isso mesmo, já não tanto por sermos boas profissionais disto ou daquilo, mas porque talvez encontrem, e aqui está também este testemunho de vida, encontrem algo que não se encontra em sítio nenhum. E isto é uma grande responsabilidade, sem dúvida.
Arrisco dizer que será, sempre foi, mas hoje em dia cada vez mais, uma das maiores riquezas que a vida consagrada terá para apresentar ao mundo.
Sim, sem dúvida. Também é um grande questionamento e perguntava-me há pouco se isto é compreendido. Às vezes não é compreendido, mas também não deve ser isto que nos deve preocupar. E aliás, parece-me que também é muito positivo quando a nossa vida levanta questões.
Ou seja, quando as pessoas, os leigos, mesmo aqueles que não acreditam, olham a nossa forma de viver e se põem em questões. Como é que será viver assim? O que é que leva aquelas pessoas a deixarem tudo, a viverem comunitariamente, a porem em comum os bens, a viverem esta questão da disponibilidade total? Isso é bom, isso é bom.
A Igreja vive agora um processo pós-sinodal que de alguma forma toca também a questão da vida consagrada. Como é que em Setúbal se está a viver também este processo, na coincidência de um Jubileu também que nos aponta para o futuro e nos leva a pensar no futuro?
Sim, celebrar um Jubileu, e um Jubileu que vem na sequência de um sínodo, ou que ainda está entranhado na dinâmica sinodal, acho que é uma graça muito grande. E para nós, vida consagrada, nesta diocese concreta, procuramos também, tanto quanto pudermos, esta consciência de que é juntos. Juntos, como Igreja. Já não é o meu cantinho, a minha pastoral, a minha congregação, mas esta consciência de que é necessário caminharmos juntos para nos escutarmos, para partilharmos as alegrias e as dores deste caminhar juntos.
E é verdade que a nível diocesano, a nível universal, vivemos também o jubileu da esperança. E como diz o próprio Papa Francisco, onde estão os consagrados está a alegria. E para nós, onde estão os consagrados, há de haver também um rosto de esperança.
Por isso, talvez a nossa forma de especificar a nossa vocação possa ser um sinal de que a nossa vida bem vivida pode ser a esperança para muitos, e colocando a riqueza da nossa diversidade. Nós temos, neste momento, 8 congregações ou institutos masculinas e 10 femininas na nossa diocese. Desde os inícios da criação da diocese, mesmo antes, já passaram outros institutos que, entretanto, deixaram. Ou seja, mais de 300 vidas, homens e mulheres consagrados, passaram ou estão na nossa diocese. Isto é um sinal de esperança. E certamente que hoje, ao celebrarmos o Jubileu dos 50 anos da nossa diocese, somos herdeiros também destas vidas, destes testemunhos. E isso é um bom sinal de comunhão, de visão de futuro também, de continuidade, creio eu.

Que futuro podemos esperar para a vida consagrada aqui na diocese, projetando, tentando pensar não só a realidade sindical que vivemos, mas o Jubileu que nos leva a pensar nos próximos tempos? Que papel deve ter, de facto, a vida consagrada na nossa diocese e que papel precisa ela de assumir na nossa diocese?
Olha, parece-me que, intuo, e tenho refletido que o papel e o sinal e a presença da vida consagrada hoje aqui na diocese há de passar muito pela verdade fundamental do Evangelho, que é ser sal da terra e luz do mundo. E ser sal e luz muitas vezes tem que aparecer de uma forma discreta, continuar a ser de uma forma discreta, não procurar as grandes coisas, mas a partir do pequeno, do humilde, da presença atenta e próxima às grandes necessidades do nosso povo e da própria Igreja, que é de diferente, algo que nos é específico.
Somos discípulos de Cristo, deixamos tudo, identificamo-nos com a sua forma de viver, portanto é isto que temos a dar também à Igreja de Setúbal, ser memória e lembrança de que toda a Igreja, seja ela particular ou universal, é chamada a pôr-se nas pegadas do Cristo, cada um segundo a sua vocação. E assim, a nível de um futuro, acho que realmente aquilo que eu dizia antes, já não somos tantos, mas não podemos ser, baixar a qualidade de presença. Moldar, estarmos atentos aos sinais dos tempos.
A Igreja de Setúbal transformou-se ao longo destes anos. Como é que nós, enquanto vida consagrada, com a particularidade, cada carisma tão diferente, podemos contribuir para que o Evangelho continue a chegar a todos, todos? Acho que é um pouco este o grande desafio, que nos cabe a todos, não importa a idade, não importa se fazemos isto ou aquilo, importa a forma como se vive e o testemunho alegre da nossa vida.
Somos felizes, por isso esta alegria há de trespassar para tudo.
Entrevista e fotos: Ricardo Perna




