Homilia no Encerramento da Visita Pastoral à Arrentela, Paio Pires e Seixal

Nov 8, 2026

 

Caríssimos irmãos e irmãs, quero começar por saudar os nossos presentes de junta. Quero agradecer muito ao Presidente da Junta do Seixal e à nossa Presidente da aldeia de Paio Pires que aqui estão, e da Arrentela, que não vejo por aí, o sacrifício que fizeram durante 15 dias de me nos aturarem. Agradeço muito essa gentileza de nos acompanharem nas mais diversas realidades destas três comunidades. Não era obrigação, foi uma deferência que eu muito agradeço, bem como à Câmara Municipal do Seixal, que foi também incansável para que tudo corresse da melhor forma. E ao fim de 15 dias, visitei quase tudo o que mexe, mas fiquei a saber que existe outro tanto, e outro tanto, e outro tanto.

É um município que tem centenas e centenas de coletividades, de instituições, e isso só diz bem deste povo e desta comunidade. E por isso eu agradeço muito às autoridades essa deferência e essa simpatia ao longo destes 15 dias. Depois também agradecer aos senhores padres e às pessoas que durante estes 15 dias tentaram que tudo corresse da melhor forma, como correu, e por isso a minha gratidão no início desta celebração.

Logo de início, este Evangelho, umas mulheres estavam à espera da vinda do Senhor, umas eram insensatas, outras eram imprudentes, todas elas levavam uma luz, essa luz era alimentada de azeite, e esse azeite tinha que estar na almotolia, e eu olho para as vossas caras e vocês estão a ver o que é que ele está a falar, a almotolia, não sei o quê, bem, vamos transformar isto.

Jesus falava por histórias, por parábolas. Se fosse hoje, não dizia assim. Dizia assim. Dez mulheres foram ao encontro do seu Senhor e todas levavam telemóvel. Umas levavam baterias e outras não. Portanto, quando chegou a hora, as que tinham bateria e powerbank ficaram todas contentes. As outras pediram para usar a bateria e elas não deixaram. Elas foram à rua procurar uma tomada e, quando vieram, já as outras tinham entrado e estavam com o Senhor, e aquelas ficaram na rua. Foram imprudentes, e as outras foram sensatas. Ora, é o que o Senhor nos quer dizer neste domingo, nestas celebrações, que nós estejamos prontos, sempre em prontidão, para aquilo que são os desafios que nos colocam no dia a dia.

Chegamos ao encerramento desta visita pastoral às comunidades de Arrentela, Paio Pires e Seixal. Foram dias de encontro, de escuta, de oração, de partilha e de muita amizade, e de muitos quilos também, porque vocês são muito generosos a dar bolachas e café ao Bispo. E é particularmente bonito que neste domingo em que celebramos o sacramento do Crisma, a Palavra de Deus nos convida a manter acesa a lâmpada da nossa fé, a manter a bateria carregada da fé.

No Evangelho, Jesus conta-nos a parábola das dez jovens que esperavam o Esposo. Todas tinham lâmpadas, mas nem todas tinham azeite suficiente para manter a chama acesa. E aqui está uma pergunta que gostaria de deixar a cada um de nós. Como está o azeite da nossa lâmpada? Ou então, como é que está a bateria do nosso telemóvel? Ou então, como é que está a energia da nossa fé? Como está a chama da nossa fé? Podemos ter igrejas bonitas, grupos organizados, muitas atividades e celebrações. Tudo isso é importante. mas se nos faltar o azeite do amor, a bateria da oração, da escuta, da fraternidade e do serviço aos irmãos, corremos o risco de ter as lâmpadas bonitas, mas apagadas.

Ter um telemóvel topo de gama, mas sem bateria, que não serve para nada. A fé não vive apenas daquilo que fazemos, vive sobretudo da relação que cultivamos com Jesus. E a vós, meus queridos crismandos e crismandas, quero dizer-vos algo muito simples: O crisma não é o fim de um caminho, é o início de uma missão. Eu sei que daqui a oito dias, metade de vocês já desapareceu. E daqui a 15 já só sobram 2 ou 3, e daqui a um mês já é a missa de 30º dia. Portanto, já quase ninguém existe aqui. É a estatística, espero que aqui possa ser diferente.

Hoje o Espírito Santo vem fortalecer a chama da fé que recebestes no batismo. Mas essa chama precisa ser alimentada pela oração, pela Eucaristia, pela amizade com Jesus e, sobretudo, pelo amor concreto aos outros. Não deixeis que a vossa fé seja uma lâmpada que só se acende dentro da Igreja. Levai essa luz para a casa, para a escola, para o trabalho, para os amigos, para as redes sociais e para todos os lugares onde a vida acontece. Na primeira leitura, o livro da sabedoria recorda-nos que Deus se deixa encontrar por aqueles que o procuram. E o salmista responde, a minha alma tem sede de vós, meu Deus. Meus queridos crismandos, nunca percais esta sede de Deus. Procurai-o, fazei-lhe perguntas, escutai a sua palavra. Não tenhais medo das dúvidas nem das dificuldades. O importante é não deixar de caminhar com Jesus.

