A Diocese de Setúbal assinalou o jubileu dos seus 50 anos de fundação com uma peregrinação diocesana a Santiago de Compostela que reuniu 600 fiéis na cidade galega. Durante cinco dias, 90 peregrinos fizeram o percurso a pé até à meta final, onde se juntaram a outros 510 que chegaram por diferentes meios de transporte para participar na celebração dominical na Catedral.
O Cardeal D. Américo Aguiar presidiu à Missa do Peregrino na Catedral de Santiago, onde dirigiu uma homilia centrada no seguimento radical de Cristo que o Evangelho do dia nos falou. “Quem não carrega a sua Cruz e não renuncia a todos os seus bens não pode ser meu discípulo”, citou o prelado, recordando as palavras exigentes de Jesus. “Não são palavras fáceis, mas são claras. Seguir a Cristo é pô-lo em primeiro lugar e escolher o essencial é viver com a valentia da fé.”

Dirigindo-se especificamente aos peregrinos sadinos que encheram a catedral espanhola, D. Américo Aguiar destacou o “testemunho de fé e de esperança” que ali os trouxe. “Peregrinos da nossa amada diocese de Setúbal, a vossa presença aqui é um testemunho de fé e de esperança. O vosso esforço no Caminho é uma catequese viva: recordais a todos que ser cristão é caminharmos juntos, com a cruz aos ombros e a alegria no coração.”
Durante a celebração, o Cardeal estabeleceu uma ponte histórica entre o apóstolo Santiago e a tradição peregrina, lembrando que “o apóstolo Santiago compreendeu, deixou tudo e foi discípulo até dar a sua vida”. Evocou ainda a aparição da Virgem Maria ao apóstolo em Saragoça, sublinhando que “Nossa Senhora do Pilar foi para ele fortaleza e consolo” e que “também nós precisamos desse pilar: Maria sustém-nos no caminho da fé”.
A homilia ganhou particular relevância ao recordar as visitas papais a Santiago de Compostela. D. Américo Aguiar referiu que “nesta catedral, também ressoou a voz dos Papas: João Paulo II, em 1982 e 1989, pediu à Europa que voltasse às suas raízes cristãs”, acrescentando que “como é tão atual e urgente fazê-lo nos dias de hoje”. Mencionou igualmente a visita de Bento XVI em 2010, que “recordou que em Santiago encontramos Cristo Vivo, que nos envia em missão”.

O prelado fez questão de evocar uma figura histórica portuguesa ligada ao Caminho: a Rainha Santa Isabel. “Há 700 anos, em 1325, também a Rainha Santa Isabel de Portugal veio como peregrina até Compostela”, recordou, destacando-a como “mulher de paz e de reconciliação” que “quis deixar aqui o seu testemunho de fé e de confiança no Apóstolo”. Esta memória, segundo o Cardeal, “ilumina o nosso caminho e recorda-nos que a peregrinação une os povos, fortalece a fé e abre o coração à paz”.
A dimensão da paz foi particularmente sublinhada na mensagem, com o Cardeal a pedir “paz na Ucrânia, na Terra Santa… uma paz para todos, todos, todos”, repetindo por três vezes a palavra “todos” para enfatizar a universalidade do seu apelo.
Na conclusão da homilia, o Cardeal estabeleceu uma ligação entre as figuras históricas e os jovens santos contemporâneos, pedindo que “o Apóstolo Santiago nos anime, que Nossa Senhora do Pilar nos sustenha, que Santa Isabel de Portugal interceda por nós, e que Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati inspirem, sobretudo aos jovens, a pormos Cristo sempre em primeiro lugar”.

Após a celebração, na icónica Praça do Obradoiro, D. Américo Aguiar fez um balanço da peregrinação em que o agradecimento se misturou com o desafio missionário. “É o momento de agradecer”, começou por dizer, dirigindo as suas palavras “ao staff, à organização, aos mais de 100 que caminharam, aos quase 500 que vieram por outros meios, mas agradecer a todos, porque os que viemos representamos todos, todos, todos”.
O Cardeal transformou então o momento de gratidão numa “palavra de agradecimento e de provocação”, desafiando os peregrinos: “agora os peregrinos transformam-se em missionários, missionários da Esperança deste ano jubilar que estamos a viver, na Igreja e na Diocese de Setúbal.”
As declarações de D. Américo Aguiar revelaram ainda a motivação histórica desta peregrinação jubilar. “A Diocese de Setúbal durante séculos dependeu ou esteve na jurisdição da Ordem de Santiago”, explicou o prelado. “Ora, é essa memória histórica, agradecida, que nos fez peregrinar a Compostela”, concluiu.
Ana Margarida Chagas, antiga chefe regional de Setúbal do CNE, liderou a equipa de escuteiros que deu apoio aos peregrinos a pé, e estava impressionada com o bom desempenho de todos. “A grande surpresa para quem organizou foi, efetivamente, que não veio ninguém às carrinhas, praticamente chegaram todos a pé, bem cuidados, bem motivados e isso foi uma graça grande”, refere a dirigente escutista, que acrescenta que foi possível observar os frutos que a caminhada e a oração traziam a cada dia que passava. “Não sei se haverá uma próxima peregrinação tão cedo, pelo menos nestas circunstâncias, mas penso que nestes, mexeu por dentro, porque a chegada, no fundo marca, mas o caminho realmente transforma”.
A responsável pela peregrinação acredita que “esta peregrinação vai fazer de nós mais diocese, com mais gente, mais confissões, e tudo com os olhos postos aqui, em Santiago”, conclui, confiante.




