D. Américo Aguiar na Ceia do Senhor: «Não há Eucaristia verdadeira sem serviço concreto»

Abr 2, 2026

A Sé de Setúbal encheu-se, na tarde desta Quinta-feira Santa, para a celebração da Missa da Ceia do Senhor (Coena Domini). A liturgia, que recorda a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, foi presidida pelo Cardeal D. Américo Aguiar, que centrou a sua homilia na dicotomia entre o amor radical de Jesus e as traições quotidianas do ser humano.

O Bispo de Setúbal despojou-se das vestes solenes para lavar os pés a seis jovens escuteiros. Para D. Américo, este gesto não é apenas uma encenação histórica, mas uma definição de identidade para os cristãos de 2026. «Este gesto é absolutamente desconcertante. O lava-pés recorda-nos que não há Eucaristia verdadeira sem serviço concreto. Ajoelhar-se diante do outro, cuidar, servir, tornar-se pequeno para que o outro cresça — esta é a lógica de Deus», referiu.

Durante a homilia, o prelado sadino lançou perguntas inquietantes à assembleia, desafiando a uma reflexão sobre a verdade da comunhão e a facilidade com que se julga o próximo. «No mais profundo de nós, não corremos o risco de nos colocarmos do lado “certo”, separando o trigo do joio? Somos trigo? Somos joio?», questionou.

D. Américo não evitou a figura de Judas Iscariotes, utilizando-a como um espelho para a atualidade. Num tom de profunda autocrítica pastoral, o Cardeal perguntou se, «em algum momento da nossa vida, somos também nós Judas? Traímos Jesus nas pequenas escolhas, nas omissões, nas incoerências? Traímos os outros, ferindo, julgando, afastando, usando a agressividade como linguagem?»

A atualidade internacional também ecoou na Sé de Setúbal. O Bispo lamentou que, em pleno 2026, a violência continue a impedir a vivência plena da Páscoa em lugares sagrados, estabelecendo uma ponte direta entre o altar e os cenários de conflito.

«Não podemos ignorar que, nesta mesma hora, há guerras a destruir vidas, famílias, povos inteiros. Em Jerusalém, lugar santo, não é possível viver plenamente estas celebrações em comunidade», afirmou, citando de seguida o Papa Leão XIV para sublinhar que «a paz é uma presença e um caminho». D. Américo foi taxativo: «Não podemos comungar o Corpo de Cristo e viver na lógica da divisão, da agressividade, da indiferença.»

Apesar do tom interpelativo, a mensagem final foi de esperança. O Cardeal recordou que a noite da Quinta-feira Santa, embora marcada pela iminência da traição, «termina no amor». «Sabemos que o perdão terá sempre a última palavra. É desta redenção que nasce a Boa Nova. É este amor de Deus que nos salva, que nos surpreende, que nos levanta sempre de novo.»

A celebração terminou com a trasladação do Santíssimo Sacramento para o sacrário, num clima de silêncio e adoração, preparando a diocese para a Sexta-feira da Paixão. D. Américo Aguiar confiou o caminho pascal a Santa Maria da Graça, padroeira da diocese, pedindo que a Igreja de Setúbal saiba ser, no mundo, um sinal vivo de quem «serve, ama e constrói a paz».

Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna

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