Eminências e Excelências Reverendíssimas,
Reverendos, Autoridades religiosas, civis e académicas,
Queridos jovens,
Agradecimentos iniciais
Ao agradecer aos organizadores pelo convite, não posso deixar de notar que, entre os Cardeais presentes neste encontro, encontram-se alguns dos membros mais jovens do Colégio Cardinalício: Sua Eminência, o Cardeal Roberto Repole, que nos acolheu aqui em Turim, ocupa o décimo segundo lugar; Sua Eminência, o Cardeal George Koovakad, que se juntará a nós amanhã, ocupa o quarto lugar; enquanto eu ocupo o terceiro lugar na classificação dos Cardeais mais jovens. Portanto, também nós, queridos jovens, nos sentimos partícipes da vossa juventude.
Tema da intervenção
Esta minha intervenção tem como tema “Experiências e expectativas sobre ‘Fraternidade como laço de Paz'”. Estou consciente de que os organizadores não tiveram qualquer papel na escolha das circunstâncias mundiais em que nos encontramos. Mas é muito significativo que este nosso encontro seja uma espécie de oásis de paz no meio das tantas guerras que alastram pelo mundo.
Queridos jovens, mesmo que os mísseis e as bombas caiam com intensidade sobre a terra nestes dias, é necessário, mais do que nunca, que estejais conscientes de que podeis fazer a diferença nas vossas circunstâncias. O bem que semeamos todos os dias talvez não faça barulho nem capte a atenção mediática, mas gostaria de sublinhar o conceito de trabalhar em rede (não apenas nas redes sociais), mas naquela rede mais profunda que é a rede da fraternidade.
Para este fim, resultam iluminantes não só os gestos e o testemunho do falecido Papa Francisco, mas também as seguintes palavras do Papa Leão: «A fraternidade nasce de um dado profundamente humano. Somos capazes de relação e, se o quisermos, sabemos construir laços autênticos entre nós. Sem relações, que nos sustentam e nos enriquecem desde o início da nossa vida, não poderíamos sobreviver, crescer, aprender. (…) Mas o que é certo é que a nossa humanidade se cumpre melhor quando estamos e vivemos juntos, quando conseguimos experimentar laços autênticos, não formais, com as pessoas que temos ao lado. (…) Sabemos bem que ainda hoje a fraternidade não parece óbvia, não é imediata. Muitos conflitos, tantas guerras espalhadas pelo mundo, tensões sociais e sentimentos de ódio pareceriam antes demonstrar o contrário. No entanto, a fraternidade não é um belo sonho impossível, não é um desejo de poucos iludidos.»
Experiências relativas à JMJ de Lisboa 2023
A preparação da JMJ
A JMJ aberta a todos
Como creio ser de conhecimento comum, em 2023 foi-me atribuída a responsabilidade de organizar e coordenar a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa.
A 27 de janeiro de 2019, o Papa Francisco anunciou, no Panamá, que Lisboa seria a sede da seguinte Jornada Mundial da Juventude, que se deveria realizar em 2022. Para mim, na realidade, a JMJ de Lisboa já tinha começado antes, porque me encontrava no Panamá desde o mês de novembro de 2018.
É curto o tempo que hoje temos à disposição e, por este motivo, não pretendo detalhar as minhas memórias. Pelo contrário, prometi a mim mesmo que nunca escreveria um livro de memórias! Mas, para ser fiel ao que me foi pedido pelos organizadores deste nosso encontro, devo recorrer a alguns episódios e recordações pessoais.
Em primeiro lugar, devo regressar às memórias dos frequentes colóquios com o Papa Francisco nos anos que precederam a JMJ de Lisboa. Cada Jornada Mundial da Juventude é uma Jornada do Papa. Por isso, num certo sentido, foi o Papa Francisco quem inspirou a minha e a nossa ação, onde a fraternidade — ou seja, a certeza de que estamos unidos na mesma humanidade — teve um papel primordial. Um papel tornado ainda mais urgente pela pandemia que nos atingiu em 2020.
Recordo aquelas inesquecíveis palavras do Papa Francisco, na Praça de São Pedro vazia, em março desse ano: «Demo-nos conta de que estamos no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários, todos chamados a remar juntos, todos necessitados de nos confortarmos mutuamente. Neste barco… estamos todos. Como aqueles discípulos, (…) assim também nós nos apercebemos de que não podemos ir por diante cada um por sua conta, mas apenas juntos.»
