O Santuário de Cristo Rei, em Almada, acolheu este domingo o Jubileu Diocesano dos Migrantes, inserido nas comemorações dos 50 anos da Diocese de Setúbal. Numa celebração eucarística presidida pelo Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, centenas de fiéis de diversas nacionalidades reuniram-se para assinalar esta data especial, desafiando as condições meteorológicas adversas.
Na sua homilia, D. Américo Aguiar fez um apelo veemente à fraternidade universal, lembrando que “todos, todos, todos somos migrantes”. O prelado, natural do Porto, usou a sua própria experiência para ilustrar esta realidade: “A viagem é mais longa ou mais curta. Eu sou migrante, sou do Porto. São 314 quilómetros. Há outros que são migrantes de outros sítios. 1.000 quilómetros, 2.000 quilómetros, 3.000 quilómetros. Mas é uma questão de quilómetros só.”

O Cardeal centrou a sua reflexão na parábola do rico e do pobre Lázaro, alertando para a necessidade de reconhecer no próximo um verdadeiro irmão. “Quando nós olhamos para o outro e não vemos uma ameaça, não vemos um concorrente, não vemos um problema, nem vemos, como alguns também veem, um recurso humano, mão de obra. Não. Eu olho para o próximo e, como filho de Deus, vejo um irmão”, afirmou.
D. Américo Aguiar referiu que, “às vezes, constatamos, eu ou algum de nós, que não estamos à altura desse testemunho”. “Às vezes, quando miramos o próximo, quando cruzamos os nossos olhos com o do próximo, não estamos a ser verdadeiramente filhos de Deus e, muito menos, a sentirmo-nos irmãos. E o que está a faltar é exatamente isso, meus queridos irmãos e irmãs, é verdadeiramente nos sentirmos irmãos. Independentemente da geografia, independentemente da cor da pele, independentemente dos traços culturais, independentemente da língua, independentemente de tantas outras coisas que nos tornam diferentes, mas não uma ameaça. Quanto mais diferentes, mais ricos”, defendeu o prelado.
Durante a celebração, D. Américo Aguiar destacou ainda o trabalho desenvolvido há mais de 50 anos pelos padres scalabrinianos no território da Diocese de Setúbal, cuja “matriz, a identidade é, há mais de meio século, de facto, este trabalho muito próximo dos irmãos e das irmãs que se encontram em situação de migrantes”.

“A questão dos migrantes nunca foi um problema”
No final da celebração, em declarações aos jornalistas, o Cardeal D. Américo Aguiar abordou a realidade migratória no território diocesano, que conta com quase um milhão de habitantes. Segundo os últimos censos diocesanos, cerca de 25% são “irmãos e irmãs que gastaram mais quilómetros para estarem aqui juntos”. “Lembrando até o Sr. D. Manuel Martins, o Primeiro Bispo de Setúbal, digamos que a questão dos migrantes nunca foi um problema. Foi sempre uma oportunidade de nos aproximarmos, conhecermos, amarmos, respeitarmos”, afirmou D. Américo Aguiar.
O prelado reconheceu a existência de dificuldades, mas sublinhou que estas devem ser resolvidas “todos juntos, como existem em todos os territórios, em todas as dioceses, em todos os municípios, de norte a sul do país, continente e ilhas”.
Questionado sobre as políticas migratórias e as alterações legislativas, o Cardeal usou uma metáfora doméstica para explicar a sua posição: “Eu em minha casa posso acolher 20 pessoas. Posso acolhê-las respeitando-as, com comodidade, com os mínimos necessários. (…) Se eu disser que podem vir todas as que quiserem, parece simpático, mas depois vão chegar mil, e eu não vou conseguir acolhê-los todos.”

D. Américo Aguiar alertou para os perigos da indefinição legal, citando as palavras da atual Ministra da Administração Interna: “O pior que pode acontecer para os irmãos e irmãs migrantes sem papéis (…) é essa indefinição, de maneira a que eles caiam nas redes de exploração. E é isso que acontece.”
O Bispo de Setúbal defendeu que “nós temos que ter regras, regras que significam maior respeito por aqueles que vêm ao nosso encontro”, criticando a instrumentalização política desta questão: “Não ajudam a encaixar nem a refletir livremente o assunto, porque depois fica refém ou da direita ou da esquerda ou de radicalismos.”
Sobre as próximas eleições autárquicas, D. Américo Aguiar deixou um conselho aos candidatos: “Cada autarquia, cada presidente, seja de freguesia, seja de Câmara, deve tentar corresponder àquilo que são os anseios, os sonhos e as possibilidades”, lembrando que “estamos a falar de pessoas”. “Não estamos a falar de números, de estatísticas, de etnias, de raças”, avisou.
O Cardeal concluiu as suas declarações reafirmando a sua confiança: “Eu estou em Setúbal há dois anos e se me disserem que aqui a questão dos migrantes, os problemas, as dificuldades são esmagadores… não, absolutamente não. Há problemas, há dificuldades, mas todos juntos seremos capazes de os ultrapassar.”




