A Escola Nacional de Bombeiros, em Sintra, foi o palco de uma formação pouco convencional nos últimos dias. O primeiro Curso de Proteção Civil direcionado à população teve como “cobaias” — nas palavras do próprio Cardeal D. Américo Aguiar — um grupo de 18 sacerdotes capelães de várias corporações do país. O objetivo é claro: dotar os líderes das comunidades de ferramentas básicas de socorro antes da chegada dos profissionais.
Para o Capelão Nacional dos Bombeiros, a realização deste curso não é um mero acaso, mas sim uma resposta necessária aos tempos atuais. D. Américo Aguiar refere que esta era uma ideia há muito maturada na Capelania e que agora se concretiza perante a evidência de fenómenos naturais cada vez mais frequentes. “Torna mais evidente a urgência e a necessidade de estes responsáveis das comunidades, estes cães-pastores, estarem preparados para procedimentos muito mínimos e básicos de socorro aos nossos paroquianos, aos cidadãos em geral”, afirmou o Cardeal à Agência Ecclesia.
O foco não é substituir os especialistas, mas garantir que, numa celebração ou num espaço público, o sacerdote saiba como agir numa primeira fase.
O Cardeal lamenta que a sociedade atual tenha perdido hábitos de prevenção que as gerações anteriores mantinham, como o simples cuidado de ter em casa uma pilha, uma vela ou um rádio. “É muitíssimo importante nós prepararmo-nos para o pior, mesmo que nunca venha a acontecer”, alertou, reforçando que a resiliência individual facilita o combate global a uma catástrofe.
D. Américo Aguiar enquadra esta formação num dos pilares fundamentais do pensamento cristão: “É muito uma das colunas da Doutrina Social da Igreja, a subsidiariedade, ou seja, o nível superior respeitar os níveis intermédios.”
Ao capacitar os cidadãos para pequenas ações de desobstrução de vias ou primeiros socorros, evita-se a sobrecarga desnecessária do número de emergência 112. “Há coisas que eu posso fazer. E quando todos nós somos capazes de fazer um primeiro socorro (…) significa que os bombeiros e os profissionais de socorro podem estar disponíveis para coisas mais graves”, explicou.
O sucesso desta primeira edição com o clero servirá de rampa de lançamento para um projeto mais ambicioso da Escola de Bombeiros e da Liga dos Bombeiros. O plano passa por expandir esta sensibilidade a diversas classes profissionais, desde médicos e arquitetos a engenheiros e desportistas. “Os padres são a palavra nas paróquias e nas comunidades. E, portanto, se se pretende lançar uma semente que frutificará de sensibilizar a população para que seja resiliente, eu diria que estamos no bom caminho”, afirmou o responsável pela Escola Nacional de Bombeiros, Comandante António José Carvalho.
O balanço final de D. Américo Aguiar é de esperança numa comunidade mais ativa: se cada cidadão “fizer um bocadinho”, o resultado final perante uma calamidade será, inevitavelmente, mais positivo.
Texto: Ricardo Perna (com Agência Ecclesia)
Foto: Paulo Rocha/ Agência Ecclesia




