Quantos imigrantes vivem nas paróquias da Diocese de Setúbal? Quais são as suas principais dificuldades no acesso à habitação, saúde, educação ou trabalho? De que forma se integram nas comunidades locais? São perguntas como estas que a Comissão Diocesana Justiça e Paz de Setúbal (CDJP) quer ver respondidas, através de um inquérito desenvolvido em parceria com o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS). O estudo, de carácter académico, está a ser distribuído por todas as paróquias da diocese e pode ser respondido até 1 de junho.
A iniciativa surge na sequência de uma conferência organizada pela própria CDJP, que revelou a necessidade de conhecer melhor quem são e como vivem os imigrantes presentes nas comunidades da diocese. Elsa Melo, responsável da comissão, explica a motivação que “o que nos levou a realizar este inquérito foi a necessidade de compreender melhor a realidade da imigração na diocese”. “Surgiu a preocupação de conhecer de forma mais concreta quem são as pessoas imigrantes presentes nas nossas comunidades, quais as suas condições de vida, desafios e formas de integração. Este levantamento pretende ajudar a Igreja local a responder de maneira mais informada, acolhedora e eficaz às necessidades destas pessoas”, acredita.
O inquérito abrange áreas consideradas críticas para a integração dos imigrantes: habitação, saúde, educação, trabalho, formação profissional, participação comunitária, tratamento de documentação e segurança. Segundo Elsa Melo, os objetivos do estudo “passam por compreender de forma mais clara como se processa a integração dos imigrantes na sociedade”. “Pretende-se analisar a sua realidade em termos sociais e económicos, nomeadamente o acesso ao emprego, habitação e redes de apoio. Para além disso, o inquérito visa recolher a perceção dos próprios imigrantes relativamente à segurança e às suas condições de vida, identificando eventuais dificuldades, necessidades e oportunidades de melhoria”, explica esta responsável.
A participação é voluntária, anónima e confidencial, destinando-se exclusivamente a fins de investigação académica. O inquérito pode ser preenchido de duas formas: através do telemóvel, mediante leitura de um código QR, ou presencialmente nas paróquias, em suporte de papel. O prazo de recolha de respostas decorre até 1 de junho, com possibilidade de prorrogação caso o número de participações seja insuficiente.

Questionada sobre se a presença dos migrantes constitui uma mais-valia ou uma fonte de preocupação para a diocese, Elsa Melo não hesita na resposta, ainda que com a devida cautela em falar em nome de toda a Igreja local, defende que “a presença dos imigrantes constitui, de forma geral, uma mais-valia significativa para a vida das comunidades”. “Os imigrantes trazem consigo novas vivências, culturas, formas de fé e dinamismos que enriquecem a Igreja local. Ao mesmo tempo, essa presença coloca também novos desafios, nomeadamente ao nível da integração, do acompanhamento pastoral e da resposta às suas necessidades sociais. Mais do que uma fonte de preocupação, trata-se de uma oportunidade que interpela a diocese a crescer no acolhimento, na inclusão e na solidariedade”, considera.
Para além dos dados concretos sobre integração, os promotores do estudo acreditam que este pode ter um impacto mais amplo na forma como a sociedade perceciona os migrantes. Elsa Melo sublinha que a intenção é mostrar, com base em evidências, o contributo real desta população para o país. “Este estudo pode contribuir para mudar a perceção das pessoas sobre a realidade das migrações. A ideia é demonstrar que os imigrantes são uma mais-valia para a sociedade, nomeadamente através da sua participação na criação de riqueza e na diversificação cultural, contrariando visões simplistas ou negativas.”
Nesse sentido, a participação ativa dos próprios imigrantes no preenchimento do inquérito é considerada determinante. Para a responsável da CDJP, só através das suas vozes é possível construir um retrato fiel da realidade. “A participação dos próprios imigrantes é fundamental. Só ouvindo diretamente as suas experiências, dificuldades e perceções é possível compreender a realidade de forma autêntica. Isto permite ir além de narrativas muitas vezes parciais ou enviesadas, contribuindo para uma visão mais justa, informada e equilibrada sobre as migrações.”
O estudo da CDJP e do IPS insere-se num contexto nacional em que Portugal se tornou, nos últimos anos, um dos países europeus com maior crescimento relativo da população imigrante. A Diocese de Setúbal, que abrange os distritos de Setúbal e Beja, regista presença significativa de comunidades provenientes de países como o Brasil, Angola, Cabo Verde, Nepal e Bangladesh, entre outros. Os resultados do inquérito deverão ser divulgados posteriormente, constituindo um contributo para a definição de respostas pastorais e sociais mais eficazes por parte das instituições locais.
Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Foto: Ricardo Perna (foto de arquivo)




