Homilia na Eucaristia de Abertura da Visita Pastoral a S. Francisco Xavier

Jun 7, 2026

 

Queridos irmãos e irmãs, permiti uma pequenina reflexão convosco, uma salvação. Eu não sei se há aqui alguém de Moçambique.

Há alguém de Moçambique? Muito bem. Então também queremos lembrar o Sr. Bispo de Quelimane e Administrador da Beira, que ontem foi assassinado na Casa Episcopal, não se sabe bem o que aconteceu, mas o que é certo é que aconteceu qualquer coisa que acabou com a morte do Bispo. E por isso nós queremos lembrá-lo, sufragá-lo e a sua família, a sua igreja, esta igreja irmã de Moçambique, com quem estamos solidários.

Meus queridos irmãos e irmãs, estas leituras deste domingo falam-nos da Misericórdia. E nós temos que crescer muito. Eu, nomeadamente, e quem a entender assim, temos que crescer muito nesta capacidade de encaixarmos no nosso dia-a-dia da nossa vida esta capacidade de perdoar.

De perdoar e de ajudar quem faz caminho connosco a recuperar, a levantar-se quando comete alguma falha. Porque nós somos muito rápidos, normalmente, a chamar a atenção dos erros e das falhas dos outros, mas não apreciamos muito que os outros corrijam ou chamem a atenção das nossas falhas. E por isso, este domingo é um convite a termos consciência deste Deus misericordioso.

Nós ouvíamos na primeira leitura dizer para procurarmos conhecer o Senhor. E o Senhor é Deus de misericórdia e de perdão, de amor, de cuidado, e não o contrário. Nós, às vezes, pintamos um Deus que castiga, um Deus juiz, um Deus pesadíssimo.

E Deus é amor, Deus é misericórdia, Deus é cuidado, Deus é amor. E isto encaixa, ou tem que encaixar, também naquilo que é o dia-a-dia da nossa vida. E eu lembro, aqui perto, ali junto à ponte Vasco da Gama, quando o nosso querido Papa Francisco lembrava que só podemos olhar para os outros de cima para baixo quando estamos num sítio mais alto, que é o caso, mas a culpa não é minha, estamos aqui num sítio mais alto, eu estou de cima para baixo, mas valho tanto como qualquer um de vós, aliás, qualquer um de nós que é que está, vale o mesmo.

E vale nada mais, nada menos que Deus. O nosso primeiro bispo, D. Manuel Martins, repetia muito isso. Cada um de nós vale nada mais, nada menos que Deus.

É um grande valor. Mas nós, às vezes, julgamos que valemos menos por isto ou por aquilo. Ontem, um menino que eu encontrei na Catequese estava muito, é como na bolsa, achava-se pouco valorizado, que não valia nada, que não sei o quê, que não sei como mais, e eu bem insisti que ele valia tanto como eu, mas ele não foi na conversa.

Mas a isso temos que encaixar no nosso coração. Cada um de nós vale Deus, independentemente do nosso aspeto, da nossa condição social, da nossa história de vida ou da fase em que estamos. Cada um de nós vale Deus.

E se nós colocarmos isso no coração, aquilo que é a relação nossa uns com os outros também muda obrigatoriamente, porque temos consciência que o outro é nosso irmão e que somos, valemos, Deus. Nós ouvíamos, na 2ª leitura, falar de Abraão. Esta confiança total de Abrão naquilo que foi a promessa que Deus lhe fez.

O meu lema de bispo é In manus tuas, nas tuas mãos. Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito. Quando Jesus na cruz dizia exatamente isso.

E eu copiei, tomei este lema de bispo de um bispo do Porto, quem eu gostava muito, que esteve lá 3 anos só, porque morreu sem aviso, o D. António Francisco dos Santos, que era natural de Lamego. E eu fiquei com o lema para homenagear.

Mas se não fosse esse, eu queria uma passagem que liga a Abraão, que era Deus providenciará. O Abraão, a certa altura, foi desencaminhado por Deus para deixar a sua terra, as suas coisas, a sua gente, ir não sei para onde, fazer não sei o quê. E a malta dizia, oh Abraão, tu estás tolo.

E ele dizia, Deus providenciará. Eu não sei como, nem quem, nem quando, mas Deus providenciará. Ora, essa confiança total.

Pois há outra passagem em que lhe é proposto que ele mate, ofereça o seu próprio filho como sacrifício. O único filho. E ele vai fazê-lo.

Porque Deus diz, eu confio em Deus. Deus providenciará. Ora, em muitos momentos da nossa vida, que bom que era que isto fosse uma certeza no nosso coração.

Que Deus providenciará. Mesmo nas dificuldades e problemas que vivemos. Quando cada um faz a sua parte, a parte que lhe cabe, confiar que Deus providenciará.

Por exemplo, quando chega a época dos exames, e alguns estão em exames na escola, pedem para acender velas, pedem para rezar, não adianta nada se não estudaram. Não adianta nadinha. Aí a avó vai gastar velas e ele não estuda e vai passar.

Era o que faltava. Deus não se mete nisso. Era injusto.

Cada um tem que fazer a sua parte. E depois acreditarmos que não sabemos quando, não sabemos quem, não sabemos como, mas sabemos que Deus vai providenciar. E às vezes até nós preparamos o terreno, fazemos a sementeira e outros colhem.

E isso é preciso ter um coração muito grande, para termos consciência que às vezes, nesta história de que fazemos parte e que somos só um bocadinho, às vezes o nosso papel, a nossa missão é trabalhar a terra. Outro é pôr a semente. Outro é tratar da sementeira.

E vai haver um que vai comer os frutos. Sorte do raio. Mas nós todos colhemos frutos que outros trabalharam.

Nós hoje, por exemplo, vivemos as maravilhas da tecnologia que outros inventaram. Ligámos a eletricidade que alguém inventou. Usámos as telecomunicações que alguém inventou.

E tantas outras coisas que outros sofreram muito e inventaram e não usufruiram. E agora estamos aqui nós, a usufruir do trabalho, da canseira, do esforço de tantos. E às vezes é muito injusto quando a gente lê a história de algumas pessoas que morreram na miséria.

Mas inventaram não sei o quê e as pessoas da altura só diziam ele é louco, ela é louca, não liguem nada àquilo. E passados uns séculos, ainda bem que a pessoa inventou. Mas coitadinha, passou desgraças e foi intitulada como louca ou como louca.

Ninguém valorizou. E assim acontece com muitos de nós tantas vezes. Por isso é bom termos no nosso coração esta certeza do Pai Abraão.

Deus providenciará. E olhem lá, aqui nesta passagem diz, lembra que ele ia ser o pai de muitas nações. Olhem como nós estamos aqui.

Olhem como nós estamos aqui. Em paz, uns com os outros, oriundos das mais diversas geografias, quer do país, quer do mundo. Eu há dias visitava uma escola que tinha meninos e meninas de 43 países diferentes. Uau! Nem a reunião das Nações Unidas. Tem tanta gente ao mesmo tempo. Ora, isto é um problema.

Não! É o que está aqui. Abraão, serás o pai de muitas nações. Quando nós descobrimos Cristo na nossa vida, quando o colocamos no nosso coração, os outros não são estrangeiros, são irmãos.

E a partir daí, tudo é diferente. Vamos colocar no coração de Deus esta disponibilidade para programarmos o nosso coração com a palavra-chave de misericórdia, de perdão. Nós às vezes, quando vamos a qualquer sítio, agora, a malta nova chega a um sítio qualquer e pergunta se tem wi-fi.

Que é para ter internet à borla. Portanto, nós agora, a palavra-chave do nosso wi-fi é a misericórdia, perdão. Também queremos conectar-nos com Deus e a palavra-chave desta semana que o Senhor nos oferece, no domingo que celebramos, é exatamente a misericórdia e o perdão.

E que cada um de nós se disponibilize para que isso aconteça. É fácil? Não. Não é fácil.

Vejamos no Evangelho. A escolha de Mateus. O homem dos impostos.

Já na altura era um problema. Porque é assim, acho que não mudou nada. Quem paga, acha sempre que é muito. Quem recebe, queixa sempre que é pouco.

Portanto, é assim desde Adão e Eva. Nada se alterou. Mas Jesus vai buscar um homem dos impostos.

Para reforçar exatamente esta misericórdia e este perdão. E dignificar aquilo que significa. É uma função importante.

É preciso que algumas pessoas trabalhem nessa área. É lógico que queremos que respeitem o cidadão e sejam humanos naquilo que é o trabalho que fazem, e tantos outros trabalhos.

Quem trabalha nas cadeias, quem trabalha nas polícias, quem trabalha nas forças armadas. Há tantas e tantas funções que são difíceis, que são exigentes. O limite é muito complicado daquilo que significa o respeito pelo outro e a certa altura o esmagar e o desrespeitar o outro.

Mas Jesus provoca. É uma provocação para entenderem que esta misericórdia e o perdão está aqui entre o coração e a boca. E há alguns que têm o coração ao pé da boca.

Às vezes a coisa esbardalha-se. Por isso vamos pedir ao Senhor que possamos conectar Jesus, Deus e entendermos que a misericórdia e o perdão é aquilo que somos convidados a ativar na nossa vida e durante esta semana a testarmos. Se calhar começar na própria casa.

É uma boa ideia. Porque nós às vezes julgamos que estamos a fazer reflexões para resolver os problemas do mundo inteiro. E esquecemos que em nossa casa há coisas para resolver.

E se calhar a misericórdia e o perdão também podem fazer parte daquilo que é o dia-a-dia, se calhar da pessoa que dorme ao nosso lado. Ou que vive na nossa casa ou que vive no nosso prédio, ou que vive na nossa rua, ou que vive no nosso bairro, ou que faz parte da nossa comunidade. Mas vamos começar por perto para a gente chegar longe.

Assim seja.

 

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