Num certo sentido, o facto de uma Jornada Mundial da Juventude ser, na sua origem, um evento organizado pela Igreja Católica, não significa que seja destinado apenas àqueles que já se encontram dentro dos seus confins visíveis. A Igreja recebeu de Jesus o mandamento de ir ao encontro de todas as gentes (cf. Mc 16, 15). Assim, também uma JMJ se dirige a todos os jovens.
Numa minha entrevista televisiva, a 10 de julho de 2023, expressei precisamente esta ideia: que todos são convidados a participar, que a JMJ é aberta a todos, que não devemos ser reféns de um falso sentimento de proselitismo. Levantou-se, nos dias seguintes, uma onda de ferozes protestos, tanto nos media como nas redes sociais a estas minhas declarações, por parte de pessoas e meios que retiraram as minhas palavras do contexto.
A resposta, porém, a estas vozes de protesto chegou do próprio Papa Francisco quando, já em Lisboa, a 3 de agosto de 2023, perante uma multidão de jovens que o olhava em silêncio, afirmou: «Amigos, gostaria de ser claro convosco, que sois alérgicos às falsidades e às palavras vazias: na Igreja há espaço para todos, para todos! Ninguém é inútil, ninguém é supérfluo, há espaço para todos. Assim como somos, todos. E isso Jesus diz-no claramente quando envia os apóstolos a convidar para o banquete daquele homem que o tinha preparado; diz: “Ide e trazei todos, jovens e velhos, sãos e doentes, justos e pecadores: todos, todos, todos”». No caminho que nos levará a Seul, na Coreia do Sul — um país onde os católicos não são a maioria — penso que é ainda mais premente este convite: todos são chamados a fazer a experiência de fraternidade que cada JMJ oferece.
A JMJ não é apenas encontro, mas vai ao encontro
Em segundo lugar, desde o início da preparação para a JMJ, dei-me conta de que muitos jovens não podiam deslocar-se a Lisboa porque as circunstâncias em que se encontravam — de guerra, de perseguição, etc. — não o permitiam. Então, preocupei-me para que a JMJ pudesse ir ao encontro desses jovens.
Das diversas viagens que empreendi antes de agosto de 2023, duas estão particularmente vivas ainda na minha memória: a viagem à Ucrânia e a peregrinação à Terra Santa.
Desloquei-me à Ucrânia de 15 a 17 de julho de 2023. Foi uma viagem de lágrimas e esperança. Lágrimas porque o indizível sofrimento da guerra estava escrito nos rostos de tantas pessoas que encontrei. Em concreto, em Bucha e Irpin, encontrei uma situação particularmente difícil. Esperança porque, no meio dos escombros, partilhar a oração, partilhar o sofrimento e, sobretudo, manifestar a certeza de que, nos dias da JMJ, os jovens em dificuldade daquela zona do mundo não seriam esquecidos — ou seja, a fraternidade em rede — foi um modo simples de alimentar o que é bom.
Serviram-me de guia e de luz as seguintes palavras do Papa Francisco: «todos os dias nos é oferecida uma nova oportunidade, uma nova etapa. (…) Gozamos de um espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações. Devemos ser parte ativa na reabilitação e no apoio às sociedades feridas. Hoje estamos perante a grande ocasião de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos, em vez de fomentar ódios e ressentimentos. (…) Que outros continuem a pensar na política ou na economia para os seus jogos de poder. Alimentemos o que é bom e coloquemo-nos ao serviço do bem.»
A peregrinação à Terra Santa, de 22 a 25 de julho de 2023, foi ocasião para estar próximo tanto de jovens israelitas como palestinianos. Nos poucos dias em que tive o privilégio de seguir os passos de Jesus na terra, de Nazaré a Belém, do Jordão a Jerusalém, a minha preocupação foi a de levar a JMJ àqueles jovens que não podiam deslocar-se a Lisboa. Ali, além do contacto com a Cáritas Jerusalém que forneceu os terços que os jovens receberam no seu kit de boas-vindas em Lisboa, encontrei-me com jovens marcados pelo sofrimento mas que, juntamente com jovens de outras religiões, eram capazes de sorrir, estar juntos e construir um mundo diferente e melhor.