Ao longo desta visita pastoral, encontrei muitas lâmpadas acesas, muitos telemóveis carregados. Encontrei-as nas comunidades paroquiais, na alegria das crianças, na generosidade dos jovens, na dedicação das catequistas, dos nossos escuteiros, dos movimentos e dos grupos pastorais. Encontrei-as nas famílias, nas escolas, nas instituições sociais, nos locais de trabalho e nas associações. Encontrei-as de modo muito especial junto daqueles que cuidam dos mais frágeis, dos idosos, dos doentes, dos pobres, das pessoas em situação de sem-abrigo e de quem procura acolhimento e esperança. E permita que sublinhe os assistentes operacionais que trabalham nas nossas escolas e trabalham com os meninos e meninas que têm necessidades especiais.

São muitas escolas daqui do nosso município do Seixal que têm meninos e meninas nos vários níveis de escola que têm necessidades especiais de tratamento. E é com muito carinho que nós vimos essas funcionárias, eu acho que são sempre essas, não são esses. Eu acho que encontrei um só. Então, obrigado, porque fazem um trabalho extraordinário. Podem ter a certeza que se os vossos filhos ou filhas ou netos estão nessas escolas e precisam de apoio especial, podem ter a certeza que lá são amados com muito carinho. Foi o que nós vimos ao longo destes dias.

Cada gesto de amor é uma gota de azeite que mantém acesa a luz de Cristo no mundo. É um tracinho na bateria, aqueles tracinhos que nos afligem. Mas esta visita também permitiu escutar dificuldades, preocupações e desafios. Ainda hoje de manhã nos reunimos com os representantes das comunidades migrantes e ouvimos principalmente aquilo que significa papéis, legais, AIMAs e outras coisas do género. Uma Igreja vigilante é uma Igreja que não fecha os olhos ao sofrimento, que não se acomoda e não desiste de ninguém. É uma Igreja próxima, samaritana, missionária, que sai ao encontro das pessoas e leva a alegria de Cristo vivo a todos, todos, todos, como nos dizia e pedia o nosso querido e saudoso Papa Francisco.

Na segunda leitura, São Paulo fala-nos da esperança na ressurreição. Recorda-nos que a morte não tem a última palavra, porque Jesus morreu e ressuscitou. Somos cristãos de esperança. E a esperança cristã não é ficar de braços cruzados à espera de que tudo melhore. É comprometermo-nos desde já com um mundo mais justo, mais fraterno e mais humano.

Queridos Crismandos, hoje recebeis o dom do Espírito Santo. Senti-vos mandatados a anunciar Cristo vivo ao mundo. Não tenhais vergonha de ser cristãos, de defender os mais frágeis, de escolher o bem e de ser diferentes quando for preciso. A Igreja conta convosco, a Diocese conta convosco e eu como vosso Bispo conto convosco, com cada um de vocês.

A nossa caminhada de visitas pastorais começou em Santiago de Almada e prosseguiu por Cacilhas, Pragal, Costa da Caparica, Trafaria, Sobreda, Vila Nova da Caparica, Cova da Piedade, São José Operário do Laranjeiro Feijó, Vale Figueira, São Francisco Xavier, Monte da Caparica, Amora, Corroios e Vale de Milhaços. E agora, Arrentela, Paio Pires e Seixal. E ainda estou vivo, hein? Hoje juntámos, pois, com muito carinho, a esta caminhada esta amada comunidade de Arrentela, de Paio Pires e do Seixal.

Cada comunidade tem o seu rosto, a sua história e os seus desafios, mas todas pertencemos à mesma família diocesana. Nenhuma comunidade fica para trás e a nossa caminhada continuará agora em Fernão Ferro e Pinhal de Frades e depois Miratejo para encerrar a Vigararia do Seixal. Ao Pe. Abraão, ao Pe. António, ao Pe. Mário, aos agentes pastorais, a todas as comunidades, deixo uma palavra de sincera gratidão. Obrigado pelo acolhimento, pela generosidade e por tudo o que partilhamos. Peço-vos que continueis a caminhar juntos, fortalecendo a comunhão entre as três paróquias, cuidando uns dos outros e procurando chegar também àqueles que estão mais afastados. Nenhuma pessoa pode ficar esquecida. E quando hoje regressarmos a casa, levemos connosco esta pergunta, “que posso fazer, já amanhã, para manter acesa a luz de Cristo, na minha família, na minha comunidade, no lugar onde vivo?”.

Que Nossa Senhora, Padroeira destas comunidades, nos ajude a conservar a oração, o coração aberto a Deus e aos irmãos. Obrigado à Arrentela, obrigado Paio Pires, obrigado Seixal. A visita pastoral termina, mas continuamos juntos na fé, na amizade e na missão. Contai comigo e eu conto convosco.

Amém.

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