A habitação inacessível, o envelhecimento da população, as fragilidades dos migrantes e a urgência de uma ação social mais articulada dominaram o quarto dia da Visita Pastoral do Cardeal D. Américo Aguiar às paróquias da Sobreda e Vila Nova. Num dia que combinou encontros institucionais, visitas culturais e pastorais — e que terminou num jantar de tertúlia com os jovens —, o Bispo de Setúbal não poupou em diagnósticos certeiros nem em apelos à responsabilidade partilhada.
A manhã começou com um encontro na Junta de Freguesia da Sobreda, onde Pedro Matias, presidente da junta de freguesia local, traçou um retrato de uma das maiores freguesias do país — a oitava maior em Portugal — e das suas contradições. Território em crescimento mas com escasso espaço para se expandir, a Sobreda debate-se com uma crise habitacional que está a empurrar a classe média para baixo, com problemas de mobilidade que tornam essencial a concretização do túnel Algés-Trafaria, e com uma insatisfação generalizada em torno da Fertagus. “Muita preocupação social”, admitiu o presidente, destacando a importância das parcerias com instituições ligadas à Igreja, como o Apoio Fraterno na Sobreda e na Charneca de Caparica e a Colmeia Vigilante, esta última na Charneca.
Em resposta, D. Américo Aguiar não hesitou em colocar o dedo na ferida. “A questão da habitação já é explosiva”, afirmou o Cardeal, advertindo que o equilíbrio entre a dignidade humana e os interesses em jogo se tornou extremamente difícil de gerir. “Não é possível resolver este problema ficando amigos de todos no fim. Ou é trabalhado por todos, ou podemos aproximar-nos de algo fraturante para a sociedade”, alertou.

Sobre os migrantes, o prelado foi igualmente frontal: “Nós olhamos para os migrantes como matéria-prima, o que não é bom, mas é o que fazemos”. Afirmando que uma larga maioria deles estão inseridos no mercado de trabalho e pagam as suas contribuições, o Bispo de Setúbal sublinhou a necessidade de garantir dignidade a estas pessoas, recusando uma visão meramente instrumental da migração. A solução, defendeu, passa inevitavelmente pela coordenação dos diferentes níveis de governo: “Isto só se resolve com os diferentes níveis de governo de mãos dadas, nunca separados”.
Na área da ação social, D. Américo pediu uma maior inteligência coletiva. Reconheceu que, se somadas todas as toneladas de alimentos distribuídos pelas diversas instituições, “o problema já deveria estar resolvido há muito tempo”, mas apontou para dois obstáculos persistentes: quem alimenta vícios e não necessidades reais, e quem fica de fora por ter vergonha de pedir ajuda. O apelo foi direto às juntas de freguesia: “Peço à junta que nos ajudem com o que não é institucional”, disse, defendendo que uma maior proximidade e critério no apoio permitiria ajudar “com mais verdade os que verdadeiramente precisam”. Saudou ainda todos os que se disponibilizam ao serviço autárquico — “nem que seja apenas só para concorrer, o que também tem valor”.
Após o encontro institucional, o programa conduziu o Cardeal ao Clube Recreativo e Instrução Sobredense, que se encontra em fase de recuperação do seu espaço histórico — outrora palco de teatro e outros eventos culturais —, e ao Solar dos Zagallos, um dos espaços mais emblemáticos de Almada. Esta antiga casa de recreio da família Zagallos, hoje propriedade da Câmara Municipal de Almada, funciona como espaço cultural com jardins e salas de exposição abertas à comunidade.
A tarde foi dedicada ao Centro Social Paroquial da Sobreda, onde D. Américo visitou as respostas sociais em funcionamento: o Grupo de Artes da Sobreda e os Ateliers de Malhas e de Bordados de Castelo Branco, integrados no Centro de Convívio, o serviço de Apoio Domiciliário e o Gabinete de Inserção Profissional, desenvolvido em parceria com o IEFP. Um retrato fiel do que a Igreja local faz, muitas vezes em silêncio, ao serviço das populações mais vulneráveis.

Depois desta visita, o Cardeal D. Américo Aguiar visitou a Academia de Música de Almada, instituição que acolhe mais de 400 alunos dos vários níveis no ensino musical.
Ao final do dia, D. Américo presidiu à Missa na Capela de Nossa Senhora do Livramento. Na homilia, o Cardeal partiu de um confronto entre a rigidez legalista do tempo de Jesus — quando o cumprimento da lei se sobrepunha à dignidade das pessoas — e os desafios do presente: a dificuldade que cada um sente em acolher “no nosso coração algumas propostas de vida ou caminho, se vão contra o nosso prazer de viver ou o que queremos fazer”. “Não é fácil colocar na nossa vida os sonhos de Deus para a nossa vida”, reconheceu.

Num gesto de abertura que marcou toda a visita pastoral, o Bispo destacou que, nos encontros ao longo dos dias, nunca perguntou a ninguém pela sua religião: “Antes tentamos levar o testemunho do que é Cristo Vivo pelas nossas ações e pela nossa cara”. E recordou que ao longo da visita muitas pessoas se foram aproximando para pedir orações — por si, por alguém querido. “Não sei se são católicos ou não, mas levamos todas estas intenções no nosso coração e na nossa oração”, afirmou.
Tertúlia com os jovens: da vocação à homossexualidade, tudo em cima da mesa
A noite reservou um momento de especial descontração e profundidade: um jantar com os jovens da paróquia, que convidaram o Cardeal para uma tertúlia de perguntas e respostas. O formato escolhido foi deliberadamente anónimo — cada jovem escreveu a sua pergunta num papel, depositou numa caixa, e D. Américo foi respondendo uma a uma.
Nenhum tema foi considerado tabu. Do relato da sua própria vocação à diferença entre bispo e cardeal, passando por questões curiosas como se alguma vez se tinha imaginado como seriam os seus filhos se não tivesse ido para o Seminário, ou questões mais fraturantes como a homossexualidade, os exorcismos ou a forma de integrar o “Todos, todos, todos” — expressão cara ao Papa Francisco — na vida concreta de cada crente, o Bispo de Setúbal respondeu a tudo com humor, sinceridade e frontalidade. Os jovens ficaram manifestamente satisfeitos.

Um dia longo, denso e humano: da habitação à fé, do Centro Social ao jantar com os jovens, o quarto dia da Visita Pastoral à Sobreda foi mais um capítulo de uma Igreja que, como D. Américo Aguiar tem repetido ao longo desta semana, não espera que as pessoas venham ter com ela — vai ela ao encontro das pessoas.
Texto e foto: Ricardo Perna




