Francisco, sempre Jovem, obrigado em nome de Todos, Todos, Todos!

Mai 6, 2025

 

Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco tem-se destacado pela sua proximidade com os jovens. Com uma linguagem simples, direta e cheia de ternura, o Papa que veio do “fim do mundo”, como disse na sua primeira aparição pública após ter sido eleito, conquistou o coração de uma nova geração, desafiando-a a viver a fé com coragem e autenticidade.

Ao longo do seu pontificado, desde as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) que presidiu até aos sínodos que promoveu, Francisco insistiu numa ideia central sobre a juventude: os jovens não são apenas o futuro da Igreja, mas o seu presente. São o agora de Deus e não apenas o amanhã! Incentivou-nos sempre a sermos protagonistas da mudança, não tendo medo de ir contracorrente, a não sermos meros espetadores que vêm a vida a passar sem a viver e entrar plenamente nela. “Não sejam jovens de sofá.”; “Espero que façam barulho. Quero que se façam ouvir nas dioceses, quero que saiam, quero que a Igreja saia pelas estradas”; “Arrisca! Arrisca. Quem não arrisca não caminha!”; “Substituí os medos pelos sonhos, não sejais administradores de medos, mas empreendedores de sonhos!”; “Quem ama não fica de braços cruzados, quem ama serve, quem ama corre para servir, corre empenhado no serviço aos outros”; “Precisamos de jovens verdadeiramente transgressivos, inconformados, que não sejam escravos dos telemóveis, mas que mudem o mundo!”; “Queridos jovens, não renunciem ao melhor da vossa juventude, não observem a vida da varanda.” Estas são apenas algumas das frases mais fortes, marcantes e provocadoras que Francisco dirigiu aos jovens ao longo do seu pontificado, sempre com o objetivo de nos incentivar a vencer a comodidade, a romper com a passividade, e a assumir um papel ativo, um protagonismo liderante, e um compromisso efetivo com os outros e com a transformação do mundo, da sociedade e da Igreja.

Tal como Jesus, Francisco provocou-nos, desinstalou-nos, desafiou-nos
não só com palavras, mas também, e sobretudo, com gestos. Ao visitar prisões, lavar os pés a reclusos, ao visitar campos de refugiados e migrantes, ao sentar-se à mesa com os sem-abrigo, ao visitar bairros pobres e de lata, ao pisar o solo de países e territórios em conflito, ao encontra-se e escutar o relato de viva voz de vítimas dos mais diversos tipos de abusos e atrocidades, ao dialogar e promover o encontro com líderes de outras religiões, Francisco ensinou-nos que não devemos esperar para agir mais tarde. Nós, jovens, somos chamados a transformar o presente com a força do Evangelho, sem nunca nos deixarmos paralisar pelo medo, pela indiferença ou pelas falsas promessas do mundo moderno.

A sinodal idade foi outro dos grandes legados que Francisco nos deixou, despertou-nos para uma Igreja onde todos têm vez e voz. “Na Igreja há lugar para todos, para todos”, e repetiu por três vezes “todos, todos, todos!” Não foi por acaso que, esta frase de Francisco que ecoará para sempre nas nossas memórias, foi proferida numa Jornada Mundial da Juventude, na nossa JMJ Lisboa 2023 perante mais de um milhão de jovens! Também não foi por acaso que Francisco lançou um sínodo sobre a Juventude, sob o lema: “Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional”, onde pôs os jovens no centro do debate, da escuta e do diálogo, não apenas como espetadores passivos, mas como ativos protagonistas. Como conclusão, Francisco publicou em 2019 a exortação apostólica Christus Vivit (Cristo Vive), um verdadeiro hino à juventude e um convite à santidade concreta, humana e alegre e que se mantém como grande referencial até aos dias de hoje para toda a pastoral juvenil, desde os jovens aos que os acompanham no seu caminho e na sua formação pessoal e pastoral. Uma carta aberta que ecoa no coração de todos os que acreditam que vale a pena viver com coragem, fé e amor.

Francisco mostrou-se sempre atento às feridas e desafios da juventude — como o desemprego, ou o trabalho precário, a ansiedade, a saúde mental, a dificuldade no acesso à habitação, as consequências das alterações climáticas no futuro do planeta, ou a perda de sentido da vida — mas não nos trata como um “problema”, mas sempre sim como protagonistas, hoje e agora, de um mundo novo e de um futuro com esperança.

O legado de Francisco aos jovens é um apelo e um testemunho contínuos à autenticidade, à esperança, à caridade, à fé vivida na proximidade, na escuta, com coragem e confiança, com alegria e inclusão, com sentido de compromisso para com o bem comum, em prol de um mundo mais justo, fraterno, e solidário, para todos, todos, todos. Ele recorda aos jovens que não estão sozinhos, que são amados por Deus tal como são e independentemente da sua condição, e que têm uma missão única neste mundo. O seu legado aos jovens vai muito além de palavras: é um testemunho vivo de esperança, inclusão e compromisso

Deus concedeu-me a graça de poder estar presente no funeral de Francisco, como humildemente apenas quis ser recordado. Junto do seu túmulo, no domino da divina misericórdia, agradeci-lhe em nome de todos, todos, todos, tudo o que nos legou, em especial a nós jovens e pedi-lhe que agora, na alegria da sua Páscoa eterna interceda junto do Deus por todos e por cada um.

Quando me dirigia para a Basílica Papal de Santa Maria Maior, onde está sepultado, cruzou-se comigo, à porta da estação de metro, uma pobre idosa que, já curvada pela idade avançada, ali estava a pedir esmola. Aproximou-se de mim dos outros três jovens sadinos que me acompanhavam e disse-nos “Rezo por vós jovens, o Papa Francisco fez um grande trabalho por nós, pobres. Nunca se esqueçam!”. Se dúvidas ainda houvessem, tal como Cristo, também Francisco Vive! Estava ali, naquela pobre idosa, falou connosco e sentimos a sua presença e a sua misericórdia que nos acolhe. Voltei a cruzar-me com a pobre idosa no dia seguinte, desta vez tomei eu a iniciativa de me aproximar dela. Perguntei-lhe o nome. Surpresa com a pergunta, mas e com os olhos a humedecidos pelas lágrimas respondeu-me apenas: “Assunção”. Um nome mariano, um nome pobre, dito de uma forma simples. Apertei-lhe a mão e Assunção benzeu-se, fazendo o sinal da Cruz, e disse-me “Que Deus te bendiga”. Poucos segundos depois ecoaram em mim as palavras de Francisco na JMJ Lisboa 2023: “Amigo, amiga, se Deus te chama pelo teu nome significa que, para Ele, nenhum de nós é um número; mas é um rosto, é uma cara, é um coração. (…) Não estais aqui por acaso. Foste chamado pelo nome, foste chamado pelo nome, foste chamado pelo nome, foste chamado pelo nome. Nenhum de nós é cristão por acaso. Todos nós fomos chamados pelo nome.” Obrigado Francisco, sempre Jovem! Obrigado por nos ajudares a chamar cada um pelo nome, a sermos rosto, cara e coração e não número uns para os outros! Como Jovens Peregrinos da Esperança continuaremos a caminhar juntos, todos, todos, todos, como irmãos, e “seguindo sempre para a frente”, como tantas vezes nos incentivaste, na certeza de a esperança não engana e de que Cristo Vive!

Vasco Gonçalves
Coordenador Departamento da Juventude de Setúbal

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