Cardeal D. Américo Aguiar: “Perdemos o gosto de escutar o outro”

Jan 13, 2026

 

O Cardeal D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, participou no Consistório Extraordinário convocado pelo Papa Leão XIV em janeiro e partilhou as suas impressões sobre aquela que considera ter sido “acima de tudo, uma experiência de escuta”. Em declarações após o encontro em Roma, o prelado português defendeu uma Igreja mais sinodal, onde leigos e clérigos trabalhem em conjunto, e elogiou o papel que o Papa norte-americano pode desempenhar num mundo marcado por crescentes tensões geopolíticas.

D. Américo Aguiar sublinhou que o Consistório foi pautado pela vontade de escutar, começando pelo próprio Santo Padre. “O Papa, de entrada, disse exatamente isso: eu estou aqui para vos escutar”, recordou o cardeal, acrescentando que esta postura reflete um caminho que a Igreja tem vindo a percorrer. “É interessante como, com o tempo, vamos assimilando, na nossa vida, o gosto, o desejo, a vontade de escutar, de escutar o outro”, afirmou, alertando para o risco de “matar a sinodalidade por excesso de vulgarização do termo”. O bispo de Setúbal insistiu na necessidade de “colocar na prática o como fazer”, transformando a sinodalidade numa experiência concreta de escuta e partilha de responsabilidades.

Durante o Consistório, o colégio dos Cardeais foi chamado a pronunciar-se sobre quatro questões, das quais escolheu duas para debate aprofundado. O Papa Leão XIV anunciou que pretende convocar anualmente encontros deste tipo, de três ou quatro dias, com o objetivo de reforçar o conhecimento mútuo entre os cardeais e criar espaços de oração e escuta conjunta. “Era uma das nossas fragilidades no Conclave, manifestámos isso não nos conhecendo, na verdade, na maioria”, admitiu D. Américo Aguiar, que vê nesta iniciativa um novo modelo de relação entre o Papa e a hierarquia católica. Já no final de junho está previsto um novo Consistório Extraordinário, perto dos dias em que se celebra a solenidade de São Pedro e São Paulo.

O cardeal português reconheceu que a formação dos responsáveis eclesiásticos não tem privilegiado a escuta. “A nossa formação não é muito nesse sentido”, confessou, defendendo uma mudança de paradigma que deve começar na formação dos seminaristas e agentes pastorais, mas que se estende à sociedade em geral. “Nós perdemos, ou o tempo, ou a disponibilidade, ou o gosto de escutar o outro. Pelo contrário, nós, quando perdemos um momento, até falamos mais alto, para ver se vai pelo barulho, e não vai pela razão”, lamentou, apontando um “déficit de escuta” visível tanto na Igreja como nas instituições internacionais e na sociedade em geral.

Sobre o papel dos leigos na Igreja, D. Américo Aguiar foi claro: “Os padres não são monarcas, nem os leigos mini-clérigos”. O prelado defendeu que clérigos e leigos devem assumir e sublinhar as suas identidades próprias, sem invadirem mutuamente os seus territórios. “Quando o clérigo quer ir para o território do leigo, e quando o leigo quer ir para o território do clérigo, eu acho que nós não estamos a corresponder àquilo que é o Evangelho propriamente dito”, afirmou. Para o cardeal, a solução passa por dinamizar estruturas já existentes, como os Conselhos Pastorais Paroquiais e os Conselhos Diocesanos de Pastoral, espaços onde a sinodalidade se pode concretizar na prática.

O bispo de Setúbal admitiu sentir “alguma dificuldade em concretizar a constituição destas entidades” na sua diocese, reconhecendo que é necessária uma preparação de ambas as partes. “Também houve uma desvinculação. Eu se interpelar um leigo sobre um assunto, ele fica muito atrapalhado, porque há muito tempo ninguém pergunta nada”, observou. D. Américo Aguiar rejeitou a ideia de uma maior autonomia apenas dos leigos, preferindo falar de decisões tomadas em conjunto. “O que nós estamos a tentar dizer é que não é o A ou o B, é AB”, explicou, dando o exemplo de um pároco que, perante a necessidade de reorganizar horários de missas em várias paróquias, convocou os conselhos pastorais para encontrar uma solução. “Foi fruto de um processo de sinodalidade e escuta. Ora, se o sacerdote tivesse feito a mesmíssima proposta da sua auto-iniciativa, acredito que teria reação negativa”, ilustrou.

Quanto ao papel do Papa Leão XIV no cenário internacional, D. Américo Aguiar considera que o pontífice pode assumir-se como uma voz de consciência num mundo cada vez mais conturbado. “O Papa tem-nos transmitido, tem-nos testemunhado, tem-nos contagiado com o Cristocentrismo”, afirmou, sublinhando que o Santo Padre coloca sempre “no centro aquilo que é o anúncio do Cristo vivo”. Num tempo marcado por aquilo que o cardeal classificou como “um certo déficit de vozes encantatórias no mundo”, o Papa norte-americano pode destacar-se como uma liderança aceite e ouvida globalmente. “Se nós perguntarmos quem são as lideranças do mundo que são aceites e ouvidas pelo mundo inteiro, nomeadamente quando vivemos dificuldades, eu não sei quem é que se destaca hoje”, questionou.

O facto de o Papa ser norte-americano pode, na opinião de D. Américo Aguiar, facilitar o seu papel de mediador. “O Papa Leão viveu 20 e tal anos da sua vida em Chicago. Portanto, é alguém que sabe decifrar o gesto, o sentimento, as palavras e as decisões”, observou o cardeal, considerando que esta proximidade cultural é “um pormenor muitíssimo importante para entender quem são os equilíbrios da sociedade americana”. Além disso, a mensagem da “paz desarmada e desarmante” que o pontífice tem vindo a promover é, segundo o prelado português, “particularmente provocadora para todos, para o mundo católico, mas também para o mundo em geral”.

D. Américo Aguiar traçou um quadro preocupante da situação internacional, referindo-se à “destruição do edifício pós-Segunda Guerra Mundial” e ao falhanço das instituições criadas há 80 anos. “As Nações Unidas, eu confesso, há décadas ouvimos dizer que isto ia acabar mal, que era precisa reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Acho que já não é preciso dizer mais nada, que acabou tudo mesmo muito mal”, afirmou, lamentando que tal aconteça durante o mandato do português António Guterres como secretário-geral. Neste contexto de desarticulação das instituições de segurança internacional, o cardeal vê no Papa alguém que “pode ter um papel essencial naquilo que significa a neutralidade e naquilo que significa o desejo do bem comum”. “Quando nós estamos a ver que o critério deixou de ser o bem comum e passou a ser o meu interesse, do meu país, da minha economia, a partir daí, alguém tem que chamar a humanidade à razão”, defendeu.

Durante a sua estadia em Roma, D. Américo Aguiar teve uma conversa com o Papa Leão XIV, a quem transmitiu uma mensagem dos paroquianos de Santiago de Almada, que o haviam libertado da visita pastoral para participar no Consistório. O Santo Padre manifestou gratidão aos fiéis e ao pároco, tendo também sublinhado, no seu discurso final do Consistório, a importância das visitas de proximidade. “Esta proximidade, esta empatia no anúncio do Evangelho do Papa aos pastores”, como referiu o cardeal português, surge como mais um sinal de uma Igreja que procura estar mais próxima das comunidades e dos seus desafios quotidianos.

 

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