Os dias da JMJ
A experiência de fraternidade na JMJ de Lisboa
É difícil traduzir em palavras a experiência complexa e rica da JMJ de Lisboa. Também o Cardeal George Koovakad poderá contar tantas histórias vividas juntos, tanto na preparação como nos próprios dias em que o Papa Francisco viveu na capital portuguesa. Mas, sob a ótica da “Fraternidade como laço de paz”, gostaria de assinalar alguns elementos que resumem as ideias principais:
- a) a alegria dos jovens nas ruas de Lisboa: a alegria não tem nacionalidade, nem religião, nem tão pouco se pode adquirir com dinheiro ou bens materiais. A primeira experiência de todos aqueles que tiveram contacto com os jovens em Lisboa foi a de encontrar jovens alegres, felizes, que quiseram partilhar a sua fé, mas também momentos culturais, musicais e de ajuda fraterna. Nesses dias, encontrei muitos voluntários e muitos jovens cansados, cheios de sono, mas não encontrei ninguém triste ou infeliz. É na partilha da alegria que encontramos os momentos mais belos da fraternidade e da paz. Uma fraternidade triste não é verdadeira fraternidade. Uma paz triste não é uma verdadeira paz.
- b) a logística: a organização de um evento como a JMJ é muito complexa. Apenas para partilhar alguns dados, foram fornecidas mais de três milhões de refeições, em mais de mil e quinhentos pontos de restauração. No final da JMJ, o Banco Alimentar recebeu mais de quinhentas e catorze toneladas de alimentos que sobraram. Mas, por trás da logística, os verdadeiros protagonistas foram os jovens de mais de trinta países que, durante meses, trabalharam intensamente, criando amizades e ligações que depois se prolongaram no tempo. O que gostaria de sublinhar é que os laços de fraternidade não se limitam apenas aos dias da JMJ mas, com os atuais meios de comunicação e com as redes sociais, prolongam-se no tempo e no espaço geográfico: jovens portugueses continuam em contacto com jovens de todas as partes do mundo, partilhando não só memórias mas também projetos futuros.
- c) o papel da beleza: é atribuída ao famoso escritor e filósofo Dostoievski a célebre frase de que “a beleza salvará o mundo.” Estou convencido de que a beleza faz parte também da fraternidade. A beleza da música, não só na liturgia, mas em geral nos múltiplos eventos que tiveram lugar em Lisboa de 1 a 6 de agosto de 2023, foi ocasião de partilha, de estar juntos e de experimentar uma paz que as palavras mal conseguem exprimir. Parece-me um caminho a percorrer na via da fraternidade, o caminho para tornar belo o ambiente que nos rodeia.
- d) a verdadeira fraternidade é também interioridade: é conhecido o adágio de que a paz nasce do coração. O Papa Francisco, na encíclica Fratelli tutti, propôs a fraternidade como via para superar as divisões contemporâneas. Ele convida a uma cultura do encontro, na qual a diferença não seja ameaça mas riqueza. A JMJ promove esta riqueza porque é um encontro entre jovens provenientes de todo o mundo. Em Lisboa reuniram-se jovens de todos os países, exceto das Maldivas. Mas, mais importante que a quantidade de jovens ou de países, é que cada jovem traz consigo uma história, um percurso que, de modo natural, partilha com os outros. Esta partilha foi importante também nos momentos de oração, de espiritualidade e também nas diversas celebrações litúrgicas. A fraternidade e a paz nascem, também, da oração de cada um, partilhada com os outros.
Encontrando-nos nós em Turim, não posso esquecer que S. João Bosco foi um dos Santos Patronos da JMJ de Lisboa, e o exemplo da sua vida continua, ainda hoje, a ser de inspiração para muitos jovens.
Conclusão
Concluo esta minha intervenção com algumas palavras de um autor contemporâneo: «Com o advento da internet, encontramo-nos envolvidos em rede. Todos. Já não existes se não estiveres ligado. (…) Agora, existimos em rede. Chegou ao fundo, porque nos deu uma experiência de vida interconectada. (…) Toda a nossa vida foi reconfigurada com base em novas exigências, as da ligação.»
Se os meios tecnológicos permitem que uma JMJ, realizada em Lisboa ou em Seul, possa ser seguida em todo o mundo, em cada momento, podemos também nós esforçar-nos para “reconfigurar” as nossas relações em chave de fraternidade, concluindo que é mais o que nos une como irmãos do que o que nos divide. E a paz é sempre possível quando no coração de cada um habitam a beleza, o bem e a bondade.
Obrigado pela vossa escuta e pela vossa paciência, sobretudo para com o meu italiano!
Turim, 6 de março de 2026
† Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal




