Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes: D. Américo Aguiar desafia clero a reforçar a proximidade e o cuidado

Jun 13, 2026

 

Encontro diocesano reuniu dezenas de sacerdotes no Santuário de Cristo Rei, em Almada, numa jornada marcada pela oração, pela fraternidade e pela reflexão sobre o ministério sacerdotal.

O Santuário de Cristo Rei, em Almada, acolheu esta sexta-feira o encontro do clero da Diocese de Setúbal, promovido pelo Cardeal D. Américo Aguiar, no âmbito do Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. A iniciativa reuniu várias dezenas de sacerdotes, diáconos e seminaristas, numa jornada de partilha e renovação espiritual que teve como ponto alto a celebração da Eucaristia presidida pelo bispo diocesano.

Na homilia, D. Américo Aguiar deixou uma forte mensagem de proximidade, gratidão e cuidado para com os sacerdotes, reconhecendo os desafios e as fragilidades que marcam hoje o exercício do ministério. O cardeal sublinhou que a Igreja deve estar atenta às marcas deixadas pelo desgaste e pelas dificuldades, defendendo uma maior cultura de apoio mútuo dentro do presbitério.

«Estou convencido que isso vai colocando cicatrizes, vai colocando feridas no coração dos nossos sacerdotes», afirmou, referindo-se ao impacto das críticas, das generalizações e das notícias negativas que recaem sobre a vida e a missão dos ministros ordenados. Nesse contexto, pediu que o Sagrado Coração de Jesus seja «paliativo daquilo que significa o sofrimento de tantos sacerdotes que, por suma e variedade, sofrem tanto, diariamente».

A partir da experiência das visitas pastorais que tem vindo a realizar desde o início do ano, D. Américo Aguiar destacou a riqueza humana e espiritual das comunidades da Diocese de Setúbal. «O Portugal real é muito melhor que o Portugal mediático», afirmou, acrescentando que, no contacto direto com as pessoas, encontra «tanto de bem, de belo e de verdadeiro» que acontece todos os dias e que nem sempre ganha visibilidade.

Na sua reflexão, o cardeal insistiu na necessidade de recentrar o ministério sacerdotal naquilo que lhe é essencial. «Cada vez mais temos que nos colocar no foco, exatamente naquilo que é exclusivo da nossa condição: celebrar a Eucaristia, confessar e ungir os doentes», afirmou, valorizando, ao mesmo tempo, o papel e a corresponsabilidade dos leigos na missão evangelizadora.

Outro dos aspetos centrais da homilia foi a preocupação com a saúde e o equilíbrio dos sacerdotes. D. Américo apelou à criação de uma maior rede de proximidade e fraternidade entre os membros do clero, para que ninguém enfrente sozinho as situações de cansaço, desgaste ou sofrimento. «Temos que estar atentos, muito atentos, e acionar as ligações de amizade mais profunda», referiu, reconhecendo que ainda existe dificuldade em abordar, de forma aberta, as questões ligadas à saúde mental.

O bispo de Setúbal retomou ainda a sua Nota Pastoral Cuidar com o Coração, defendendo que a presença dos sacerdotes junto dos que vivem a doença, o luto e a fragilidade constitui «um lugar teológico urgente, necessário, de primeira ordem». Para D. Américo Aguiar, a missão passa, muitas vezes, por uma presença discreta, mas significativa: «Nós possamos estar, às vezes sem dizer muito, sem fazer muito, mas sermos presença junto deles e junto delas nesta circunstância.»

Na parte final da homilia, deixou também um apelo à manutenção da presença da Igreja no meio escolar, incentivando os sacerdotes a assumirem, sempre que possível, o ensino da Educação Moral e Religiosa Católica. «Nós não podemos perder a nossa presença na escola», alertou, lembrando que, para muitos jovens, esse é hoje o único espaço de contacto com a mensagem cristã.

Concluindo a celebração, D. Américo Aguiar dirigiu uma palavra de profunda gratidão aos sacerdotes da Diocese de Setúbal, agradecendo o seu testemunho, dedicação e disponibilidade. «Uma gratidão profunda que coloco no Sagrado Coração de Jesus por cada um de vocês, pelas vossas dificuldades, pelos vossos problemas e pelas incompreensões que às vezes possam sentir», afirmou, pedindo que Deus «fortaleça, encoraje e unja» cada sacerdote para os desafios pastorais que se aproximam.

 

Refletir sobre o “cuidar” a partir do Coração de Cristo

Antes da celebração eucarística, os sacerdotes participaram num momento de reflexão orientado pelo Pe. Cláudio Bastos, subordinado ao tema “O Coração de Cristo: Fidelidade, Presença e Cuidado no Ministério Sacerdotal”. A intervenção, inspirada na espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus e na recente Nota Pastoral Cuidar com o Coração, propôs uma leitura do ministério sacerdotal a partir das dimensões da fidelidade, da presença, da interioridade, da reconciliação e do cuidado.

Ao longo da sua exposição, o sacerdote e investigador sublinhou que a missão do presbítero, num contexto social marcado pela fragmentação e pela vulnerabilidade, é a de se tornar sinal de comunhão e esperança. «O sacerdote é chamado a tornar-se sinal de comunhão. Não porque possua respostas para todas as inquietações humanas, mas porque testemunha uma presença», afirmou.

Destacando a importância de uma Igreja próxima das pessoas e das suas fragilidades, o Pe. Cláudio Bastos recordou ainda que «a renovação da missão não começa apenas nas estruturas, nos projetos ou nas estratégias pastorais. Começa sempre na conversão do coração», convidando os sacerdotes a reencontrarem, no Coração de Cristo, a fonte da sua vocação e a força para servir o Povo de Deus.

 

Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna

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