Mensagem para Advento e Natal de 2025 – “É possível…”

Nov 24, 2025

 Mensagem para Advento e Natal de 2025
“É possível…”

 

Gostava muito que, para todos nós, este não fosse mais um Advento, mais um Natal… antes pelo contrário, que seja «O» Advento, «O» Natal.
O tempo consome-se tão depressa como uma vela acesa e, precisamos de parar e dar toda a nossa atenção, todo o nosso coração e capacidade de entendimento à maravilha que vamos viver, ao maior mistério da história da Humanidade. A incarnação de Deus, isto é, Deus fazer-Se carne, homem como nós, é algo a que devemos prestar a nossa atenção, algo que nos deve comover e que pede capacidade de procurar entender a dimensão deste mistério.

A Igreja consciente da magnitude deste acontecimento, pede-nos que lhe demos pelo menos, quatro semanas do nosso tempo, como se assim pudéssemos fazer o caminho que nos leva à gruta de Belém. Na Terra Santa, ajoelhamo-nos para beijar aquele espaço sagrado e percebemos como somos pequenos perante o mistério. Gostava muito que vivêssemos este Advento assim, conscientes do mistério, ajoelhados perante o Menino e felizes pela maravilha que nos acontece.

A revelação do Natal é anunciada desde a primeira noite… os pastores correram a Belém, os Reis Magos também. Porque no céu, brilhou uma estrela. Assim nos contam as Escrituras, assim nos mostrou São Francisco de Assis, quando construiu o primeiro presépio…

Bem sei que hoje parece impossível dissociar o Pai Natal carregado de presentes, deste tempo que nos é dado viver, ano após ano. Assim como é difícil manter a pureza de outros Natais, em que os presentes cabiam todos num sapatinho. Mas é possível fazermos a nossa parte, enquanto homens, mulheres, jovens e crianças desta Diocese que habitamos.

É possível não deixar de fazer o presépio em cada uma das nossas casas. É possível fazer o presépio nas montras dos nossos estabelecimentos comerciais.

É possível encontrar algum tempo do nosso tempo, para perceber a cadência das quatro semanas do Advento. Com coroas ou sem coroas, o que importa é a luz de quatro velas que se acendem, uma de cada vez e nos podem iluminar este Natal.

É possível não criar expectativas nas crianças, sobre brinquedos e mais brinquedos e, antes pelo contrário, plantar nos seus pequeninos corações, a semente da generosidade que se faz atenção aos que menos têm e dádiva de uma pureza que só os mais pequeninos conseguem.

É possível transformar ofertas materiais em visitas aos hospitais, às prisões, em sorrisos que não se compram, nem vendem. É possível ter um lugar vazio nas nossas mesas, disponível para quem nos bata à porta.

Tudo isto é possível fazer acontecer à nossa volta. Basta uma decisão firme de viver este Advento e Natal, como se fosse o único e não mais um.

Mas não sou capaz de vos pedir, apenas, este olhar à nossa volta. Bem sei que já é muito, mas mesmo assim arrisco-me a ir mais longe.

Enquanto escrevo estas linhas, o mundo assiste à possível capitulação do povo ucraniano. Não sei como será vivido o Natal na Ucrânia, nem em Gaza, nem em Myanmar, nem em Cabo Delgado, Moçambique, na Venezuela, em tantos outros pontos do nosso mundo onde se vive a “Terceira Guerra Mundial aos bocadinhos” como nos dizia o Papa Francisco … Mas sei que há fome, há destruição, há medo. Há famílias desfeitas, crianças órfãs. A guerra foi, é e será sempre o pior de todos os males de que o homem é capaz. Porque anula, destrói e corrompe a dignidade humana, aquela a que todos somos elevados desde o momento em que nascemos.

E o Natal fala-nos de Esperança, de Alegria e de Paz. Como seremos capazes de viver a Esperança, a Paz, a Alegria do Natal, perante este mundo, face a acontecimentos que nos são distantes do ponto de vista pessoal ou familiar?

Não tenho respostas fáceis, mas sei que estamos a terminar o Jubileu da Esperança. Que nos pede essa capacidade de não desistir de anunciar, de amar, de cuidar dos outros.

Também sei que o segredo da nossa Fé está no pedido que nos é feito, «Amar a Deus sobre todas as coisas», aparentemente fácil, e «Amar os outros como a nós mesmos» e aqui é que percebemos logo como é difícil.

Por isso, o que vos peço, e peço a Deus que me ajude, é sermos capazes de Amar verdadeiramente o Outro neste Natal. Que sejamos capazes de não esquecer a guerra que assola o mundo. Que sejamos capazes de partilhar o que somos e o temos, mesmo o que nos pode vir a fazer falta…

+ Américo, Cardeal
Bispo de Setúbal

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